Mansão dos Marinhos tem oliveiras uruguaias e periquito australiano. Por Renan Antunes

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Paula Marinho: dicas de paisagista no triplex da família na praia Santa Rita

Por Renan Antunes de Oliveira

Um monte de gente que trabalhou para os Marinhos na mansão Paraty House está vindo a público para falar da vida deles na propriedade da praia Santa Rita, supostamente pertencente a uma empresa de fachada.

Quando os donos não estão os serviçais fazem fotos de alguns detalhes e contam tudo: segundo eles, os Marinhos criam animais exóticos, sacrificam moluscos só para ocupar a praia grilada e plantam árvores adultas para fazer crer que são os limites da propriedade – quem fala são pessoas comuns que não querem ter suas identidades aqui reveladas.

E, numa pequena invasão da privacidade dos patrões, revelaram a possível existência de 300 taças com nomes próprios, uma para cada tipo de vinho da adega da luxuosa Paraty House – não foi possível checar a veracidade da informação das taças.

Assim, o Ministério Público Federal já tem testemunhas que estabelecem que os Marinhos são os verdadeiros donos da mansão triplex, enrolada na Justiça por crimes ambientais na sua construção e grilagem da praia.

Paula Marinho, neta do magnata da Globo Roberto Martinho (1904-2003), é o elo de ligação da família mais rica do Brasil com a empresa de fachada que administra a fabulosa residência de veraneio, a Agropecuária Veine.

Há outras empresas de fantasia na cadeia societária da Veine, mas este já um rolo diferente e não está na mira da Justiça – o processo por crimes ambientais e grilagem corre na Vara de Angra dos Reis sob o número 201051110009517.

Socialite mais conhecida por sua paixão pelo hipismo, Paula comandou a implantação dos jardins e da casa de massagens – este é um pequeno chatô na mata, quase uma réplica da mansão, na trilha sul da imensa propriedade, na costa do Rio.

Casa de massagem dos Marinhos na mata: réplica da mansão em concreto, aço e vidro
Casa de massagem dos Marinhos na mata: réplica da mansão em concreto, aço e vidro

Na visita do DCM à praia na semana do carnaval não fora possível notar a existência do chatô e que nem todo o verde era mata nativa, como parecia.

Muitas espécies exóticas foram introduzidas no meio ambiente, através do sofisticado paisagismo sugerido por Paula – segundo os funcionários que executaram a obra.
Exemplo: ao lado da mansão existe um jardim de oliveiras. Esta planta é originária do Mediterrâneo, mas as dos Marinhos foram importadas de um cultivo no Uruguai. As árvores chegaram adultas, cada pé custou 50 mil reais.

Na investigação do MPF, paisagistas, jardineiros, arquitetos e transportadores foram identificados na concepção e montagem do jardim.

O projeto que deu uma europeizada na Mata Atlântica é da arquiteta paulista Fernanda Ravanholi.

Ela foi subcontratada por uma empresa terceirizada, comandada por um caseiro dos Marinhos, chamado Celso, que não foi possível identificar como sendo de sobrenome Campos, que é réu no processo pelo crime ambiental na construção da mansão.

Os Marinhos escapam à responsabilidade do processo porque aparecem como meros inquilinos: tipo assim, usam a mansão dos amigos da Agropecuária Veine em feriados e nos fins de semana, para descansar.

Paula encomendou de Fernanda mudas de “Calathea zebrina”, nativa do México mas que se dá bem no Brasil, não tóxica para animais domésticos – aqui chamam de planta zebra, por suas listras brancas.

A socialite também sugeriu à paisagista que plantasse bromélias espinhosas no alto da montanha que tem uma trilha à praia Vermelha, ao sul, para desencorajar turistas.

As grandes mudanças na flora foram feitas todas de uma vez, em 2011. Balsas levaram o verde exótico à Santa Rita – muitas plantas compradas na Ceasa de Sampa.

As palmeiras que hoje dão coco e estão na frente da piscina, foram trazidas ao preço médio de R$ 5 mil cada. Jabuticabeiras, 10 paus.

Elas e as oliveiras importadas foram plantadas adultas porque demorariam muito para crescer – no mundo globalizado, até a natureza precisa de um ritmo mais veloz.

Os procuradores do MPF que investigam crime ambiental já têm laudos do Ministério do Meio Ambiente: muitas árvores foram plantadas na areia para dar impressão que a praia acabava nelas – isto legitimaria a parte da mansão erguida ali.

Mas, a foto com uma oliveira, de 2011, feita por um dos homens que a plantaram e entregue ao DCM, mostra que tanto árvore como piscina estão na areia da Santa Rita, configurando uso indevido de área pública, a popular grilagem.

Oliveira uruguaia à beira da piscina: ambas plantadas em praia grilada
Oliveira uruguaia à beira da piscina: ambas plantadas em praia grilada

Um detalhe pitoresco da mata é que agora ela abriga um imenso viveiro de pássaros, imperceptível nas fotos aéreas.

Uma rede cobre um naco da floresta, numa trilha do lado sul em direção ao trapiche dos iates.

Ali os Marinhos criam cacatuas australianas – é uma espécie de periquito, maior, branco e com um topete enorme. Não foi possível visitar o viveiro nem saber como estão as aves – um segurança ficou de dar informações na próxima semana.

Durante a construção dos jardins, viveiro e chatô o pessoal conviveu muito com Paula. Alguns dos que testemunharam a presença dela ficaram “encantados com sua gentileza”, disse um dos trabalhadores.

Para um dos paisagistas ela teria demonstrado compaixão por um grupo de oito homens que carregaram enormes árvores adultas por uma íngreme ladeira. Ela teria lamentado a impossibilidade de usar máquinas e dito “fico com pena dos coitadinhos ter que fazer tanta força” – elas foram replantadas no muque da rapaziada.

Mas, quando Paula se afastava da casa os trabalhadores tomavam conta. Muitos se deslumbraram com o luxo. Um carregador fez funcionar uma máquina de sorvetes, servindo os colegas.

Uma assistente ficou surpresa ao ver na porta de um armário uma lista, provavelmente para orientar os serviçais, em que cada vinho na adega teria uma taça correspondente. Tipo assim, vinho francês tal, taça com seu nome, vinho português, sua taça e assim por diante. Ela parou de contar em 300 taças.

Entre os paisagistas havia também um mergulhador, supostamente para ajustar a produção fajuta do viveiro de maricultura – na verdade, os Marinhos não se interessavam pela criação, seu objetivo era apenas lançar as bóias demarcadoras da área, para dificultar a navegação e desencorajar farofeiros de descer na Santa Rita.

Uma bióloga disse que os Marinhos criavam o molusco”Nodepecten nodosus”, o da casca igual ao logotipo da Shell: “Eles se reproduzem em cativeiro, mas os da propriedade só ficavam presos nas redes para morrer, ninguém os comia”.

Não foi possível apurar quem escolheu sacrificar moluscos na encenação.

 

ATUALIZAÇÃO

A advogada Mariana Gaspar enviou ao DCM o seguinte email:

Prezados Senhores,

JOÃO ROBERTO MARINHO, brasileiro, casado, jornalista, com endereço profissional na Rua Lopes Quintas 303, Jardim Botânico, na cidade e Estado do Rio de Janeiro, vem, por meio da presente, NOTIFICÁ-LO do que se segue:

A notícia é inverídica, pois a casa em questão e as empresas citadas na matéria não pertencem, direta ou indiretamente, ao notificante ou a qualquer um dos demais integrantes da família Marinho.