Juca Kfouri: “Aquela sociedade que foi à Avenida Paulista está satisfeita”

Juca (Foto: NILTON FUKUDA/ESTADÃO)

Publicado na Rede Brasil Atual.

“É claro que pessoalmente não perdi, mas o Brasil que eu sonhava aos 17 anos quando começava a ser militante político não tem nada a ver com esse Brasil de hoje. O futebol que me ocupa há mais de 40 anos não tem nada a ver com o futebol que sonhava quando comecei a carreira de jornalista.”

E referência às duas lutas que considera terem norteado a vida de Juca Kfouri justificam o título dado pelo jornalista ao livro de memórias que lança nesta terça-feira (3), na livraria Saraiva do Shopping Higienópolis, em São Paulo. Confesso que Perdi – também alusão à obra clássica de Pablo Neruda e às derrotas das quais se orgulhava Darcy Ribeiro. A obra traz momentos marcantes da trajetória profissional, que passam pela direção de redação de publicações como Placar e Playboy, coberturas de Copas do Mundo e encontros com presidentes da República.

No futebol, Juca mostra frustração. “A minha derrota é ver a garotada hoje vendo muito mais futebol fora do Brasil do que aqui. Não dá para competir. Parece outro esporte. Você vê a Premier League e compara com a primeira divisão brasileira, são modalidades diferentes. Para mim isso é uma derrota brutal.”

O jornalista também fala sobre o quadro político atual, a cultura do ódio e os retrocessos que ameaçam e atingem a própria democracia no país. “Parecia uma coisa absolutamente superada, o que reforça a sensação do ‘confesso que perdi’. Nos últimos anos, de 1994 para cá, diversas vezes tinha certeza de que o Brasil tinha decolado, que a capa do The Economist ia se materializar como realidade. E olha como nós estamos.”

Primeiro, queria que você explicasse o título do seu livro e como surgiu a ideia de fazê-lo.

A ideia não foi minha, mas do Luiz Schwarcz, que leu uma entrevista minha no UOL e achou que ali tinha um livro. Marcamos um almoço, o Matinas Suzuki Júnior foi junto, e eu fui para demovê-los. Achava não só que não tinha tempo nem paciência para contar memórias como achava – e até agora acho, ninguém me provou o contrário – que não haveria muita gente interessada nisso.

Estava eu no discurso inicial para demovê-los quando o Matinas sacou da bolsa a biografia do Walter Clark, com prefácio do Otto Lara Resende, com um parágrafo sobre a importância do memorialismo, que todos nós devemos escrever nossas memórias. Eu disse a ele: isso é uma sacanagem, um argumento absolutamente desonesto intelectualmente, me confrontar com o Otto Lara. Marcamos uma reunião uma semana depois na Companhia das Letras.

Quando cheguei, a moça da recepção me perguntou: o senhor é fornecedor ou autor? Eu olhei bem para ela e respondi “autor”. Já subi convencido de que ia fazer. Era para entregar em setembro os originais. Sentei na sala de casa, com meu ipad, e comecei. E percebi que eu jorrava o livro. Claro, tinha que checar coisas, certamente haverá confusões de memórias.

O título nasceu da ideia da apropriação indébita do livro do Pablo Neruda, Confesso que vivi. O “perdi” é uma homenagem ao Darcy Ribeiro, que sempre disse que se orgulhava de suas derrotas e teria vergonha de estar junto aos vitoriosos, e por causa dessa minha sensação, que não é pessoal. É claro que pessoalmente não perdi, mas o Brasil que eu sonhava aos 17 anos quando começava a ser militante político não tem nada a ver com esse Brasil de hoje. O futebol que me ocupa há mais de 40 anos não tem nada a ver com o futebol que sonhava quando comecei a carreira de jornalista.

