Por que a mulher de Cunha aparece como ‘dona de casa’ nas contas da Suíça. Por Kiko Nogueira

Atualizado em 29 de outubro de 2015 às 17:25
Dona de casa
Dona de casa

 

Cláudia Cruz está listada nos documentos das contas na Suíça como “dona de casa”. Sim, isso mesmo.

Sócia de Cunha em algumas empresas, entre elas a clássica jesus.com, fora da TV desde 2001, a jornalista suspeita de lavagem de dinheiro desfrutou magnificamente da fortuna.

Segundo a Procuradoria Geral da República, dirigia um Porsche Cayenne e gastou 60 mil dólares com aulas de tênis numa academia da Flórida onde as irmãs Williams treinaram.

O STF autorizou o sequestro de 9,6 milhões de reais dos Cunhas. “Sua conta é utilizada especialmente para captar recursos de contas do marido”, diz o despacho do MP, que ainda menciona “despesas bastante consideráveis em cartões de créditos”.

Agora: por que dona de casa?

Por uma malandragem dos bancos e, claro, da titular. As instituições costumam acomodar clientes suspeitos — incluindo traficantes de armas e criminosos condenados — em atividades não remuneradas.

(Aliás, na documentação Cunha surge como “pessoa politicamente exposta, deputado federal no Brasil”).

De acordo com relatórios do caso Swissleaks, “dona de casa” é um qualificativo nas contas secretas mais comum do que “advogado” ou “comerciante de joias”.

As senhoras do lar respondem por mais de 7300 clientes nos arquivos no braço suíço do HSBC, à frente de outras duas categorias que também sugerem nenhuma remuneração financeira: “sem profissão” e “estudante”, juntos, perfazem 4 mil contas.

Cláudia está em boa companhia na pilantragem. Os vazamentos do Swissleaks contam a história de uma dinamarquesa de 57 anos chamada Hanne Tox. Ela abriu uma conta na Suíça — o que é um crime em seu país, como registra o gerente.

Meses depois, fez uma visita aos administradores de seu dinheiro. Passou a noite no hotel mais caro de Zurique, o Baur au Lac, aberto em 1844, palco da estreia mundial de “Cavalgada das Valquírias”, de Wagner. “Gostou muito”, lê-se em sua ficha.

No dia seguinte, sacou 24 500 dólares e voltou para casa. Hanne, cujo marido morreu em 2003, está classificada como “dona de casa”.

A americana Mary Wells Lawrence, mito da publicidade, fundadora de uma agência nos anos 60, foi uma das executivas mais bem pagas de seu tempo (ela tem 87). Criou o slogan I Love NY e lançou a Alka Seltzer.

Casou-se com um milionário e dividia seu tempo entre os Estados Unidos, uma ilha no Caribe e uma propriedade na Riviera Francesa que recebia gente como a princesa Grace de Mônaco e Frank Sinatra.

Tem duas contas secretas. Profissão? Do lar. Assim como uma princesa saudita, uma executiva tailandesa envolvida num escândalo de corrupção e a herdeira do império de moda de Nina Ricci.

Só gente boa. Na hora de lavar os pratos, engomar a roupa e preparar aquele coxão duro com arroz e feijão para as crianças, Cláudia Cruz já sabe para quem pedir umas dicas.