O melhor documentário dos últimos dez anos está na Netflix. Por Marcos Sacramento

 

Como milhares de pessoas ao redor do mundo, assisti de uma só vez à série “Making a Murderer”, lançada em dezembro na Netflix, e na hora lembrei dos flagrantes forjados e dos inocentes encarcerados pelas polícias brasileiras.

O documentário em 10 capítulos conta a história de Steven Avery, um americano branco, pobre e bronco do Condado de Manitowoc, estado do Wisconsin. Em 1985 ele foi injustamente acusado e condenado por estupro, ficando preso por 18 anos.

Só conseguiu a liberdade em 2003, após um teste de DNA indicar o verdadeiro culpado pelo crime.

Como reparação ao tempo em que ficou preso, Avery processou o Condado de Manitowoc em 36 milhões de dólares. A ação ainda estava em curso quando ele foi acusado novamente de cometer um crime, desta vez o assassinado de uma fotógrafa de 25 anos.

A maior parte do documentário gira em torno da prisão, julgamento e condenação de Avery e do seu sobrinho Brendan Dassey. As cineastas Laura Ricciardi e Moira Demos destrincharam o processo dos Avery e revelaram uma série de contradições e “coincidências” que levantam a suspeita de que Avery tenha sido vítima de uma intriga.

Vendo a sequência de vícios do caso Avery, como a suspeita de evidências plantadas na cena do crime e interrogatórios coercitivos, apavora constatar que aquilo tudo foi real e situações idênticas àquela podem estar acontecendo neste momento.

O flagrante de policiais militares de São Paulo forjando evidências para prender estudantes durante manifestação contra o aumento das passagens, na última sexta-feira (08), mostram como a prática é comum.

As manifestações de junho de 2013 registram casos parecidos, a maioria deles captados por câmeras de celulares.

Inclusive, o único detido e condenado nesta onda protestos foi preso supostamente portando uma garrafa de Pinho Sol. A acusação teria considerado de que se tratava de um artefato explosivo e Rafael Braga, de 26 anos, ficou dois anos detido em regime fechado até obter progressão ao semiaberto no final do ano passado.

Ao ver a impotência de Avery e do seu sobrinho Brendan frente ao estado de Wisconsin fica impossível não lembrar da história de Heberson Oliveira.

Ajudante de pedreiro em Manaus, Heberson foi preso acusado pelo estupro de uma menina de nove anos. Apesar da ausência de provas e de sequer ter semelhanças físicas com o suspeito, ficou preso por três anos sem julgamento. Na cadeia, foi violentado e contraiu o HIV.

Daria para elencar aqui centenas de casos, no Brasil e no exterior. Uma busca no Google com as palavras “preso injustamente” retorna aproximadamente 128 mil resultados. Faltaria espaço na Netflix se cada um deles rendesse uma série ou documentário.

“Making a Murderer” ultrapassa o drama de Steven Avery e Brendan Dassey para simbolizar todos esses casos, servindo de alerta para as arbitrariedades cometidas por quem deveria promover a justiça.