As grandes lutas da minha vida, as duas bandeiras, de um Brasil justo e de um futebol bem gerido, claramente perdi, não tem como dizer que não. Você pode dizer “ah, mas veja a situação dos cartolas que você denunciou”… Isso não me faz a felicidade porque não mudou o futebol brasileiro, mudou a vida deles. A questão é estrutural. Sai o Havelange, entra o Ricardo Teixeira; sai o Ricardo Teixeira, entra o Marin; sai o Marin, entra o Marco Polo que não viaja… São todos farinha do mesmo saco.

Para Juca Kfouri, a mídia esportiva não é frouxa com as mazelas do esporte: é promíscua. “Uma semana de jornalismo correto no Jornal Nacional derrubava o Ricardo Teixeira”, diz 

Mudam as peças, mas o jogo continua o mesmo.

O Nuzman, as coisas todas que escrevi antes da Copa do Mundo, das Olimpíadas, dizendo “não é por aí, não façam isso”… Fizeram. Estou feliz? Era óbvio que isso ia acontecer, não precisa ser nenhum gênio para perceber. Em segundo lugar, o prejuízo está aí, instalado, o que viraram os esportes olímpicos brasileiros? Estão em uma fase anterior a 30 anos atrás. Não é que não houve legado da Olimpíada, nós retroagimos. Não é que não houve legado da Copa, os estádios estão servindo para fazer exclusão social, para elitizar o torcedor. Continuamos exportando pé de obra mais do que exportávamos.

Você diz que o futebol brasileiro tinha potencial para ser do nível da NBA…

Claro que tem, e não é. E exporta pé de obra. O futebol que a seleção passou a jogar com o Tite não tem nada a ver com os clubes. Você assiste a um jogo como Cruzeiro e Flamengo, final da Copa do Brasil, no primeiro tempo até ia… mas com 61 mil pessoas no Mineirão, uma decisão, foi um jogo pobre. Tem algum jogador que te faria sair de casa para vê-lo? Você sai para ver seu time. Mas não aquela coisa que tinha desde menino, ia cedo no Pacaembu para ver o Rivellino no time de aspirantes do Corinthians em 1964. Quando estava surgindo um cara, você ia ver. Hoje em dia não, nem os consagrados.

E essa sensação de derrota, você já começou a escrever o livro com isso ou foi à medida que foi escrevendo que isso surgiu?

Já tinha. Tanto que uma coisa que tirei, achei que ia ficar misterioso na cabeça das pessoas, a cada capítulo que ia escrevendo ia fazendo um placar. Não me lembro exatamente mas vou chutar: dava algo como 17 a 9…

Sobre essa questão de sair para ver um jogador atuar e no livro você menciona que saía para ver o Santos jogar e que fez promessa para o time virar o segundo jogo da decisão do Mundial contra o Milan, em 1963. Isso me remeteu a uma declaração do Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-presidente do Palmeiras, que também disse que gostava de ver aquele Santos dos anos 1960 jogar e que tinha dúvidas se a linha Dorval, Jair, Pagão, Pelé e Pepe não era melhor que a clássica Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe…

Veja bem, Jair era melhor que Mengálvio. O Pagão era um jogador… Nossa… Mas tinha “joelho de vidro”, se machucava muito e não era tão espetacular quanto Coutinho. Embora os três “pês”, Pagão, Pele e Pepe, tenham feito misérias… Até hoje não sei quem era melhor dentro da área, se o Coutinho ou o Romário. Melhor que o Pelé, dentro da área, os dois foram.

Não dá para você gostar de futebol e não ter sido apaixonado pelo time do Santos. A única vez que apanhei em um campo futebol, e nem conto isso no livro, foi por causa do Santos. Um jogo Corinthians e Santos. Depois de 4 a 4, o Santos fez 5, 6… Acabou. No último minuto, o Pelé fez um gol de fora da área, 7 a 4, acho que o goleiro era o Heitor, no ângulo. E eu no meio da torcida do Corinthians, aplaudi. Tomei cascudo, bagaço de laranja… Tive que sair, fui embora.

