Por que a “edição histórica” da Istoé não é assinada por quase ninguém. Por Mauro Donato

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Desde o vazamento da delação premiada de Delcídio do Amaral, as redações da IstoÉ estão em crise. A reportagem da diretora da sucursal de Brasília, Débora Bergamasco, foi comemorada pela cúpula da revista e levou muitos a compararem à de Pedro Collor na Veja, tamanho o impacto e possibilidade de qualificá-la como um gatilho no processo de impeachment.

Mas a maneira como foi obtida a delação e o sincronismo entre a publicação antecipada para quinta-feira, na véspera da condução coercitiva de Lula, provocou imenso desconforto entre jornalistas da casa.

O clima azedou de vez nos últimos dias e culminou com a “edição histórica” desta semana. Na revista inteira, só assinam as matérias o editor de política e repórteres de Brasília. O mal estar atingiu o ápice quando o departamento de arte foi deslocado para um canto, numa sala à qual quase ninguém tinha acesso.

Só o ‘núcleo duro’ da IstoÉ estava fechando a edição. Até a tarde de sexta-feira, ninguém sabia como seria a capa. Isso fez com que toda a equipe de São Paulo tenha se recusado a assinar as reportagens. Na cobertura do protesto ocorrido após a nomeação de Lula para a Casa Civil no dia 16 último, que vai da página 54 a 59, nem mesmo crédito para as fotos existe.

Como não poderia ser diferente, a capa é sombria, toda preta com um grande “Basta” em vermelho e fotos em preto e branco de Dilma e Lula. No entanto, o que primeiramente me chamou a atenção foi a espessura. Na era pré-internet, quando acompanhava as revistas semanais, elas tinham cerca de 200 páginas. Essa auto declarada “edição histórica” tem míseras sessenta e seis. Pouco mais de 25%.

Sem nenhuma novidade, a edição abre com uma entrevista de 3 páginas com Aécio Neves defendendo o impeachment – sobre o que mais ele dissertaria? – e traz intensa reprodução dos diálogos grampeados pela Lava Jato, preocupando-se notadamente em destacar os trechos em que há incidência de termos chulos (inclusive na capa).

A certa altura, traz uma foto péssima, toda desfocada, como se captada bem de longe por um paparazzo em afortunado flagrante, de Lula desembarcando de um jatinho em Brasília no dia da cerimônia de sua posse como ministro. Por se tratar de Lula, a revista deve acreditar que devesse ir para a Brasília num ônibus comum.

Todo o teor é de final dos tempos, “acabou”, ora de planfletagem. Uma das manchetes não é outra coisa senão uma ordem: “Congresso, tenha dignidade e cumpra seu papel!” Assim, com exclamação.

No início do ano passado, jornalistas do La Nación, um dos principais jornais da Argentina, protestaram contra um editorial publicado no dia seguinte à eleição de Macri para presidente. Além de malhar o período Kirchner, o texto pedia o fim dos julgamentos dos crimes da ditadura militar, classificava-os como “atos de vingança” e chamava os opositores do regime de “terroristas”.

Todos os jornalistas da casa posaram então para uma foto com cartazes nos quais se lia “Eu repudio o editorial” e postaram na internet. Talvez ainda não tenhamos por aqui um grupo frontalmente disposto a se expor daquela maneira, mas já foi um gesto simbólico o praticado pelos jornalistas da IstoÉ de São Paulo.

Curiosa ironia, na seção destinada a dicas culturais, a revista indica o livro “A imprensa entre Antígona e Maquiavel”, de Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação, filósofo e professor de ética e filosofia política na USP. Organizado durante o curso de pós-graduação em Jornalismo da ESPM, o livro compreende artigos sobre a ética na imprensa.

Ali, o professor provocava os alunos: “Você é jornalista. Exerce um cargo de direção. Tem decisões importantes a tomar. Digamos: publicar uma matéria, ou o modo como vai publicá-la, pode afetar sua credibilidade profissional, sua autoestima, sua posição como detentor de um cargo de confiança de seus patrões. Imagine uma matéria que possa ilustrar bem o caso e discuta: como você equilibraria esses três papéis – o de profissional, o de pessoa, o de chefe?”.

A compilação dos textos resulta no questionamento ético do jornalista para conjugar credibilidade e justiça.

“No meu tempo de ministro, fiquei chocado com o nível de mentiras publicadas nos jornais. Começaram na primeira semana. No Brasil temos uma imprensa que efetivamente mente, isso é muito grave”, disse Janine Ribeiro em uma ocasião de lançamento do livro, na qual citou ainda a falta de independência dos jornalistas dentro dos veículos para os quais trabalham. “A independência do jornalista está muito limitada pelo controle dos patrões. Isso tudo criou limites e trazem interferências éticas: jornalistas que não podem publicar o que apuraram, que receberam pautas prontas mesmo que a realidade não bata com elas e por aí vai.”

O editorial da “edição histórica” da IstoÉ, intitulado A HORA DE SE RETIRAR (assim mesmo, todo em maiúsculas ou caixa alta, para os antigos) começa com: “Não há um único brasileiro hoje minimamente informado que não esteja a se perguntar: em que país estamos?”

Ora, estamos no país em que chefes e editores censuram e marginalizam seus próprios jornalistas em razão de uma manutenção de poder que há muito vem-lhe escapando como água pelos dedos. Um país no qual alguns barões da mídia parecem não ter se dado conta ainda da existência da internet e que não se consegue mais enganar todo mundo o tempo todo.

O pessoal da redação da IstoÉ poderia inovar. Em vez de copiar os argentinos e postar uma foto em sinal de protesto, poderia dar de presente o livro de Renato Janine Ribeiro a seus chefes, afinal de contas, a própria revista recomendou.