O presidente mais pobre do mundo

Jomar Morais 14 de março de 2013 21

O uruguaio Pepe Mujica renunciou, sem hesitar, a todas as mordomias que o poder oferece.

“Pobre é quem precisa de muito”

Um detalhe na reportagem sobre a vida do presidente do Uruguai, Pepe Mujica, exibida semanas atrás pela Rede Globo, deve ter passado despercebido de muita gente. No final da matéria “O presidente mais pobre do mundo”, os apresentadores do “Fantástico” não fizeram nenhum daqueles gestos com que manifestam aprovação ou surpresa diante do que acaba de ser noticiado. Mantiveram-se impassíveis, até engatarem a chamada da próxima atração.

Para mim, isso é simbólico. Imagino que milhões de telespectadores, ao contrário do que se espera, também acharam esquisito um presidente que renuncia ao conforto do palácio presidencial para continuar morando em sua pequena chácara, doa 80 % de seu salário para instituições de caridade, vai para o trabalho dirigindo seu velho Fusca e, sempre que pode, dispensa ternos e os rapapés do poder. Não nos livramos facilmente da influência de conceitos atávicos e da ritualística que nos faz acreditar que situações criadas em função de crenças e ideologias são eventos naturais que existem desde sempre.

Mujica em seu bólido

As câmeras mostraram a singeleza da casa do presidente, mais modesta que as da emergente classe C brasileira, mas não puderam capturar cenas ainda mais despojadas de seu dia a dia. Um presidente que vai pessoalmente comprar uma tampa de privada e que, reconhecido por jogadores de um time de várzea, aceita o convite para dar ali mesmo uma palestra para a equipe é excêntrico. Talvez para as nossas elites Mujica não passe de um populista, e para os nossos pobres seja apenas um tolo. Onde já se viu alguém dar de cara com a fortuna e recusar-se a deitar com ela?

Tenho discordâncias com o presidente uruguaio. Afinal, eu não aprovaria sua aprovação à descriminalização incondicional do aborto e ainda estaria discutindo sua opção pela descriminalização da maconha, sob o argumento de que assim se destruirá a máquina do narcotráfico (improvável, se o homem, desconectado de si mesmo, continuar dependente de emoções eletrizantes). Mas eu não poderia deixar de tirar o chapéu para esse idealista que maturou na prisão, sob a ditadura que ele ajudou a derrubar, um estilo de vida lastreado em profunda sabedoria.

Mujica quer usar a política como instrumento de mudança, mas não quer ser escravo de sua estrutura. Quer mostrar que o líder deve ser servidor e não servido (um velho ensinamento cristão), e que é possível viver bem com menos. O ex-guerrilheiro tupamaro, que um dia quis mudar o mundo pelas armas, descobriu, enfim, que sistemas viciados só ruem quando os indivíduos os enfrentam vivendo sob novos valores.

“Eu não sou pobre”, diz o presidente uruguaio. “Pobre é quem necessita de muito para viver. Tenho privacidade e tempo para cuidar das coisas que realmente gosto”. Ghandi e Francisco de Assis certamente concordariam com ele.

  • Sérgio Dantas.

    Tio Pepe tem muito a ensinar ao governador da Paraíba. Só para destacar, a residência do governador comprou, este ano, rolo de papel higiênico no valor aproximado de R$ 60,00. Isso pode Arnaldo?

  • Glauco

    As sociedades costumam se pautar pelos valores de seus governantes. Por isso o rigor exigido às casas reais européias não chega a ser anacronico pois tem relevante valor simbolico onde a populacao se espelha. É dando exemplos de valores que a populacao se pauta. Mujica é o modelo perfeito de governante republicano.

  • Flavio Gibson

    É, de fato, um tipo político de raríssima cepa. Não tem uma assistente chamada Rose.

  • Quintela

    Não é no Uruguai que está se regulando a mídia??? Então é inimigo do Partido da Imprensa Golpista!

  • Emília

    “Eu não sou pobre”, diz o presidente uruguaio. “Pobre é quem necessita de muito para viver”. Existe pouquíssimos desses pelo mundo.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      … e são os melhores …

  • Daniela

    Um exemplo que todos deveriam seguir. Não só os presidentes, mas todas as pessoas.
    Quanto ao aborto, mais um motivo para aplaudi-lo. Assim respeita as mulheres de seu país. Pena o Brasil não seguir esse exemplo.

  • Mauricio Andreoli

    Não nos recordamos, mas D.Pedro II era austero com os gastos da família real, vivendo modestamente em relação às famílias abastadas da época.
    Infelizmente, era mais ligado às ciências do que a administrar o Império, entretanto, algumas reformas sociais, como a abolição dos escravos, geraram descontentamente nas elites dominantes. Utilizando a imprensa, essas elites induziram a destituição do governante e substituição dele por militares e, posteriormente, representantes dessa elite (qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência).

  • marco

    Uma coisa é sua modéstia, sua simplicidade. Louvável. Outra coisa é sua gestão.