E como conto no livro, devo dois anos da minha saúde ao Santos, porque prometi parar de fumar se ele virasse o jogo contra o Milan. Sei que o santista não gosta que diga isso, mas até hoje eu não consigo… Evidente que torço para o Corinthians contra o Santos, mas não o tenho na conta de rival. Não dá para não gostar do Santos.

Dessa época para cá a cultura do ódio não impregnou demais o futebol? Porque hoje é muito difícil um torcedor admitir que gosta ou gostar de fato de ver um outro time jogar.

Não sei responder se é por causa da intolerância que grassa no país. Mas eu, independentemente de ser jornalista, cansei de sair de casa para ver, quarta-feira à noite – e trabalhava em revista, não tinha porque ir cobrir – o Palmeiras de 1996. Torci muito para o São Paulo de 1991-92, de Telê, Raí… Como também se torceu, claro que também tinha uma questão política, para a Democracia Corintiana, mas o Sócrates encantava.

Tirante o Santos de 2002 e um pouco o Santos de Neymar e Ganso, quais foram os outros grandes times que passaram pelo futebol brasileiro neste século? Ah, o Corinthians de 2015 terminou o ano brilhantemente. Sim, mas esse time do Tite fez um grande jogo no campeonato – com exceção do 6 a 1 no São Paulo, mas aí o campeonato estava decidido –, que foi o 3 a 0 no Galo no Horto, ali o campeonato acabou. Era um time bem montado, bem organizado, mas me diga qual jogador daquela equipe te tirava de casa? O Renato Augusto, o Cássio, o Vagner Love? Veja a comparação, falei de Neymar, Ganso, de Diego e Robinho surgindo, de Raí, do time do Telê, de Djalminha, Miller, Rivaldo, Pelé, Pagão, Pepe, Mengálvio, Jair… A diferença é abissal. Não leve isso em conta de nenhum tipo de saudosismo porque me divirto vendo o Messi, o Cristiano Ronaldo, o Neymar, igual me divertia vendo todos que citei. O problema é que esses caras aqui no Brasil escasseiam.

E quando você fala isso tem os comentaristas no seu blog, os “resultadistas” costumam xingar.

Falam pra mim: “você é um corintiano de merda, o time está dez pontos à frente do segundo colocado e você achando ruim”. Mas é isso, nenhum jogador desse Corinthians me tira de casa. Nenhum. Talvez o (Guilherme) Arana venha a ser um baita jogador, um lateral do porte do Roberto Carlos, mas por enquanto não é.

O que quero dizer é o seguinte: não acho que o futebol tenha caído. O Barcelona não caiu, esse Paris Saint-Germain, fiquei embevecido de ver contra o Bayern. O Real Madrid é um grande time, dá gosto de ver. A minha derrota é ver a garotada hoje vendo muito mais futebol fora do Brasil do que aqui. Em última análise, não dá para competir. Parece outro esporte. Você vê a Premier League e compara com a primeira divisão brasileira, são modalidades diferentes. Para mim isso é uma derrota brutal.

Sobre as equipes de fora, hoje temos também os videogames que refletem de certa forma essa disparidade técnica, além da transmissão das partidas até na televisão aberta. Existe o risco de essas gerações mais novas torcerem para equipes do exterior e terem as brasileiras como um tipo de segundo time?

Morro de medo disso. No Lance!, tem uma coluna do Amir Somoggi que mostra uma estatística com venda maior de camisas de times estrangeiros do que de brasileiros em uma determinada rede de lojas. E é isso mesmo. Isso tem a ver com uma política deliberada da CBF. Você vai para fora do Brasil – agora não sei, faz tempo que não viajo e depois dos 7 a 1 não sei como ficou isso –, mas você passava na frente de uma loja de material esportivo e a primeira coisa que você via era camisa da seleção brasileira. Entrava na loja, achava camisa do Bayern, do Milan, do Barcelona, do Real Madrid… e do Boca Juniors e do River Plate. Não achava uma camisa do time mais popular do Brasil, do que foi do Pelé, do tricampeão mundial… Você não via. Por que? Porque a CBF fez a escolha de fazer da grife do futebol brasileiro a seleção. Por isso não permite que os nossos clubes excursionem para jogar os torneios de pré-temporada na Europa.

