Magno Malta e a Bíblia: ensinamento vale para os outros, não para ele. Por Joaquim de Carvalho

Lauriete e Reginaldo
Magno Malta e Lauriete, que era mulher do pastor Reginaldo

O senador Magno Malta se apresenta como defensor da família e, assim, tem conseguido sucessivos mandatos desde 1994. Ex-pastor evangélico, foi deputado estadual, deputado federal e é senador.

Mas há um capítulo de sua biografia que pastores evangélicos veem como escandaloso e atentatório aos valores que ele ele diz defender, os da família.

É o casamento dele com a cantora gospel Lauriete, do Espírito Santo.

Ela era casada quando foi para Brasília, eleita deputada federal com o apoio do marido, o pastor evangélico Reginaldo Almeida.

Logo depois de assumir o mandato na Câmara, Lauriete se separou, mas nunca disse o motivo. Para quem conhece os dois, a razão do divórcio, em 2012, seria o relacionamento com Magno Malta.

O então presidente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, Theodorico Ferraço, chegou a dizer publicamente, após uma reunião: “O homem (Magno Malta) não é fácil, não. Em Brasília, todo mundo já sabe. De mãozinhas dadas e tudo mais”.

Magno já era divorciado e casou com Lauriete em cerimônia para poucos convidados. Logo depois, passou a exibir a tatuagem com o nome Lauriete no braço e, nas poucas vezes em que falou sobre o romance, se disse apaixonado.

Celso Russomanno, que é seu amigo, entrevistou o casal num programa de televisão e disse que viu a transformação de Magno Malta quando ele começou a namorar Lauriete.

“Os olhos deles brilhavam”, afirmou, enquanto Magno e Lauriete se acariciavam, com as mãos entrelaçadas.

O presidente da Associação dos Pastores de Vitória, Ozenir Corrêa, reprovou o segundo casamento de Lauriete e de Magno Malta;

“Biblicamente, o casamento é indissolúvel. Fisicamente, é um só. O próprio senador Magno Malta pregou por anos essa indissolubilidade, e agora caiu contra a sua própria verdade”, afirmou.

Um jornalista que é amigo de Magno Malta, Jackson Rangel, publicou uma nota na Folha de Vitória que dá ideia de como esse caso desceu aos padrões mais baixos do que pode se entender por comportamento civilizado:

Antes mesmo de assumir o namoro com Lauriete, Magno teria dito a respeito do marido dela, ex-deputado estadual e vereador, para justificar a separação e diminuir a pressão dos evangélicos:

“Ele é um canalha, vagabundo e nojento. Foi flagrado na cama com outro homem. E a empregada gravou tudo. Ela nunca desconfiou disso, mas agora está tudo muito claro. Eu estava ajudando ele acertar seus problemas no Tribunal de Contas da União, mas larguei tudo”.

Magno desmentiu a frase no dia seguinte, mas antes o jornalista seu amigo já tinha retirado a nota do ar. A declaração, no entanto, ficou na rede tempo suficiente para que fosse compartilhada e a versão ainda hoje seja repetida em sites evangélicos.

O que aconteceu com Magno Malta e Lauriete pode acontecer com qualquer pessoa —o casamento anterior se desgastar, terminar e surgir um novo amor. Não é desejável, mas acontece.

O  que chama a atenção nesse episódio é que, até alguns meses antes do namoro com Magno Malta, Lauriete parecia ter um casamento perfeito. Já durava 20 anos, ela e o marido Reginaldo tinham uma filha e eram bem sucedidos.

Lauriete fazia declarações públicas de amor ao marido, como em um vídeo gravado por ocasião do lançamento de um disco da cantora:

”Um beijo grande para o meu esposo Reginaldo, que incansavelmente tem estado do meu lado. Em tudo. Em todos os momentos. E eu louvo a Deus por sua vida, Reginaldo. Deus te abençoe. Eu te amo muito”.

Magno Malta, presidente de um CPI no congresso que apura maus tratos a crianças e adolescentes, é um político que costuma alardear rígidos padrões morais.

E para chamar a atenção para suas bandeiras conservadoras, ele já protagonizou cenas de impacto. Em 2000, levou para depor no Congresso Nacional um homem mascarado.

O depoimento não era em si uma grande bomba — ele acusava um delegado de plantar provas para acusá-lo de tráfico de um quilo de cocaína—, mas a foto de Magno Malta ao lado do mascarado apareceu na primeira página de todos os grandes jornais e ajudou a avançar sua carreira político e se eleger senador.

No processo de cassação de Dilma Rousseff, Magno Malta foi irônico e cantou:

“Eu quero mostrar que eu sou cristão, vou mostrar que sou cristão e à presidente Dilma vou dedicar uma canção de uma grande compositora brasileira, intérprete da música sertaneja, chamada Roberta Miranda: “Vá com Deus, vá com Deus”.

Deus não sai da boca de Magno Malta.

Em nome dele, aprovou a convocação coercitiva do curador da exposição Queermuseu e do ator de uma performance no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM).

Para evangélicos como ele, o casamento com Lauriete não é propriamente digno de quem parece dizer a todos que está na Terra com a missão de ensinar os outros a viverem.