O papa Francisco abriu uma porta para casais do mesmo sexo?

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Enquanto o “imperialismo gayzista” — um dos novos clichês preferidos dos malucos de extrema-direita –, campeia, o papa Francisco pode ter aberto uma porta da Igreja para os casais do mesmo sexo.

Numa longa entrevista ao Corriere della Serra, Francisco falou do papel das mulheres, de globalização, da pobreza, de sua primeira namorada e de seu desconforto com a imagem de mito (“Sigmund Freud dizia que cada idealização é uma agressão. Acho ofensiva a imagem do papa como uma espécie de super-homem. O papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como todos. Uma pessoa normal”).

Também sinalizou uma nova direção com relação à complexidade das uniões de hoje. Embora reafirmando que o casamento é entre homem e mulher, apontou que é preciso olhar “para os diferentes casos e analisá-los”.

“Os estados leigos precisam justificar a união civil a fim de regular as diversas situações de coabitação, motivados pela necessidade de regulamentar os aspectos econômicos entre as pessoas, como, por exemplo, assegurando a assistência médica”, disse. Em julho do ano passado, Francisco já havia formulado sua famosa pergunta: “Se um gay busca Deus, quem sou eu para julgar?” Em janeiro, depois de contar a história de uma menina que estava triste por que a namorada da mãe não a amava, questionou: “Como anunciar Cristo a uma geração que muda?”

O professor de teologia Massimo Faggioli, da Universidade americana de St. Thomas, acredita que o papa está afirmando que “não é seu papel inteferir em soluções jurídicas para problemas complexos, que não são de competência da Igreja”.

Ao Corrriere, Francisco mencionou os “valores não negociáveis”. “Eu nunca entendi essa expressão”, disse. “Valores são valores, e isso é tudo. “Eu não posso dizer, entre os dedos de uma mão, se um é mais útil que os outros. Portanto, eu não entendo como podem existir valores negociáveis.”

Em outubro, acontece o sínodo dos bispos, que deve analisar posturas oficiais sobre temas sensíveis como contracepção, divórcio e homossexualidade. Em seu pragmatismo, como diria Marina Silva, Francisco explicou o que pensa da doutrina católica: “A questão é levar em conta as situações e exigir das pessoas o que elas podem dar”.

Uma pesquisa da Univision com 12 mil católicos em 12 países mostra uma divisão na questão do casamento gay. Em lugares como França, EUA e Brasil é quase empate, com leve vantagem das pessoas que são contra. Em Uganda, que virou o paraíso dos fundamentalistas, a oposição é de praticamente 100%. Mas os jovens católicos são mais propensos que os antigos a aceitar a união gay por uma larga margem. O papa precisa estar em acordo com os novos tempos — e com seus fieis. O problema é que seus fieis não estão de acordo nem entre eles mesmos.