Quando eu era moleque, o cachê do Santos era maior que o da seleção, desde que tivesse o Pelé. O do Botafogo, se tivesse o Mané (Garrincha), era igual ao da seleção. Isso acabou. E você pega um cara como o (Carlos Alberto) Parreira, que um dia achei que fosse inteligente, e vejo ele dizer que isso é muito bom porque assim os jogadores brasileiros aprendem um padrão europeu de jogar futebol, e os europeus olham os brasileiros de outro jeito porque quando perfilam veem que o melhor do Paris Saint-Germain, do Liverpool, está na seleção, que o ídolo do Real Madrid também…

Sobre isso, tem um trecho no livro que você diz que “a superestrutura do futebol será a última a mudar no Brasil, por ser avessa a mudanças, além de corrompida e corruptora”. E se é fato que o futebol brasileiro não é melhor que a sociedade brasileira, parece que ele acumula outros defeitos, além da corrupção que você cita: é machista, homofóbico, racista, fomenta o individualismo… Porque essa concentração tão grande de vícios?

Está aí a razão pela qual acho que vai ser a última coisa a mudar. Existe uma coisa comum a todos os torcedores mundo afora que é a irracionalidade. Posso dizer que nunca vi o futebol assim. Tenho plena consciência de que o Corinthians não teria o tamanho que tem se não existisse o Palmeiras e vice-versa. Os caras são meus adversários, não meus inimigos… Inimigos você quer matar. Mas conto no livro um episódio da minha irracionalidade com um jornalista italiano, quando o Baggio mandou o pênalti pras alturas. Enfim, eu era campeão do mundo e não tinha visto isso in loco.

Acho que é muito em função desse exemplo não democrático, corrupto, que a estrutura do futebol proporciona. O torcedor de futebol não é capaz de fazer uma manifestação na porta da CBF, a gente tentou dois anos atrás com o Bom Senso, foi um fiasco. Mas vai no CT bater em jogador. É como se fosse o seguinte: as minhas reivindicações mais “sérias”, trato de uma maneira; aquilo que é meu entretenimento, embora seja muito mais que isso, trato de outra. Cobro o jogador, e, até nesse sentido, vira um “ele que ponha o pescoço para fora e se manifeste”. E aí é aquela história, você passa a exigir heroísmo com o pescoço alheio.

Está aí o Paulo André… Foi pra China. E no Cruzeiro, Vanderlei Luxemburgo – não tenho falado o nome para não parecer perseguição – disse para ele “Paulo, quero que você seja meu titular, mas o presidente não quer…”

Dentro desse cenário, tivemos há pouco a Cristiane, dizendo que não joga mais pela seleção por conta da demissão da Emily Lima, e também a Fran, que a acompanhou no gesto.

Bem vindas e benditas as mulheres! Claro, alguém desqualificará: “mas está em fim de carreira, por que não fez isso dez anos atrás”… Acho ótimo elas fazerem isso. Como a Jaqueline e a Isabel fizeram no voleibol. Pagaram pesado por causa disso, mas não se curvaram, a Jaqueline acabou campeão olímpica no vôlei de praia, foi fazer sua carreira para não depender dos “Nuzmans” da vida. E eu sou assim, mas não posso exigir que você seja. Sei da minha realidade, não da sua. Sei que posso fazer desde que tenho 20 anos. Mas porque meu temperamento manda fazer, não contrariar um princípio meu.

