A imagem de duas crianças se beijando na internet e o que nós temos com isso. Por Nathalí Macedo

A imagem que chocou a internet nesta semana foi a de um garoto de 12 anos beijando seu “namorado” de 13, em sua festa de aniversário com o tema Pablo Vittar.

Comunguei da indignação geral. O bolo do Vittar estava lindo, mas criança não namora, ou não deveria – nem pessoas do sexo oposto, nem pessoas do mesmo sexo.

Criança não consente sexo. Criança não beija na boca. Criança precisa ser criança, brincar como criança, viver como criança.

Tal indignação, entretanto, me inquietou. De onde vem a adultização infantil e o que nós temos com isso?

A sexualização de crianças na grande mídia – não apenas brasileira – é coisa antiga, e isso nunca causou tanto estardalhaço na internet. Não faltam exemplos:

MC Melody, 10 anos, que mais parece uma adulta em miniatura, posta fotos com traje de banho recebe comentários maliciosos de homens adultos nas redes sociais – cadê os pais dessa criança?

O elenco infantil de Stranger Things reapareceu, de um ano para o outro, com caras de adultos sensuais de Hollywood (Hollywood está sempre precisando de adultos sensuais, não é mesmo?).

Larissa Manoela, que protagonizara o remake da novela infantil “Carrossel”, já se parece tanto com uma mulher que entraria facilmente em qualquer balada 18+.

A apresentadora mirim Maísa precisou bater o pé no Twitter quando indagada se tinha namorado. “Eu sou criança! Criança não namora!” – queria eu ter tamanha lucidez aos 13 anos.

O fato de haver fotos de crianças “namorando” e expondo isso nas redes, muitas vezes com o aval de suas famílias, não pode, por uma questão lógica, estar dissociado da adultização sexualizada promovida pela mídia em relação às crianças famosas – porque crianças famosas inspiram crianças não famosas, que logo deixam de sentirem-se crianças.

É triste, para não dizer desesperador, ver tantas crianças cada vez mais novas enfiando-se em relacionamentos enquanto poderiam estar jogando basquete, andando de skate ou assistindo Dora, a aventureira.

A infância é uma fase bonita demais para não ser vivida até o fim, e as agruras dos relacionamentos são agressivas demais para a frágil e ainda não formada psiquê infantil.

Eu fico com a pureza das respostas das crianças como Maísa: Criança não namora.