O áudio de Temer escancarando o golpe mostra sua incompetência até para conspirar. Por Kiko Nogueira

Foi mal aê
Foi mals aê

 

O áudio gravado por Michel Temer com seu “primeiro pronunciamento nacional” é uma peça quase tão patética quanto a infame carta de rompimento com Dilma do ano passado.

Sua assessoria alega que foi por acaso que a mensagem vazou. Deveria ter ficado no “stand-by” do celular e ser liberada se a Câmara aprovasse a continuidade do impeachment antes de ir para o Senado.

Os 14 minutos seriam editados depois pelo estafe. É estranho porque, em alguns trechos, há mudanças claras de sonoridade, como se tivesse havido alguma arrumação.

Acabou que o próprio teria mandado o monólogo “sem querer” para deputados, que o remeteram à imprensa. Na verdade, não faz diferença se a coisa foi vazada propositadamente ou não. Era algo que Temer e seus comparsas queriam ver na rua.

Segundo seus assessores, no entanto, uma coisa é indiscutível: Temer é uma besta tecnológica, que confunde botões.

Esse ato falho, a crer nessa história, deixa patente o golpe, caso alguém ainda tivesse alguma dúvida. O vice — ele ainda é vice — gasta intermináveis minutos com uma discurseira tabajara que deixa evidente seu caráter e sua incompetência.

Provavelmente estava de frente para um espelho, ajeitando o paletó. Ou nu, talvez, como pregam gurus de técnicas de conferências. Quem estava ao seu lado? A mulher? O Cunha?

Michel Temer quer governar, mas não sabe sequer conspirar. O retrato que sai dali é o de um homem vaidoso, docemente constrangido a praticar uma traição, hipócrita.

Um canastrão capaz disso: “Muitos me procuraram para que eu desse pelo menos uma palavra preliminar à nação brasileira, o que faço com muita modéstia, cautela, moderação”, diz ele. Muita.

“Não quero avançar o sinal”. Too late…

Temer não vai acabar com o Bolsa Família, o Pronatec, vai “conversar com o capital e com o trabalho”. As reformas são fundamentais, mas “nós temos de preparar o país do futuro”.

“A grande missão, a partir desse momento, será a pacificação do país. É preciso um governo de salvação nacional. É preciso que se reúnam todos os partidos para cada um dar sua colaboração”, fala.

Para além do pastelão, o pirata trapalhão Michel Temer repete o gesto de FCH em 1985, quando sentou na cadeira de prefeito de São Paulo, posando para a imprensa, um dia antes da eleição.

Jânio Quadros venceu a parada. “Gostaria que os senhores testemunhassem que estou desinfetando esta poltrona porque nádegas indevidas a usaram”, falou Jânio para os fotógrafos assim que assumiu.

Nádegas indevidas não deveriam mexer em smartphones e muito menos com a Constituição.