Você comentou, a intolerância está de tal ordem que você não imagina como me desancaram no blog porque participei da entrevista com o Lula no Papo com o Zé, “você é seletivo, tem corrupto de estima, petralha…”. Não adianta eu dizer que não sou e nunca fui petista. Aí na semana retrasada fui participar de um debate com o Romário no lançamento de um livro dele. “Pô, mas vai manchar sua biografia, vai conversar com um golpista.” A pessoa é incapaz de se colocar em outra posição, eu sou um jornalista. Imagina se não vou falar com o Lula, com o Romário… Imagina se não vou falar com o Temer. “Por que você não perguntou para o Lula sobre Olimpíada e Copa do Mundo?”. E eu perguntei… A pessoa não viu. Perguntei e insisti, não dei trégua.

Mas é curioso porque nos anos 1990, quando alguém queria dar um exemplo de selvageria, falava logo de torcidas organizadas, mas hoje parece que há segmentos muito mais raivosos, por exemplo, nas redes sociais.

Sem dúvida. Em última análise é um fenômeno muito parecido, relacionado ao anonimato, ao bando, onde todos perdem a identidade, ou a coisa de eu estar sentado no meu ipad, no meu telefone, sentado e daí esculhambo com o mundo.

E quando existe o confronto pessoal o cenário muda como em um episódio no livro em que você conta que vieram xingá-lo embaixo do seu prédio.

Exatamente, daí eu desço, “arregam” e pedem selfie… Fiquei tão indignado na hora que esqueci de levar o celular para registrar porque queria ter filmado um deles me dizendo “Não, mas eu sou politizado, leio Gramsci, a CartaCapital e o Vermelho.” Tô perdido.

Mas o selfie foi pedido quando você os encontrou com o advogado Roberto Podval.

Foi no escritório dele na Rua Estados Unidos. Fizemos a conversa que foi muito boa, tinha dois judeus. Falei para eles: o fato de eu ser Kfouri não me leva a dizer o que vou falar para vocês até porque meu filho mais moço é filho de mãe judia. Mas Auschwitz começou assim, com essa intolerância, e acabou em cima dos judeus. Aí, depois, com a conversa, um chegou e falou “eu sou corintiano, estou arrependido”…

Se as pessoas não se escondessem tanto para agredir e conversassem mais assim, pessoalmente, talvez não tivéssemos chegado a esse ponto.

Mas sabe o que mais me incomoda em tudo isso? Sei que desde que escrevi o texto da panelança cheia nas varandas gourmet, desperto ódio em uma certa camada da população. Isso é claro nos e-mails, nos comentários das redes. Mas vivo fazendo palestras Brasil afora e nunca alguém levantou da plateia para me ofender. Nunca. Nunca ninguém parou na rua para me hostilizar, quando fazem isso é para dizer que acompanham meu trabalho, parabenizam… É de uma covardia, e sei que tem pessoas pelas quais eu passo que eventualmente gostariam de dizer “olha, você é um merda”. Mas não têm essa coragem.

E quando as pessoas têm é porque estão em grupo…

Quando se pensa o que fizeram com o Chico Buarque… Ele gargalhando, falando que descobriu nas redes sociais que é um filho da puta… Cada vez que faço menção ao Chico, e fiz menção a ele a respeito do lançamento do novo disco, vem um que comenta: “Não vou comprar porque esse cara é petralha”. Como se nós que somos de esquerda disséssemos “não leio Nelson Rodrigues porque ele era de direita”. Sou tão idiota que me torno incapaz de curtir Nelson Rodrigues porque ele pensa diferente de mim.

Tivemos esse caso da exposição do        Santander recentemente e foi o próprio banco que encerrou a mostra…

Se eu tivesse conta no Santander teria encerrado imediatamente.

Pensando nisso, estamos relativizando esse tipo de ameaça? Não só a censura, mas tantos outros aspectos que remetem a uma ascensão de caráter fascista?

