O mundo bizarro de Nizan Guanaes e dos presidentes impopulares que podem tudo. Por Kiko Nogueira

 

O discurso de Nizan Guanaes no “Conselhão” de Temer é, por um lado, constrangedor, e por outro, aterrorizante.

Microfone em punho, depois de alguns pães de queijo e café com leite, tudo pago pelo erário, Nizan deu ordens a Carlos Magno, na cabeceira da távola retangular.

Segundo ele, o empresariado nacional “não pode mais competir no mundo com leis da época de Getúlio Vargas”.

E então pôs-se a jogar na cara de Michel, basicamente, que ele tem de tirar vantagem do fato de ser um usurpador (estou sendo gentil).

“Aproveite que o senhor ainda não tem altos índices de popularidade e faça as medidas amargas que são necessárias”, falou o publicitário (destaque para “ainda”).

“Ninguém faz coisas contundentes com alta popularidade”, prosseguiu. “Popularidade é uma jaula. O senhor tem que puxar isso para o senhor e falar à nação”.

Para Nizan, Temer deve “tomar medidas amargas”. Este, diz ele, “é o grande desafio das democracias do mundo: como fazer coisas impopulares.”

Ao final, Michel bateu palmas desanimadas, acompanhando a plateia, até cruzar os braços. Mesmo para um fantoche como ele, não é agradável alguém ficar durante longos minutos exaltando um defeito, especialmente se estamos numa democracia representativa.

Ou não estamos?

No mundo de Nizan, que é o mesmo de Temer, aparentemente o voto é um problema. É uma inversão fenomenal. Um chefe de estado tem mais legitimidade para aprovar “medidas amargas” (até quando esses velhos jargões idiotas?) com apoio popular, e não o contrário.

A não ser numa ditadura.

Você não precisa ser muito esperto para saber que o amargor não virá para Nizan e seus pares.

O discurso abstruso dele é uma versão mais crua das diatribes de Flávio Rocha sobre o “estado mínimo”. Pedante, jeca de banho tomado, o dono das Lojas Riachuelo gosta de usar expressões como “crony capitalist” e de se vender como um empreendedor moderno e antenado.

Tão moderno que, em janeiro, sua Riachuelo foi condenada a pagar pensão vitalícia a uma costureira que era obrigada a produzir cerca de mil peças de bainha por jornada, sendo que sua meta era colocar elástico em 500 calças ou costurar 300 bolsos por hora. Na ação, ela diz que evitava beber água para diminuir suas idas ao banheiro, controladas por um sujeito mediante fichas.

Em 2015, Flávio defendeu o golpe dizendo que havia “dois cenários”. “Um é o de uma agonia curta, com impeachment. O outro de agonia longa, cumprindo três anos e meio de mandato”, mandou ver no Estadão.

Deu no que deu: aprofundamento da recessão e um cenário de conflagração em estados como o Rio de Janeiro. Ele deveria estar ciente de que não existe almoço grátis, como avisou Milton Friedman.

Todos querem o “estado mínimo”, desde que continuem mamando nele. Tenho certa aversão à fórmula de culpar as “zelites” por nosso atraso — mas como negar, diante desse espetáculo?

Flávio Rocha, misteriosamente, não faz parte do Conselho, mas não precisa. Está bem representado. A perspectiva de futuro que essa turma conseguiu produzir, por enquanto, é Roberto Justus 2018.