Legou uma inflação de 80% ao mês aos brasileiros e virou estrela

Paulo Nogueira 12 de maio de 2013 42

Nos anos 80, Maílson da Nóbrega fracassou espetacularmente como ministro. Mas isso não o deteve

Maílson com Sarney, de quem foi ministro: 80% de inflação ao mês, e mesmo assim requisitado pela mídia

Logo no começo de minha carreira de jornalista a questão da boa escolha das fontes se apresentou.

A primeira aula que tive sobre isso foi na Veja, no começo dos anos 1980. Eu tinha 20 e poucos anos, trabalhava na seção de economia, e Elio Gaspari, o “General”, como era conhecido na redação, era o diretor-adjunto.

Elio muitas vezes se encostava nas divisórias baixas que separavam as editorias e falava sobre jornalismo. Para quem começava na carreira, como eu, era uma oportunidade excepcional de aprendizado.

Uma noite ele falou sobre fontes.

“As fontes são aquelas pessoas que atendem todos os telefonemas dos jornalistas”, ele disse. “Não são as melhores, são as mais fáceis, e isso faz diferença para repórteres preguiçosos.”

Um caso específico Elio citou: o então presidente da Fiesp, Luís Eulávio Vidigal. Ele era onipresente nas reportagens de economia e negócios na mídia brasileira, porque não recusava uma única entrevista.

Mais tarde, quando virei eu mesmo editor, fonte foi um tema sobre o qual me detive longamente nas conversas com os repórteres.

Em meados dos anos 1990, na casa dos 30, eu era diretor de redação da Exame. Jamais esquecera as palavras de Elio, mas acrescentei uma reflexão pessoal: prestar completa atenção na obra, no mérito da fonte.

Foi sob essa lógica que refizemos o time das fontes da revista.

Uma das primeiras eliminações, se não a primeira, foi o ex-ministro Maílson da Nóbrega, obra de Sarney. Por uma razão potente: ele deixara o cargo com uma inflação de 80% ao mês. Depois de um desempenho tão catastrófico, que sentido havia em ouvi-lo mandar fazer as coisas que ele próprio não conseguira fazer?

Maílson pretendia atacar os problemas econômicos com o que ele chamou de “arroz com feijão”. Foi uma das raras vezes em que os brasileiros sofreram violentamente com o arroz com feijão.

A Exame, e não apenas nisso, foi contra a corrente.

Maílson continuou a ser ouvido por repórteres de todas as mídias para tratar de economia. Acabaria por se tornar, também, colunista da Veja.  Tudo isso – a presença constante no noticiário — ajudou a empurrar adiante a consultoria que ele montou pós-governo, a Tendências.

Foi como se a celebridade de alguma forma obscuresse sua obra desastrosa como ministro.

Tenho aqui uma pequena confissão. No início dos anos 2000, quando eu era integrante do Comitê Executivo da Abril, dormi em boa parte das duas vezes em que a Tendências fez seus prognósticos econômicos a nós.

Não sou capaz sequer de lembrar se foram acertados ou não, porque não resisti ao tom monocórdio das apresentações. Meu amigo Jairo Mendes Leal, hoje presidente da Abril Mídia, sentava-se em frente de mim, e ria ao me ver dormindo.

Ainda hoje Maílson é presença ubíqua na mídia brasileira. Aos antigos predicados, ele agregou um que é valioso: critica severamente as administrações petistas. Maílson sabe que isso lhe dará os holofotes de jornais e revistas.

É uma troca: ele usa a mídia e é usado por ela. O leitor? Ora, o leitor que se dane.

Do alto do legado hiperinflacionário, Mailson dá lições aos brasileiros sobre tudo aquilo que ele foi incapaz de fazer. No papel, ele resolve os problemas em cujo trato fracassou miseravelmente.

Já foi dito aqui que maus editores são tão nocivos, para a mídia tradicional, quanto a internet.

Maílson é uma pequena prova disso.