Esse é o grande risco que nós estamos correndo. Imagina o general Mourão versão 2017, e alguns dizem “ah, mas não há clima para isso”. Não afasto mais nada, porque cansei de ouvir gente dizer “não vai ter golpe”. O que mais me preocupa é exatamente isso, porque hoje a coisa está tão disseminada e de maneira tão disfarçada que é feita sutilmente. Quando se percebeu, o golpe estava dado.

Fui em uma manifestação no Largo da Batata (tradicional local de concentrações em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo), e quando chegou minha vez de falar, disse: “Olha, me desculpem, sou jornalista e não vim aqui para enganar ninguém. Vocês estão gritando ‘não vai ter golpe’, mas lamento informar que o golpe já foi dado. A Dilma não será mais presidente do Brasil. O que temos que fazer é resistir ao golpe, infernizar o governo Temer que vem aí, mas o golpe é inevitável”. Foi uma situação meio constrangida porque os outros estavam “na pilha” do “não vai ter golpe”, mas eu não podia fazer isso. Não sou candidato a nada, tinha que falar o que via.

E em relação a toda retirada de direitos que temos acompanhado, o que justifica essa apatia da maior parte da sociedade?

Aquela sociedade que foi à Avenida Paulista está satisfeita. É a corrupção de nós mesmos, a de sempre, de 500 anos na qual a elite brasileira se locupleta. Não quero esses caras que chegaram aí, andam de camiseta regata, pegam avião comigo, estão na universidade me atrapalhando. Esses aí têm que saber o lugar deles. E não é outra a razão do nosso sistema educacional ser como é.

Educação ruim é um projeto, como dizia Darcy Ribeiro.

É claro, é a melhor forma de exercer o domínio, a herança de um país com 350 anos de escravidão, o último a ter abolido esse sistema.

É o que o Jessé de Souza fala que é a escravidão que estrutura o Brasil e não a corrupção.

No dia da entrevista na casa do Trajano, o Lula contou uma história. Ele estava na casa de alguém muito rico, de esquerda, e fez questão de apresentar a cozinheira dizendo “Lula, a fulana é da família, está conosco há 30 anos. É da família…”. Quando foi à cozinha se despedir, ela falou “presidente, ele disse que sou da família, mas eu não estou no testamento não…”. É da família até certo ponto, enquanto puder explorá-la.

O Guilherme Boulos, líder do MTST, já disse em mais de uma ocasião que há um barril de pólvora sendo armado” no atual panorama do país. Qual a sua avaliação a respeito?

Eu sacaneio o Boulos às vezes dizendo para ele: você está prometendo coisas que não tem condições de acontecer… É brilhante o trabalho dele, a organização que estabeleceu, mas é a tal história de novo. Nós que comemos de garfo e faca desde que nascemos, que entramos nas universidades, ficamos na expectativa do pescoço alheio. Acho que não vai ser por aí. E vamos discutir de novo o que já se discutia depois do golpe de 1964, o papel das vanguardas, do intelectual orgânico… Mas a gente retrocedeu pra caramba.

Para mim, é kafkiana a ideia de que eu possa estar vivendo, aos 67 anos, o que vivi aos 14. Só que aos 17 anos achava que tinha uma saída armada. Demorei três, quatro anos para perceber que não era por aí, hoje, se houver um golpe militar – e nem precisa haver o militar, porque estamos vivendo uma situação de golpe – sei que a solução não será armada. Serei contra qualquer tentativa de resistir pela luta armada. Mas vou acabar preso, como eu tinha medo que acontecesse aos 17 anos, que o Doi-Codi batesse na minha casa como fez aos 20. Vou escrever, ou não vão publicar e vou perder o emprego, ou vão publicar e vou ser preso. É ridículo pensar isso. Meus filhos vão entender, mas como minhas netas pequenas vão entender? Até hoje não entendem como o vovô e a vovó foram presos em 1970. Parecia uma coisa absolutamente superada, o que reforça a sensação do “confesso que perdi”. Nos últimos anos, de 1994 para cá, diversas vezes tinha certeza de que o Brasil tinha decolado, que a capa do The Economist ia se materializar como realidade. E olha como nós estamos.

