Minha vida na prisão. Por José Eduardo Gonçalves, jornalista, editor e escritor

FOTO PRISÃO

Publicado por José Eduardo Gonçalves, jornalista, editor e escritor, em seu blog Palavra Afiada.

 

Leio o noticiário dos massacres em Manaus e Roraima e, emocionado e atordoado,  decido que chegou a hora de contar o que nunca contei. Essa história tem 40 anos e jamais veio a público. Acho que está na hora de dizer o que vivi, o que vi, o que senti durante os três meses em que estive preso, em 1977, no então presídio do Cassôco, em São João del-Rei.

Fui  um preso comum. Preso em flagrante por porte de um cigarro de maconha, juntamente com outros cinco colegas.  Eu tinha 19 anos, estudava jornalismo na PUCMINAS e estava em minha cidade natal para aproveitar o feriado da Semana Santa. Naquela sexta-feira da Paixão, na praça da Biquinha, fomos presos à tardinha. Depois de horas detidos na delegacia e de um longo sermão, fomos liberados. Já era noite, a procissão que eu tanto queria ver já tinha passado.

Meses depois, na primeira semana de aulas do semestre, fui chamado a depor em São João. O caso fora reaberto em função de uma briga política entre o juiz da cidade e o promotor. Fui com a roupa do corpo, certo de que seria algo de poucas horas. Ledo engano, do depoimento fui levado direto para a prisão. Não me sai da cabeça a cena de minha entrada na cadeia, o corredor, o cadeado da cela se abrindo, aquele tanto de olhos me vasculhando.

Nós seis fomos distribuídos em três celas, em duplas.  As duas meninas ficaram em uma cela separada, só delas. Na minha cabiam oito pessoas, havia o dobro. Homicidas, assaltantes, traficantes. Nos finais de semana a cota aumentava substancialmente. Dois presos disputavam o comando – Preto, um assassino confesso, valentão e boquirroto, e o Ligeirinho, ladrão carioca, corpo coberto de marcas, bom no uso da faca. Ali vivi o meu inferno.

Camas e colchões grudados uns nos outros pra caber todo mundo. Uma televisão pequena e velha, sem cores, dependurada num canto bem alto. A luz acesa 24 horas. Uma janela gradeada que dava para o pátio. Um lugar chamado “boi” que era só um buraco no chão, em cima o chuveiro. Ali se cagava, se masturbava, a porta era uma tira de plástico.  As roupas ficavam penduradas em varais que cruzavam a cela. Sim, você já viu essa cena no cinema. Eu a vivi.

Minha segurança eu garanti logo de cara, com muito papo e oferta de cumplicidade e serviço. Privilegiado, eu recebia diariamente muita coisa que eu compartilhava: comida, frutas, revistas de mulher pelada. Também mostrei que podia ser útil, escrevia cartas para os detentos, fazia comunicados aos advogados. Na greve de três dias por alguma coisa que nem me lembro mais, me encarregaram das negociações entre o grupo e os policiais (meu pai pagou o conserto do chuveiro, acho que isso ajudou a por fim ao imbróglio).

Eu vi muita coisa.

Eu vi uma mulher negra, inteiramente nua, correndo pelo corredor com o corpo coberto de bosta.

Eu vi um homem trôpego gritando que lhe devolvessem o rato, pois ele tinha fome.

Eu vi um jovem mulato, um ex-escoteiro, gay, sob as cobertas, sendo estuprado pelo chefão da cela.

Eu vi as peladas de quarta-feira, quando desafetos fingiam correr atrás da bola para quebrar as pernas de uns e outros.

Eu vi como os presos se divertiam aos sábados. Os guardas traziam os bebuns presos e os colocavam encostados nas grades, então os detentos na cela se amontoavam ali e espancavam os caras. Uma vez, insuflado pelo grupo, eu dei com uma sandália Havaiana nas costas de um desses bêbados. Não sei definir o que senti, aquilo ainda me dói.

Eu ouvia os espancamentos dos policiais, especialmente às sextas e sábados, com os gritos de dor entrando na cabeça da gente pra nunca mais sair.

Eu vi uma festa na cela à base de cachaça contrabandeada e de comprimidos surrupiados de um epiléptico que acabara de ser preso por matar a mãe a facadas. A coisa degringolou, virou  briga entre os dois grupos da cela, com ripas de estrado transformadas em facas pontudas. Giletes cortavam o ar, vi juras de morte, sangue e dor. (Eu escrevia uma carta para a namorada e ouvia Lumiar, de Beto Guedes, quando a briga explodiu). Ninguém morreu, mas vi a morte bem perto. Às 4 da manhã, todos aparentemente dormiam,  os dois líderes pularam de suas camas e ameaçaram começar tudo de novo. Eu pulei entre os dois. Não era um ato heróico, era puro desespero.

Eu vi as duas amigas, na cela em frente, gritando feito loucas quando a briga estourou em nossa cela.

Eu vi quando levaram o Ligeirinho para uma temporada de dias na solitária. Eu vi quando ele voltou, faltava-lhe um dente.

Eu vi a cidade lá fora quando saía, escoltado, para as sessões no Fórum (por morar em cidades diferentes, fomos acusados pelo promotor de fazer parte de uma rede internacional de tráfico) ou cuidar de um canal dentário.

Eu vi homens fortes, parrudos e brigões chorando de saudade de seus filhos.

Eu vi os olhos de meu pai me olhando do outro lado das grades – e ele nunca me perguntou o que eu tinha feito para merecer aquilo. Sua única pergunta era: você precisa de alguma coisa?

Acho que não consigo escrever mais nada. Eu só queria dizer que isso acontecia em um prisão mequetrefe do interior de Minas, um lugar pequeno, com menos de 50 presos – e já era bem ruim. Por isso sou tomado de indignação ao ver os acontecimentos dos últimos dias.

Me enoja o tratamento que é dado aos encarcerados. Me enoja o discurso  de quem aceita a barbárie como punição a bandidos. Me enoja a leviandade, a omissão e a insensibilidade das autoridades. Tudo isso me enoja porque eu estive lá dentro. Eu vi a miséria, a degradação, a violência, a indiferença, o desamor.

Morre-se muito facilmente em uma cela.  Eu poderia estar em Manaus ou em Boa Vista, preso provisoriamente, aguardando julgamento. Junto a criminosos de alta periculosidade. Em meio a briga de facções, sendo espancado ou servindo de madame pra algum fortão.  Eu sobrevivi ao inferno. Casei, descasei, casei de novo, tive filhos, construí uma carreira, sou dono de minha vida. Quantos, nesse exato instante, estão perdendo essa chance?