  • http://jenipaponews.blogspot.com João de Deus Netto

    Na época, era motivo de choro, raiva, preocupação e até de comportamento galináceo (toma e sai cantando), hoje, eu ri o tempo todo lendo este belo texto. Meu Deus, olhem em que Brasil vivíamos!…Me belisquei agora pra saber como sobrevivi… Nuremberg, pra quem tem saudade desta put… oficializada!!!

  • Alexandre

    Caro Paulo,
    Esse é o caso do grande “Historiador” Marco Antonio Villa. A Veja lhe dá holofotes, luzes e tempo só para falar mal do PT. O cara é tão sem noção, que esperou o julgamento do “mensalão” para lançar seu livro. O que tem de gente ganhado dinheiro com o mensalão… O blogueiro da Veja, senhor Reinaldo Azevedo, também esperou para lançar seu País dos Petralhas II, aonde o mesmo teve o disparate de dizer que não era só um livro que falava mal do PT, mas sobre muitas outras coisas. Livro? Não passa de uma coletânea de suas colunas em seu blog. Quanto ao grande “Historiador” Villa, na minha terra, Pernambuco, diríamos assim: “Quem é Marco Antonio Villa no jogo do bicho?” E em relação ao grande ex-ministro da Fazenda de 80% ao mês, eu perguntaria: “Quem é o senhor no jogo do bicho para falar em economia?” É cada uma que me aparece. Só falta o grande imortal, dono de uma vasta carreira literária, Merval Pereira, lançar seu livro também.
    Grande abraço
    Alex

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Abraço, Alex.

  • http://causameespecie.blogspot.com.br/ Mauro

    Paulo,
    Maílson é mais uma figurinha carimbada do instituto millenium(tudo minúsculo mesmo…rsss)

    Aliás, fiz um “dossiê” com 3 reportagens/artigos sobre a agremiação, incluindo a sua.
    Está em ordem cronológica de publicação.
    A reportagem do Leandro Fortes, da CARTA CAPITAL, foi bem investigativa.
    Abraços.

    http://causameespecie.blogspot.com.br/2012/12/dossie-instituto-millenium-tres.html

  • Paulo

    clap clap clap clap clap clap clap, de pé e assoviando.

  • Saulo Londres

    Essa coisa nos envergonha duplamente.Parece que é paraibano.É muito azar.É uma insignificância intelectual ¨ensinando¨. Que perigo !!!!!!

  • Maristela

    Mas esse povo é mesmo muito picareta…

    • Helder

      Cara de pau deles não tem limite.

  • Aurélio Dubois

    “O leitor? Ora, o leitor que se dane”. Se ele consome notícias produzida pela mídia tradicional, muitas vezes sob a batuta de por maus editores é apenas uma questão de pobreza de espírito ou conformismo.
    Eu prefiro ler o DCM, sob a batuta do “boss” Paulo Nogueira.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Obrigado, meu caro Aurélio.

  • José do Vale Pinheiro Feitosa

    Paulo, até que podemos oferecer lições sobre o que fracassamos. Afinal o movimento se nutre de oposições. Agora, onde a vida é sublime é com a métrica semelhante à subida de espiral desde os vinte anos até entregar-se ao complexo pensamento do mundo Ocidental como você aí na Europa. Se você conseguir clareza do aprendizado de editor, teremos novamente um texto que revela os eixos do tempo. Tal como a síntese deste texto aqui: os preguiçosos da mídia a dar carreira ao oportunismo de um seminarista carreirista. As duas coisas. Não se sabe quem vai em primeiro: a carreira ou este viveiro de oportunidades.

  • http://olicruz.wordpress.com Olimpio Cruz Neto

    Paulo,
    Pensei que era só eu que achava o Maílson uma dessas figuras bizarras que estão sempre a falar, dar aulas e lições. Encabeça aquele disque-fonte que o Sakamoto sacou em seu blog há alguns anos. Maílson, Raul Velloso, agora o Marco Antonio Villa… Uns boçais. Mas há quem realmente considere-o um visionário. Enfim, só por aqui temos isso ainda. Parabéns pelo texto.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Abraço, OCN.

  • Emília

    Nunca gostei do Sarney e muito menos do seu governo, e esse Maílson entende de economia tanto quanto eu, ou seja, quase nada.

