Pablo, Inês Brasil, Bolsonaro e a manipulação do ódio. Por Nathalí Macedo

Pablo Vittar

Drag queen rica e famosa incomoda. Mulher preta rica e famosa incomoda muito mais.

Pablo Vittar, a drag mais famosa do mundo – sim, do mundo -, teve sua conta no YouTube invadida por haters bolsominions – provavelmente adolescentes espinhentos de doze anos que batem punheta com X-Vídeos, curtem Orgulho de ser hétero e acham o máximo da rebeldia reaça postar #BolsoMito2018 – e seu vídeo mais visto permanentemente deletado.

A foto de Pablo foi substituída por uma foto de Jair Bolsonaro sem camisa (uma cena chocante, aliás, é um erro que não haja o botão “desver” no YouTube).

Não bastasse, no mesmo dia – hoje foi um dia de fortes emoções – Inês Brasil, cantora, porém mais conhecida por ser o maior meme LGBT que você respeita – foi duramente criticada nas redes por ter posado ao lado de Jair Bolsonaro para uma foto em um encontro à esmo no aeroporto.

Pablo Vittar e Inês Brasil, figuras veneradas no cenário LGBT, envolvem-se, no mesmo dia, em tretas com o mesmo político conservador, e isso não pode ser apenas um acaso. E não é.

Bolsonaro disse em entrevista que nenhum de seus filhos seria gay ou se casaria com uma negra, porque foram todos “muito bem criados” (claro, a julgar pelo Dudu Bolsonaro, homão da porra, estamos de acordo).

Este é um indício mais do que suficiente de que mulheres pretas não são as preferidas de Jair. Pior se a mulher preta em questão tiver saído da perifa, trabalhar com forte apelo sexual e for a rainha das bee.

Há apenas um motivo mais ou menos lógico para que Bolsonaro tenha postado uma foto com Inês Brasil, que representa, em última análise, tudo o que ele despreza: a clara e desonesta intenção de coloca-la sob o julgo da pós-modernidade.

E conseguiu: o comentário unânime dos seguidores da cantora foi “você está expulsa do Vale (dos homossexuais)”.

Porque, claro, a comunidade LGBT sequer suspeitará da desonestidade do tio Bolso. Estão todos ocupados em criticar uma mulher (com visíveis sequelas psíquicas, é sempre bom lembrar) pelas pessoas com as quais ela posa para fotografias.

O compreensível ressentimento pós-moderno salta aos olhos: “se você é pró LGBT e não taca ovo no Bolsonaro, sai da minha casa (ou melhor, do meu Vale).”

Se eu tivesse o desprazer de avistar o Bolsonaro no aeroporto, certamente não perderia a oportunidade recebe-lo como merece: na falta de ovo podre, uma cuspidinha marota, a exemplo do mestre Jean Willys.

Bolsonaro e Inês Brasil

Inês Brasil, entretanto, não gosta de cuspe ou de ovo: “vamos nos amar gostosinho!”, ela diz, e segue cantando para o seu público e posando para fotos em aeroportos com que bem entende, porque, embora a maioria das pessoas pareça ter esquecido, vivemos em uma sociedade livre (ao menos teoricamente).

Os membros da comunidade LGBT que consideram um absurdo que um de seus mártires não tenha reagido com ódio (reagiu, em vez disso, com ingenuidade) ao pedido desonesto de um político asqueroso de extrema direita não devem – por força da coerência – ceder à indignação diante de um grupo de hackers bolsominions que resolvem sacanear uma Drag.

O ódio que condena Inês Brasil em vez de tentar compreendê-la é o mesmo ódio que leva adolescentes espinhentos a hackearem contas de drag queens no YouTube: um ódio que polariza as pessoas em níveis extremos e assustadores.

Mais justo – e mais seguro – que cada um tire fotos com quem quiser e poste os clipes que quiser, mesmo porque qualquer polêmica internética – boa ou ruim – é um prato cheio para o Bolsonaro.

Então, enquanto Inês e Pablo perdem seguidores, Bolso continua a ser chamado de mito. Mais uma vez, minorias saem perdendo, Bolsonaro sai ganhando, e por uma única razão: o ódio plantado pela extrema direita tem encontrado terreno fértil em uma esquerda ressentida e apática.

O quanto antes repensarmos nossas prioridades – nota: condenar uma mulher por uma foto não é uma prioridade – antes figuras como Jair Bolsonaro cairão no único lugar que lhes cabe: o ostracismo.