O que está por trás do “ato profético” de Malafaia a favor de Temer. Por Hermes Fernandes

Eles
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O pastor Silas Malafaia tem convocado ostensivamente todo o povo evangélico para uma megamanifestação que ele tem chamado de “Ato Profético” marcada para o primeiro dia do mês de junho.

Para os que não estão acostumados com o linguajar neopentecostal, o termo “ato profético” inspira certa curiosidade. Fica a impressão de que Silas pretenda pronunciar alguma profecia acerca do futuro do país. Ele mesmo tem dado entrevistas nas quais afirma que seu objetivo é profetizar o fim da corrupção.  Para o leigo, isso soa, no mínimo, bizarro. É como se ele reivindicasse a prerrogativa de prever o futuro.

Todavia, para o neopentecostal, profetizar tem outro sentido. Não se trata de prever, mas de determinar através de uma declaração positiva. Nem todos os evangélicos endossam tal prática. Alguns chegam a considerá-la herética, ou, no mínimo, excêntrica.  É como se, por um instante, Deus abrisse mão de Sua soberania, e passasse uma procuração para que outro falasse em Seu próprio nome, determinando assim o curso dos acontecimentos.

A maior parte dos que atenderão ao chamado de Silas acreditam neste tipo de coisa. Já houve casos em que pastores que rezam pela mesma cartilha sobrevoaram cidades de helicóptero, espargindo azeite de oliveira sobre elas, acreditando que isso reduziria os índices de criminalidade. E devo salientar que a maioria dos que assim agem, acredita piamente na eficiência de tais “atos proféticos”. Trata-se, porém, de um tipo de sincretismo religioso,  em que crenças evangélicas se mesclam a práticas fetichistas e mágicas.

Há quem, em tom jocoso, se refira a isso como “boacumba”. Obviamente que, como um povo que faz da Bíblia seu referencial de fé e prática, tais líderes buscam passagens e episódios bíblicos para se referendarem. Por exemplo: Foi necessário que o povo hebreu marchasse por sete dias consecutivos ao redor das muralhas de Jericó para que estas desmoronassem. Essa marcha é considerada um “ato profético”. Também foi necessário que o general Naamã mergulhasse sete vezes no Rio Jordão para que fosse purificado de sua lepra (Bolsonaro só deu um mergulho até agora…rs). Esses e tantos outros episódios são lidos a partir da lente do misticismo neopentecostal.

Ainda que não questione a sinceridade de meia dúzia deles, sinto-me na obrigação de denunciar os que se aproveitam desta credulidade excessiva para se locupletar.

Silas não é propriamente um pastor neopentecostal. Sua escola é outra. Se não me equivoco, ele é a segunda geração de pastores de uma das mais clássicas igrejas pentecostais do país, as Assembleias de Deus. Tal costume é estranho àquela denominação. Porém, ele sabe que isso é que dá certo, atraindo multidões. E o seu intento não é outro senão dar uma demonstração de poder justamente no coração político do país. Ele sabe o peso que isso tem.

O presidente em exorcismo, ops, está amargando baixíssimos índices de popularidade. A única alternativa de que dispõe para reverter isso é recorrer ao povo evangélico já acostumado a ser massa de manobra nas mãos de alguns de seus líderes. Claro que não posso generalizar. Há muitos homens sérios, o que na linguagem protestante, são chamados de remanescentes, joelhos que não se dobraram à deusa da conveniência.

Dos que estiverem no palanque ao lado de Silas, possivelmente alguns estarão de boa fé, acreditando que o tal ato profético produzirá uma melhora substancial na atmosfera espiritual do Planalto Central. Sinto muito por eles, pois não percebem o quanto estão sendo usados.

Para os críticos deste tipo de performance, a tal manifestação está mais para um ato patético do que profético. Orações, palavras de ordem e profecias não bastam para alterar o rumo das coisas. Muito menos quando seus protagonistas estão aliançados com o que há de mais retrógrado e corrupto no cenário político nacional.