Ninguém tem nada a ver com o peito de Manuela D’Ávila. Por Nathalí Macedo

Deixem Manuela em paz
Deixem Manuela em paz

Nesta semana Manuela D’Ávila publicou um desabafo sobre a repercussão negativa de uma foto em que aparece amamentando sua filha. Os comentários me enojaram.

Mas, antes disso, me fizeram duvidar que, em pleno Século XXI, ainda precisemos lidar com gente que sexualiza a amamentação.

Houve quem julgasse a ‘exposição’ das mamas desnecessária.

Ainda que esquecêssemos, em primeiro plano, a ternura imbutida no ato de amamentar – e o absurdo que é buscar sexualizá-lo – nos restaria este argumento simples e persistente, embora ininteligível para alguns: nossas mamas são um problema nosso. Seja para amamentar nossos filhos, amenizar nosso calor ou saudar a nossa liberdade.

Não importa se você é uma deputada, uma modelo, uma ativista, uma mãe: nossos peitos não dizem respeito a ninguém além de nós mesmas.

Afora esta máxima simples que, em pleno ano de 2016, precisamos repetir como se fosse uma grande novidade, há a hipocrisia daqueles que esperam que uma mãe cubra os seios com uma toalha para amamentar seu filho mas não se indignam com a globeleza e compartilham revenge porn.

Isso, por si só, nos convence de uma verdade que gostaríamos intimamente que não existisse: nossos corpos só podem existir para o deleite masculino. Fora das propagandas de cerveja, dos sites adultos e das rainhas de bateria, são imorais, indesejáveis, vergonhosos.

Nossos peitos não podem existir para amamentar nossos filhos porque alguns homens ainda acreditam que têm o direito de sexualizar aquilo que bem entenderem, sob o argumento patético de que ‘a excitação não está a mercê de julgamentos, é uma questão de gosto.’

Esse ‘gosto’ que, aliás, tem sido usado para justificar os mais injustificáveis absurdos.

“Não gosto de negros, mas é uma questão de gosto.” Ou:”Tenho nojo de mulheres gordas, mas gosto não se discute”. Ou: “Fico excitado vendo uma mulher amamentar, é o meu gosto que deve ser respeitado. Posso, portanto, exigir que mães não amamentem publicamente.”

Acontece que nossos gostos, como quase tudo, são uma construção cultural. E nós podemos, sim, nos indignar diante de homens que consideram excitantes o ato da amamentação – porque isso não é, pura e simplesmente, uma questão de gosto ou excitação pessoal. É opressão doentia.

Além de tudo isso – que, para mim, parece óbvio, mas ainda precisa ser explicado – o fato é que a foto de Manuela D’Ávila – uma mulher pública – é, por si só, ativista. Ainda que não houvesse sido esse o objetivo inicial.

Portanto, ‘desnecessária’ é tudo o que esta publicação não é. Ela representa tantas outras mães que são constrangidas ao amamentarem seus filhos em público e não têm coragem o suficiente para se manifestarem, assombradas pelo fantasma do julgamento alheio.

E usar a própria popularidade para levantar uma bandeira tão importante e, infelizmente, tão contemporânea é, no mínimo, muito necessário.

São necessárias as nossas marchas, os nossos “textões” cheios de problematização e as nossas fotos amamentando. Continuarão sendo necessárias enquanto houver pessoas que acreditam que o corpo do outro lhes diz respeito.