‘Entrevista com Escritores Mortos’ 14: Liev Tolstói

Tolstoi

Aos 75 anos, depois de ter construído uma pirâmide literária com obras como Guerra e Paz e Ana Karênina, Tolstoi tentou destruir a reputação de ninguém menos que Shakespeare. Produziu um ensaio sensacional em que aponta defeitos indesmentíveis do Bardo, mas, como a história mostrou, a artilharia pesada tolstoiana não atrapalhou a glória de Shakespeare. Pela tentativa épica de reescrever a história da literatura, decidimos chamar o Conde Tolstoi para falar de Shakespeare em nossa série Conversas com Escritores Mortos.

Conde Tolstói, o que o senhor sentiu ao ler, pela primeira vez, Shakespeare?

Lembro da perplexidade que me assaltou. Esperava receber um sopro poderoso de prazer estético, mas tendo lido um a um os trabalhos considerados os melhores (Romeu e Julieta, Hamlet, Rei Lear e Macbeth) não apenas não senti deleite como foi tomado por um sentimento de repulsão e tédio.

Não teria sido uma impressão inicial, Conde?

Por algum tempo não consegui acreditar em mim mesmo, e durante 50 anos recomecei a ler Shakespeare de todas as formas possíveis, em russo, em inglês, em alemão… Numerosas vezes li os dramas, as comédias e as peças históricas, e sempre senti a mesma coisa: desgosto, irritação, raiva.

Conde, isso é uma blasfêmia literária, se o senhor me dá licença para ser franco.

Tenho hoje a convicção de que a glória indiscutível da qual Shakespeare desfruta, e que compete escritores atuais a imitá-lo e leitores e espectadores a descobrir nele virtudes não existentes, é um grande mal, como todas as mentiras.

O senhor está, portanto, dizendo que o Bardo é um blefe…

Para mim, Shakespeare não é nem um grande gênio e nem sequer um autor mediano.

Prove, se puder!

Para ilustrar meu ponto, vou me deter em um dos dramas mais elogiados de Shakespeare, alvo de referências entusiasmadas da maior parte dos críticos, o Rei Lear.

Refresque por favor nossa memória, Conde…

O Rei Lear está acompanhado das filhas e dos genros, e começa a falar que, devido à idade avançada, decidiu se retirar. Vai dividir seu reino entre as filhas. Para definir o tamanho do que vai dar a cada uma, ele anuncia que aquela que disser que o ama vai receber mais.

Hmmm…

A filha mais velha, Goneril, afirma que meras palavras não podem expressar o tamanho de seu amor, que ama seu pai mais que a visão, o espaço e a liberdade. O Rei imediatamente mostra a ela em um mapa sua fatia de terras, rios etc. Depois faz a mesma pergunta à segunda filha, Regan. Ela diz que a irmã expressara o que ela sentia, apenas com menos força. Ela, Regan, o ama tanto que nada mais interessa. O pai a recompensa imediatamente. E então é a vez de sua favorita, a mais nova, Cordélia.

Hmmm…

Cordélia, que personifica todas as virtudes enquanto as irmãs simbolizam os vícios, afirma, como se estivesse querendo incomodar o pai, que o ama, mas que quando casar vai amar também o marido. Ao ouvir isso, o rei perde o controle e amaldiçoa a filha predileta.

O senhor entende que isso não faz sentido?

Não vou nem falar no linguajar pomposo do Rei Lear, o mesmo de todos os personagens de Shakespeare. O leitor, ou espectador, não pode compreender por que, ainda que velho e estúpido, o rei vai acreditar nas palavras das suas filhas falsas, com as quais certamente conviveu toda a vida, e vai duvidar do amor de sua filha favorita a ponto de bani-la. Por isso mesmo, o leitor ou espectador não consegue compartilhar os sentimentos das pessoas envolvidas na cena.

A linguagem dos personagens do Bardo é falsa, então?

Falta a Shakespeare o meio mais importante, se não o único, de caracterizar os personagens – a individualidade, ou seja, um estilo de prosa adequado a cada um deles, personagens. Não existe isso nele. Todos os personagens falam não sua linguagem, mas o idioma shakespeariano, pomposo, nada natural, e no qual não eles não se expressariam mas nenhum ser vivente.

O senhor tem consciência de que seria guilhotinado na Inglaterra se dissesse lá estas coisas, não tem?

Aqueles que estão apaixonados, aqueles que estão se preparando para morrer, aqueles que estão lutando, aqueles que estão morrendo, todos eles falam de coisas profundamente inadequadas para a ocasião.

De onde vem então a fama do Bardo?

No começo do século XIX, quando Goethe ditava o pensamento filosófico e as leis estéticas, uma série de circunstâncias casuais o fizeram elogiar Shakespeare. Os críticos copiaram Goethe e começaram a escrever idiotices elogiosas, e a Europa foi se tornando fanática por Shakespeare.

Hmmm…

Entendo que, quanto mais rápido nos livrarmos da glorificação equivocada de Shakespeare, melhor para a literatura.

Conde? (Nota do entrevistador: O Conde não parece estar ouvindo. Parece prestes a ter uma nova explosão anti-Shakespeare.) Conde? Clap, clap, clap, De pé.