  • Junior

    Os que são a favor do Presidente Uruguaio ou o
    admiram tanto poderia dizer em público se também vivem como ele? Ou ao menos sua renda mensal para também serem admirados no site.

  • tadeu borges

    toda vez que me deparo com as colocações do presidente Mujica me surpreendo, mesmo pelo inesperado de uma postura tão singular e de tanta sabedoria mesmo… quando flaou sobre a educação e sobre investir nas mães, na função das mães…. Ele é muito verdadeiro e vai fundo…
    A gente se engrandece de ver seres dessa envergadura humana…

  • Fabio

    Bem , não é só o Uruguai que tem algo para mostrar. Nós também podemos ostentar :
    20/09/2011 – 18h33 Brasil tem sistema legislativo mais caro da América Latina, diz pesquisa
    http://www1.folha.uol.com.br/poder/978241-brasil-tem-sistema-legislativo-mais-caro-da-america-latina-diz-pesquisa.shtml

  • Filipe Garrett

    Ok. As discordâncias com relação às políticas modernas do Mujica são de direito do autor. Mas, poxa, terminar o texto com uma referência ao Gandhi, que batia na mulher? E essa alusão de que a liderança deve se colocar a serviço como sendo invenção do cristianismo? Será mesmo que, em milhares de anos de civilização e filosofia já amadurecidas pela época de Cristo, caso tenha mesmo existido, ninguém tinha aparecido com a ideia?

    Digo, só porque o cara é modesto e vive em frugalidade precisa-se fazer proselitismo religioso sobre seu exemplo?

    Mujica, aliás, é ateu. O hábito de se embastilhar em palácios é bem comum entre cristãos, vide as humildes residências em que habitam os seus esbirros na terra.

  • José

    Vejo na Dilma a mesma frugalidade, o mesmo despojamento. Além disso tb foi presa na ditadura.

    • José

      Quero dizer, o Mujica é um exemplo raro de integridade. Acho Dilma da mesmo cepa!

  • Anita

    Admiro profundamente o povo uruguaio, que conheço muito bem desde sempre, meu pai era de lá. Povo que soube escolher a Don Pepe. Povo politizado como poucos da nossa querida América Latina.

    Na Argentina tivemos a Illia nos anos 60… que era un médico cordobés, humilde assim como o Mujica, peitou a poderosa industria farmaceútica e as petroleiras, e foi defenestrado pela mídia da época (paga por esses intereses) que o satirizava pois tinha o costume de dar de comer aos pombos da Plaza de Mayo todas as tardes… Pagamos um preço muito caro, anos depois, o começo das botas com a chegada das botas de Onganía apos a derrocada do grande Illia, preanúncio do que viria depois nos anos de chumbo da já instalada ditadura de Videla.

    —-

    Jomar, deixo aqui o discurso na íntegra do Presidente do Uruguai, José Pepe Mujica, na Rio+20. Um abraço!

    http://youtu.be/JvHlHVpO1-k

    ” Autoridades presentes, de todas as latitudes e organizações, muito obrigado. E muito obrigado, nosso agradecimento ao povo do Brasil e à sua senhora presidente. E muito obrigado à boa-fé que, seguramente, manifestaram todos os oradores que me precederam.

    Expressamos a íntima vontade, como governantes, de acompanhar todos os acordos que esta nossa pobre humanidade possa subscrever. No entanto, seja-nos permitido fazer algumas perguntas em voz alta. Durante toda a tarde esteve-se falando em desenvolvimento sustentável, de tirar imensas massas da pobreza. O que nos passa pela cabeça? O modelo de desenvolvimento do consumo é o atual das sociedades ricas. Eu gostaria de perguntar o que aconteceria a este planeta se os indianos tivessem a mesma proporção de carros por família têm os alemães? Quanto oxigênio nos restaria para podermos respirar?

    Mais claro: o mundo tem, hoje, os elementos materiais para fazer possível que sete, oito bilhões de pessoas possam ter o mesmo nível de consumo e desperdício das mais opulentas sociedades ocidentais? Será possível ? Ou teremos que nos dar, algum dia, outro tipo de discussão? Porque criou-se uma civilização, na que estamos, filha do mercado, filha da competição, que se deparou com um progresso material portentoso e explosivo. Mas o que foi economia de mercado criou a sociedade de mercado. E se apresentou esta “globalização” que significa olhar por todo o planeta. Estamos governando a globalização ou a globalização nos governa? É possível falar de solidariedade e de que estamos todos juntos numa economia que está baseada na competição desapiedada? Até onde chega a nossa fraternidade?

