O Brasil é o país onde um sambista sustentado por um bicheiro faz uma “música de protesto”. Por Marcos Sacramento

Neguinho da Beija Flor
Neguinho da Beija Flor

 

Neste período de crise política brotam sujeitos com telhado de vidro a jogar pedras em vidraças alheias, leia-se Dilma, Lula e o PT.

O mais recente membro do time é o Neguinho da Beija-Flor, que apareceu em um vídeo amador cantando o samba “Não é nada meu”, composto pelo sambista Boca Nervosa em “homenagem” ao Lula.

O nome do ex-presidente não é citado na letra, mas nem precisaria. Ela cita o “tríplex da praia”, o “sítio de Atibaia”, “aquela fundação”, “o rombo na Petrobrás”, enfim, a mesma verborreia usada pelos revoltados online e colunistas de aluguel para pedir a prisão de Lula e por tabela o impeachment da presidente Dilma.

Neguinho teria todo o direito de expressar seu analfabetismo político caso não fosse parte de um negócio íntimo com o crime organizado. Há décadas o Carnaval carioca, do qual o intérprete é um dos ícones, é bancado com dinheiro do jogo do bicho.

“Eu sou do tempo que desfile de escola de samba era uma bagunça. Chegou a contravenção e organizou. Hoje eles batem no peito e dizem com o maior orgulho: ‘o maior espetáculo audiovisual do planeta’! Agradeçam à contravenção”, disse o sambista à Rádio Gaúcha, na ocasião da conquista do título da Beija-Flor de Nilópolis em 2015.

Uma das fontes de dinheiro desta conquista veio de “contravenções” ultramarinas: o enredo homenageou a Guiné Equatorial, país africano minúsculo, com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) rasteiro mas lotado de petróleo, cuja renda alimenta as vaidades do ditador Teodoro Obiang Nguema Mbasogo.

O mecenas do último título da escola de Nilópolis é um dos oito governantes mais ricos do mundo e está agarrado ao poder há mais de três décadas.

Ele teria doado 10 milhões de reais à escola, quantia imoral quando vinda de um país onde 75% da população vive na miséria.

Mas isso não parece incomodar a voz símbolo de uma escola comandada pelo bicheiro Anísio Abrahão David, preso cinco vezes em operações contra a máfia dos caça-níqueis.

A última delas, em 2012, foi na operação Dedo de Deus. A ação teve ares apoteóticos, com direito a agentes descendo de rapel para entrar no tríplex de Abrahão.

Sim, isso mesmo, um tríplex, localizado em um dos pontos mais caros do Rio de Janeiro, foi comprado em 2004 e pertenceu a Roberto Marinho.

O reinado de Abrahão, com seus parentes e aliados encrustados na política e suas ligações com torturadores da ditadura renderiam histórias para preencher sambas enredos por muitos Carnavais.

Mas a indignação de Neguinho da Beija-Flor é seletiva e o único tríplex que o interessa é o do Guarujá, nada mais.