E tudo aconteceu em um período de tempo muito curto.

Muito curto, e sempre nessa base: “imagina que o Eduardo Cunha vai prevalecer…”. Agora, boa parte da não mobilização tem a ver com a nossa mídia hegemônica. Porque é a tal história, quando a mídia manifesta e se mobiliza, obtém resultado. Por mais indignados que alguns veículos possam estar, não estão fazendo o chamamento das ruas. Até porque tem medo dessa rua. Essa elas não querem.

Sua fala também remete a um texto do professor Aldo Fornazieri a respeito da esperança que algumas pessoas nutrem pelo fato de que, como a caravana do Lula pelo Nordeste foi bem sucedida, parte do povo se mobilizaria caso a sua candidatura à presidência fosse impedida. Mas ele acredita que sem um trabalho de organização e mobilização isso seria impossível.

Tenho dúvidas até se prenderem o Lula amanhã se vai haver alguma coisa grande. Acho que estão com medo de fazer isso, senão já teriam feito isso. Veja que até a rejeição dele baixou segundo a pesquisa Ipsos. Mas, de novo, as vantagens e desvantagens de vir de longe, como dizia Leonel Brizola. Em 1964, eu era moleque e ouvi dizer que as Ligas Camponesas de Francisco Julião iam impedir o golpe e fazer a contrarrevolução. Em 1973, já bem grandinho, às vésperas de ter o meu primeiro filho, o general Prates iria confrontar as tropas do Pinochet, e seria muito mais forte e respeitado do que o Pinochet…

Então tenho muita desconfiança disso, que possa acontecer em uma faísca. Uma faísca não pressupõe o essencial, que é organização.

Parece que parte da capacidade de mobilização e organização se perdeu.

Eu acho. E acho que o PT tem grande responsabilidade nisso pela decepção que causou.

No evento 360°, você disse que “Há poucos setores tão reacionários e conservadores como a imprensa esportiva no Brasil e poucos conseguem separar o coração da razão”. Como você define a atual situação do jornalismo e, em especial do jornalismo esportivo?

Acho que a mídia tradicional cometeu um pecado mortal contra si mesma, na cobertura recente da política brasileira. Foi absolutamente seletiva e parcial, e não estou achando que devesse “refrescar” para lado algum, mas objetivamente refrescou. Só me pergunto o que seria de Lula ou da Dilma se fossem eles os protagonistas da conversa com Joesley. Todo dia teria aquela fita indo para o ar como todo dia tem o Bessias. Até hoje. Que é um áudio ilegal em todos os aspectos, e o do Joesley não. Essa é a mídia tradicional.

A mídia esportiva se divide hoje entre quem faz jornalismo e quem faz entretenimento. E a maioria faz entretenimento e se dobra ao popularesco. Então acaba sendo de má qualidade. E você tem, felizmente, diferentemente de quando comecei, quando era muito solitário tratar dos bastidores e mostrar como as coisas aconteciam, um timaço fazendo isso. Digo sempre que, ultimamente, me compraz mais repercutir os outros do que dar um furo. Eles que deem, eu respaldo e repercuto.

Agora, em termos daquilo que mais aparece, estamos mal. O fenômeno que chamo – coitado, pagou o pato, falei em uma palestra e comecei a repetir – da “leifertização” do jornalismo esportivo. O cara que chega no esporte já está cansado da política, da economia, da polícia, da inflação… E o esporte é o oásis. “Caramba, Juca, tem Cruzeiro e Flamengo decidindo a Copa do Brasil e você vai falar dos atletas protestando na NFL”. E penso “do jogo todo mundo vai falar, alguém tem que falar disso”. Mas preferia falar do jogo.

(…)