    Nada disso digo para negar a importância desse evento. Não, pelo contrário, o desafio que temos pela frente é de uma magnitude e de um caráter colossal e a grande crise não é psicológica, é política. O homem não governa, hoje. A força que se liberou, ou a força que liberaram governa o homem… e à vida. Porque não viemos ao planeta para nos desenvolvermos em termos gerais. Viemos à vida tentando ser felizes. Porque a vida é curta e nos acaba. Nenhum bem vale como a vida e isto é elementar. Mas se a vida me vai escapar trabalhando e trabalhando para consumir o máximo e a sociedade de consumo é o motor, porque se definitivamente se paralisa o consumo ou se detém, se detém a economia, e se se detém a economia é o fantasma da estagnação para cada um de nós. Mas esse hiper-consumo, a juízo, é o que está agredindo o planeta e esse hiper-consumo tem que gerar coisas que durem pouco, porque é preciso vender muito. Uma lâmpada elétrica não pode durar mais de mil horas acesa. Há lâmpadas que podem durar cem mil, duzentas mil horas, mas essas não se pode fazer. Porque o problema é o mercado. Porque temos que trabalhar. Temos que estar numa sociedade de uso e descarte, estamos num círculo vicioso. Estes são problemas de caráter político que estão nos dizendo da necessidade de lutar por outra cultura.

    Não se trata de propor voltar aos homens das cavernas, nem fazer um monumento ao atraso. É que não podemos, indefinidamente, continuar governados pelo mercado mas, sim, temos que governar o mercado. Por isso digo que o problema é de caráter político.

    Na minha humilde maneira de pensar – porque, como os velhos pensadores definiam, Epicuro, Sêneca, …, – pobre não é o que tem pouco, mas o verdadeiramente pobre é o que necessita infinitamente muito e deseja e deseja e deseja mais e mais. Esta é uma chave de caráter cultural. Então, vou saudar o esforço e lhes recordo que é assim.

    Vou acompanhar, como governante, porque sei que alguma coisa das que digo se retêm. Mas temos que nos dar conta que a crise da água, que a crise do meio ambiente não são uma causa. A causa é o modelo de civilização que construímos e o que temos que rever é a nossa forma de viver. Por quê? Pois temos um país pequeno, muito bem dotado de recursos naturais para viver. Em meu país há três milhões de habitantes, pouco mais, três milhões e duzentos, mas há treze milhões de vacas, das melhores do mundo, e uns oito a dez milhões de ovelhas, estupendas. Meu país é exportador de comida, de arte ou de carne. É uma enorme planície, quase noventa por cento do seu território é aproveitável. Meus companheiros trabalhadores lutaram muito pelas oito horas de trabalho. Agora estão conseguindo seis horas. Mas aquele que consegue as seis horas, consegue outro trabalho, portanto trabalha mais que antes. Por quê? Porque tem que pagar uma quantidade de mensalidades, a motocicleta que comprou, o carrinho que comprou, e paga prestação e paga prestação e quando se dá conta, é um velho reumático como eu e se lhe foi a vida. E se faz essa pergunta: esse é o destino da vida humana?

    Estas coisas são muito elementares. O desenvolvimento não pode ser contra a felicidade, tem que ser a favor da felicidade humana, do amor sobre a terra, nas relações humanas, no cuidar dos filhos, em ter amigos, em ter o mínimo necessário. Precisamente, porque esse é o tesouro mais importante que existe. Quando lutamos pelo meio ambiente, o primeiro elemento do meio ambiente se chama felicidade humana. Obrigado.

    José Mujica, el Pepe.”

    Tradução – Eduardo Marinho

  • carlos costa

    mujica deve ser visto como alguém a frente de seu tempo; assim a descriminalizaçao do aborto e da maconha sao medidas absolutamente coerentes com sua postura.

  • André Borges Lopes

    Mujica fala ao “MIradas ao Sur” sobre o caminho para o socialismo e cita, vejam só, a Noruega:

    “hay gente que simplifica y se cree que al socialismo se va a llegar con una arremetida, revoleando el lazo y ya estamos en una sociedad nueva. ¡No, papá! Necesitamos una sociedad muy rica, muy instruida. Está mucho más cerca Noruega que nosotros del socialismo.”

    http://sur.infonews.com/notas/pasamos-mas-de-30-anos-quietos

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Um país interessantíssimo, a Noruega. Estive há pouco tempo lá durante o julgamento do Breivik. Impressionante.

  • Morus

    O caminho que a humanidade tomou a partir da revolução industrial é sustentável?
    A sociedade de consumo em que vivemos hoje é sustentável?
    Acreditam que haja outro caminho para que atinjamos a tão propalada sustentabilidade, que não seja o de seguir o exemplo de Pepe Mujica, de revermos nossos conceitos e valores, abrindo mão do ter, da acumulação e valorizarmos o ser, a comunhão, de aprendermos a dividir, a compartilhar?
    Se acreditam que há outro caminho que nos permita continuarmos consumindo em níveis cada vez maiores, sem destruirmos o planeta e, com isso, a nós mesmos, digam qual e!
    Eu desconheço.

  • Flavia

    Eu particularmente gosto de políticos austeros que fazem política para melhoria do coletivo e não por vaidade e melhoria financeira pessoal!!! Pepe Mujica prova que não sou uma romântica lunática!!! Conheço um político brasileiro assim Olívio Dutra ex-governador do RS!