  • Geraldo Matias

    Com a mesma intensidade utilizada pela mídia-má para destruir o neo-socialismo no Brasil, está se formando uma massa crítica em relação a ela (grande mídia). Tenho certeza que eles tem os números do declínio (constante e progressivo) e estão preocupados. Pelo menos deveriam. Saudações, Paulo.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Saudações, Geraldo.

  • Saulo Londres

    Paulão esqueci de comentar o texto. Brilhante e e absolutamente verdadeiro. Abração. Cheers

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Mestre Saulo, saudações tricolores!

  • Beatriz M.T. Zacarelli Parreiras

    Eu me lembro muito bem desta época: os nossos salários eram reajustados mês a mês e nunca era o suficiente para cobrir a inflação. Não dá para esquecer a gestão do Mailson como ministro.
    Lembro-me também do dia que ele deixou o cargo para a famigerada Zélia Metralha – eu estava em Brasília para cobrir a posse e vi o Mailson sair desapontado e meio perdido porque os holofotes não estavam mais nele. Eu o vi bem de perto e a sua saída sozinho dali me deu a impressão que era o caminho mais longo que ia percorrer. Olhou para os lados e conferiu que não tinha ninguém para segui-lo e seguiu em frente.

  • Márcio Medeiros

    Paulo, esse é mais um artigo seu que eu gostaria de ter escrito. Já disse o que você escreveu – sem o mesmo brilhantismo, lógico – em dezenas de lugares em que esse enganador foi assunto. Não há como negar a minha irritação, cada vez que vejo o espaço que é dado e a reverência com que é recebida cada asneira proferida por essa nulidade. Sem dúvida a nossa “grande imprensa” merece te-lo com “guru”.

    Para esse artigo: clap, clap, clap, de pé…e mais…e mais…

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Grato, MM!

  • Helder

    É pra rir e pra chorar, caro Paulo. Esse trecho do seu texto resume bem o que muitos de nós já começaram a perceber na grande mídia tupiniquim:

    .

    “O leitor? Ora, o leitor que se dane.”

    .

    Sarney e mais um de seus legados ao País…

  • http://facebook.com/jorJoaoBosquo João Bosquo

    Só no Brasil que acontece essas coisas: o ministro que nos legou essa inflação monumental (talvez por conta disso) é louvado pela mídia; o treinador que levou o Palmeiras (bem feito) para a segunda divisão é premiado com o cargo da Seleção. Dá de entender?!

  • Dennis Rodrigues da Silva

    Daqui à pouco a Veja vai criar uma coluna esportiva/futebolística com o Sebastião Lazaroni criticando o esquema tático de Felipão/Parreira pra 2014…

  • PAULO TADEU

    Na década de 80 eu tive o desprazer de assistir uma palestra deste cidadão na faculdade, uma verdadeira água de salsicha. É impressionante, largou o pau no PT, Lula e Dilma, já está credenciado para dar o ar da graça na mídia entreguista.

  • http://www.facebook.com/darciocv Dárcio

    Maílson é daquelas coisas que se estivéssemos em um momento melhor, jamais existiria. E o pior é que o cara sai dando lições de economia por aí.

    Ok, vamos supor que ele tenha as chaves que abram as portas dessa prisão. Mas vale comprar sem questionar as previsões dele?

  • Hélio

    É em pequenos detalhes que se percebe a competência e o caráter das pessoas.. Tanto Maílson da Nóbrega como Luis Carlos Bresser Pereira foram ministros da Fazendo durante os terríveis anos Sarney, e fracassaram no combate à inflação. No entanto, se formos analisar hojej, vemos que na média, Bresser teve muito mais acertos do que erros, enquanto Maílson praticamente só fez bobagem. O tempo passou, e hj em dia, enquanto Maílson faz previsões furadas e dá conselhos econômicos “infalíveis” na mídia, Bresser escreve artigos e faz análises corretas, consistentes, demonstrando a realidade econômica brasileira, sem estrelismos, e, obviamente, sem tanto holofote midiático quanto Maílson. Ou seja, o joio e o trigo. Abs!

