Ítalo, o menino de 10 anos baleado na cabeça por um PM, queria ser cantor. Por Mauro Donato

O enterro do menino Ítalo
O enterro do menino Ítalo

 

Viralizou na internet nos últimos dias um bilhete de um pai para sua filha:

“Catarina, filhota, a partir de hoje todos os dias vou mudar a senha do wifi de casa. Para receber a senha de hoje precisas arrumar o quarto e lavar a louça. Papai que te adora.”

Ter se tornado viral é a comprovação de que milhares de pessoas do mesmo estrato social do pai de Catarina viram-se identificadas diante da incapacidade de controlar seus rebeldes (e mimados) rebentos.

Quase simultaneamente, dois meninos, um de 10 e outro de 11 anos, furtaram um carro no bairro do Morumbi e, durante a fuga, Italo (10) acabou morto pela polícia com um tiro na cabeça. Ele estaria dirigindo o veículo e também teria sido o autor de disparos contra os policiais.

Perante a repetição da divulgação da notícia e do elenco envolvido (pai presidiário e mãe ex-presidiária), testemunhei reações do gênero: “que família boa hein”, “tá explicado, tá no sangue”, “olha que santinho” e por aí afora. Preciso dizer que se tratava de pertencentes da mesma turma que achou providencial o bilhete endereçado a Catarina?

Pais e mães que não conseguem fazer com que seus filhotes abastados e entediados pelo ócio sequer lavem a louça não hesitaram um minuto em condenar de bate-pronto a família do menino morto.

Italo, em sua longa trajetória de uma década de vida na selva paulistana, nunca viveu em uma ‘casa’. Com os pais cumprindo pena atrás das grades, o menino dormiu na rua, em casas de parentes, em abrigos. Chegou mesmo a viver num carro abandonado durante um tempo. Qual foi a atenção que recebeu? O que lhe propuseram como ajuda? Quem ofereceu amparo? Ninguém.

Italo aprendeu a se virar. Afinal de contas, é preciso comer para sobreviver. Assaltava supermercados com frequência (não o caixa, a gôndola com alimentos). Terminou a quinta-feira dentro de um outro carro e este, infelizmente, não era abandonado. Era de alguém e a polícia mais uma vez agiu de acordo com aquela grotesca filosofia de proteção ao patrimônio.

A história toda está repleta de inconsistências desde seus primeiros relatos. Como dois meninos pulam o portão de um prédio de alto padrão no Morumbi, andam pela garagem à procura de um carro que esteja aberto e com as chaves no contato (!!) e ninguém os vê? Não há câmeras num prédio daqueles? Os primeiros depoimentos dos policiais davam conta que não tinha sido possível saber que eram crianças pois os vidros do carro eram escuros.

Disseram também que o menino atirou pelo menos três vezes em direção a eles. Recapitulando: uma criança de 10 anos dirige um carro em alta velocidade e ao mesmo tempo abre o vidro, atira (para trás!) e depois fecha o vidro novamente (se não dava para ver através do vidro é porque estava fechado, certo?). Fez isso 3 vezes, assim naturalmente, como quem abre e fecha o vidro do carro para bater a cinza do cigarro? O Brasil perdeu um exímio protagonista de Hollywood.

Brincadeiras à parte, o mundo de Ítalo só se materializa para o mundo de Catarina (não a específica, mas as catarinas que vivem em lares com wifi) quando tragédias assim acontecem. Antes disso, ignora-se solenemente as pessoas que estão em condições indigentes.

A redução dessa desigualdade necessita de um esforço conjunto de vários segmentos da sociedade. Se deixar só para a polícia resolver, ela resolve do jeito dela. O menino não teve nenhuma proteção de instituições sociais que evitassem chegar aonde chegou.

Italo era só uma criança. Abandonada, causou prejuízos a terceiros e teve um fim trágico. Só hoje sabemos que sonhava em ser cantor. E J. (11 anos), seu colega que continua vivo? Terá um futuro diferente?