O que acontecerá se as torcidas de futebol se unirem contra a Globo? Por Mauro Donato

Faixa no jogo Corinthians e Santos na Vila Belmiro, dia 6 de março
Faixa no jogo Corinthians e Santos na Vila Belmiro, dia 6 de março

 

O que acontecerá se as torcidas realmente se unirem?

Na tarde de ontem, na Vila Belmiro, torcedores do Santos e do Corinthians exibiram faixas com temas em comum. Na Torcida Jovem do Santos lia-se “O monopólio acabou”, em referência aos direitos de transmissão pela Globo. Pelo lado corintiano, uma faixa estampada: “FPF = Federação de Palhaçada e Falcatrua”.

Ainda pela manhã, na antológica rua Javari, a torcida do Juventus esticou faixas com a pergunta “Cadê a merenda?” endereçada a Fernando Capez. Transcorria um jogo contra o Mirassol pela segunda divisão do Paulista. De fora da cobertura televisiva, o árbitro mandou parar o jogo e ordenou que a PM recolhesse as faixas (quando a partida é transmitida isso não está mais ocorrendo e a Globo até simulou ser democrata com direito a comentários de Galvão Bueno).

Tudo isso no primeiro final de semana após o atentado ocorrido contra dois diretores da Gaviões da Fiel ocorrido na última quarta-feira após reunião com o promotor Paulo Castilho na sede do Ministério Público.

A emboscada preparada para a saída de um encontro entre líderes de torcidas – e para tratar exatamente do tema violência – poderia induzir a se acreditar em vingança de rivais. O próprio promotor Paulo Castilho imediatamente sugeriu isso. Todos os presidentes das agremiações presentes na reunião (Corinthians, Palmeiras e São Paulo) refutam essa hipótese e lançam luz sobre os reais motivos. E eles são políticos.

A Gaviões emitiu uma nota oficial na sexta-feira na qual afirma: “Apesar da rivalidade histórica de décadas, temos ideais comuns pelos nossos respectivos times e lutas sociais semelhantes, no combate à péssima (des)organização do futebol brasileiro, com consequências deploráveis e gritantes na grande massa. Embora a imprensa e o próprio promotor Paulo Castilho estejam sugerindo um ataque realizado por outra torcida, desconfiamos de tal hipótese. Os motivos para tal desconfiança não deve ser mistério para ninguém. Assumimos uma declarada guerra ideológica com setores da sociedade que, apoiados no conservadorismo, não estão acostumados com a contestação.

Se em 1969, quando fomos fundados travando uma luta contra Wadih Helú, ex-presidente compromissado com a ditadura militar, fomos repreendidos por capangas, não nos espantaria se a tentativa de repressão fosse implementada novamente, nos tempos atuais.”

O estopim de tudo isso foi a suspeita de envolvimento do presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo no propinoduto das merendas escolares. De quebra, a insatisfação pelo horário dos jogos no meio de semana submetidos ao final da novela e demais concentrações de poder que fazem com que os torcedores agora escrevam em longas tiras de pano: “A Globo não á dona do futebol”.

Sinal dos tempos, os protestos não apenas tornaram-se impossíveis de esconder (como a emissora fez durante as primeiras semanas) como parecem já dar alguns resultados.

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) está averiguando entre presidentes dos times grandes de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, se há algum tipo de ameaça ou retaliação, por aprte da Globo, caso os clubes contratem emissoras concorrentes para a transmissão de jogos na TV fechada ou em sistema pay-per-view.

Diretamente para a emissora, o Cade questionou: “Caso algum clube celebre contrato de transmissão de seus jogos em TV fechada com emissora concorrente, como tal fato interferiria nas negociações em relação aos direitos para a TV aberta?”

A emissora é suspeita de fazer a chamada “venda casada”, o que é irregular e a deixa na posição de ‘dona do futebol’ que hoje torcedores tanto se queixam.

A suspeita não é nova. Em 2011 a RedeTV havia vencido a licitação do Clube dos Treze pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. A Globo entrou negociando individualmente com os clubes que não faziam parte ou eram dissidentes do tal Clube dos Treze, através deles soube os valores e ofereceu mais. O Clube rachou e ela levou o campeonato pra casa, claro. A RedeTV acionou o Cade mas até hoje o caso está “em análise”.

Os abusos estarão com os dias contados?