  • Master Dirty

    Lembro, por alto, de uma entrevista que o ministro “80% ao mês” fez alguns anos atrás, revelando que antes de assumir o cargo de ministro da fazenda, teve uma entrevista com o “dr” Roberto (Marinho). Disse que logo depois da “entrevista”, foi anunciado no JN como ministro da fazenda. Senti vergonha de ler aquilo. Assim como senti vergonha do ministro do STF, Luis Fux, de ter revelado a lambida de saco em Dirceu e João Paulo Cunha (ambos indiciados na época no famigerado mensalão da mídia) para conseguir a vaga de ministro.

    Esse é o nosso brasil, onde os “poderosos” ainda se comportam como na época da “reinação” de D. João no Brasil. Triste como a história aqui se repete ciclicamente e ela é esquecida logo em seguida, conforme Che Guevara (imaginem só) já tinha advertido…

    • http://facebook.com/jorJoaoBosquo João Bosquo

      Essa entrevista está na revista Playboy. Ele conta que estava interino e o presidente Sarney pediu para conversar com o ‘dr.’ Roberto Marinho… Depois da convesa, segundo o próprio Mailson da Nóbrega, quando estava no avião rumando pra Brasília uma edição extra do JN anunciava a efetivação do mesmo como ministro, decisão que Sarney acatou. O interessante dessas confisões de pusilânimes é o constragimento que submete os seus superiores.

  • WP

    Outro dia falei para um amigo sobre a importância que davam na imprensa ao campeão da inflaão – Mailson da Nóbrega – e ao campeão dos juros, Gustavo Franco . Errei. O campeão dos juros é o Armínio Fraga. O Gustavo Franco, com apoio do Pedro Malan, é apenas o campeão da estabilidade do Real. O que pode haver de verdadeiro na opinião de um sujeito que levou o país a uma crise cambial para sustentar a reeleicão de FHC? Armínio e Gustavo estão firmes na propaganda de seus fundos. O Malan pelo menos anda sumido.

  • Rogério Aparecido Clemente

    Para a direita e para o PIG, sucesso é qualquer coisa que atenda seus interesses, não os do povo. Competencia, eficiencia… quem deles se importa?

  • Rossi

    E pensar que o 80% foi formado pela UNB.

    • roberto stone

      Que eu saiba ele se graduou por uma tal CEUB. O que justifica suas críticas contra a USP, UNICAMP, etc

  • http://www.miamihoje.com Cesar Barroso

    Paulo,
    Você revelou a pedra de toque do jornalismo: a preocupação com o leitor. No final do rol de prioridades do mal editor está o leitor. Ele se preocupa em apresentar um produto redondinho, bonitinho, mais para atender a sua vaidade e à direção financeira do seu veículo do que ao leitor.
    Em episódio recente, tendo já contactado a IBM e recebido uma resposta entusiasmada abrindo-me todas as portas, inclusive o acesso a um de seus cientistas que me falaria sobre os próximos 100 anos da empresa, telefonei para o editor de uma revista brasileira colocando-lhe a par e lembrando-lhe que a IBM fazia 100 anos naquela semana. Ele simplesmente esnobou, esquecido dos leitores. Na prática, a preocupação de muitos desses editores é fazer merchandising. O leitor que se dane, como diz.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Pois é, Cesar. A quem apelar?

  • Clovis Pacheco Filho

    Maílson é um dos melhores exemplos que existem de malogros premiados!

  • MARCELO

    Rogério Clemente,acorde,não
    vê os comerciais de estatais
    federais cheios de atores da
    Globo na TV,não?PIG???kkkkk

  • Rossi

    Além de colaborador da Veja,me parece ser também consultor econômico da Abril.Pobre Civita!

    • Rafael

      Rumo à bancarrota.

    • Clovis Pacheco Filho

      Tomara a bancarrota financeira seja à altura da jornalística!

  • adhemir martins da fonseca

    nome certo seria o cailson da nobrega ou então
    mauilson da sofrega.

  • Tomás