“Não paro de beber”: sertanejo universitário é problema de saúde pública. Por Marcelo Zorzanelli


 

O álcool provavelmente estava presente quando a música nasceu (como mais alguém teria a ideia de fazer uma flauta usando um pedaço de osso? Só bebendo) e os laços seguem apertados.

Faz parte da cultura musical do Ocidente. O copo de uísque sobre o piano. A taça de vinho na mão do chanteur francês. A garrafa de cerveja na mesa do sambista. Na mesa do café da manhã do Zeca Pagodinho.

Mas não existe, nunca existiu, salvo alguma cepa suicida do punk ou do death metal, uma apologia tão direta à auto-destruição através do uso excessivo de álcool como no sertanejo universitário.

Tudo bem que seja necessário embotar os sentidos para sobreviver à perversidade de melodias pobres, instrumentos mal tocados, sotaques forçados e aquela bateria macabra.

Mas o que Gusttavo Lima, Tchê Garotos, Munhoz & Mariano e outros dos artistas mais executados nas rádios do país vêm fazendo é criminoso. O hit “Não Paro de Beber”, de Gusttavo Lima, é a descrição de um estado terminal de alcoolismo.

Eu vou morrer, eu vou morrer
Eu vou morrer mas eu não paro de beber

De porre, muito louco fui parar no hospital
O médico falou que eu tava muito mal
Disse que se eu continuasse a beber ia morrer
Aí eu decidi que eu ia parar

Que nunca mais uma gota de álcool ia tomar
No primeiro teste na balada
Quando eu vi o amarelinho com gelo
Eu não resisti, bebi
É mais forte que eu

Não consigo controlar
Nem tomando antibiótico eu consigo parar

Só no Youtube, esta faixa tem mais de 13 milhões de visualizações. O irônico é a faixa ser cantada por Gusttavo (ou, melhor, por Nivaldo, seu nome de batismo): a julgar pelas selfies que posta na academia, sua porcentagem de gordura corporal não ultrapassa um dígito e ele deve ter até tremeliques ao pensar nos carboidratos de uma garrafa de cerveja.

A do Nivaldo é a pior. Mas tem muito mais.

Em “Só vou beber mais hoje”, Humberto e Ronaldo alcançam o mérito duvidoso de subverter o lema dos Alcóolicos Anônimos. Dizem que vão beber “só por hoje”:

Tenho dois apelidos: pinguço e pé de cana
Casamento, batizado, formatura, aniversário,
E até chá de bebe, tô pronto pra beber
Mais eu sei que faz mal, decidi vou parar,
Só mais hoje e amanhã não dá, não dá, não dá

Pelo menos admitem que a bebida já está se tornando um problema. Munhoz & Mariano viram a oportunidade de expandir o mercado falando diretamente com  as jovens mulheres que abusam do álcool.

Ela pega seu carro, ela busca as amigas
Vai pra balada tomar pinga
E cai sentada no colo, deitada no chão
Pagando calcinha, perdendo a noção
E o copo? O copo ainda tá na mão!

Beber e dirigir, por que não? Se ela cai mas o copo está na mão, certamente poderá deixar cada uma das amigas que buscou em casa.

É abstêmio mas quer fazer parte da turma? Para o Thiago Matheus, não rola. A faixa “Moon Álcool” (um trocadilho atroz com “Moonwalker” de Michael Jackson)

Eu tava na balada bebendo água mineral
Mas meus amigos
Não acharam normal
Eles já botaram vodca pra eu tomar
E a partir daí eu quis zoar

Tchê Garotos, “É problema meu”:

E se eu bebo é problema meu
Se eu vivo na noite é problema meu
Se eu gosto de farra é problema meu
Não uso do teu dinheiro da minha vida cuido eu

O título de muitas delas poderia ser “Sou um dependente químico” sem qualquer risco de não casar com o conteúdo das letras. É a glorificação do alcoolismo terminal. Tudo piora se levarmos em conta que, na lista de músicas mais executadas nas rádios brasileiras feita pela consultoria Spybat, as sete primeiras posições são ocupadas por canções do gênero.

Em 2005, a USP fez seu segundo Levantamento Domiciliar Sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil: 19,2% dos jovens entre 17 e 24 anos são dependentes do álcool. Infelizmente, não houve outro levantamento depois deste.

Quase um quinto dos jovens na fase em que ainda não aprenderam a dosar as consequências do consumo de álcool são considerados dependentes. Portanto, fazem uso regular. E encontram nas canções tocadas à exaustão em rádios e baladas o estímulo que nem precisavam para continuar exagerando.

Fica pior. A cada 36 horas, um jovem morre por causa de transtornos relacionados ao abuso de álcool no Brasil segundo o portal Datasus. Fora 6 944 mortes em 2012, um aumento de 74% desde 1996.

Mas o que é um problema de saúde pública na visão de alguns pode ser um negócio lucrativo na visão de outros? Pode apostar.

Desde 1977, a Ambev é a principal patrocinadora da Festa de Peão de Barretos, maior festa sertaneja do país. Em 2013, assinou novo contrato para continuar patrocinando a festa até 2018.

Numa nota orgulhosa, a Ambev divulgou que “há mais de 30 anos a empresa investe na plataforma country, apoiando a realização de mais de 200 rodeios pelo país.”

Quem se apresenta em rodeios? Gusttavo Lima, Tchê Garotos, Munhoz & Mariano, a turma toda citada mais acima.

Não é preciso prestar muita atenção para perceber que desde o sucesso da campanha “Amigos” da cerveja Bavária (com Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó e Zezé di Camargo e Luciano), grande parte do material publicitário das cervejarias é povoado por este gênero musical.

É o mais espúrio dos conflitos de interesse. Uma empresa que comercializa uma droga legal patrocina artistas que fazem a apologia do uso excessivo desta droga.

Acho que chegamos a uma altura em que esperar bom senso dos artistas não basta. É preciso que a sociedade faça alguma coisa imediatamente.