Se o PSDB tem sua Madame Bovary, é José Serra

That's the question
That’s the question

 

Serra falou em bovarismo num evento da Juventude do PSDB em São Paulo. Fazia uma crítica do partido, que dividiu em quatro capítulos: regionalismo, mercadismo, colunismo e o supracitado bovarismo.

O que ele quis dizer? Segundo Serra, o PSDB “tem necessidade de ser aceito pelo PT”. Ele explicou: “Que me desculpem as mulheres, pois a coisa é mais complexa do que isso. Mas o problema da Madame Bovary é querer ser aceita pelo outro lado. Ela vai à loucura, quebra a família e trai o marido com Deus e todo mundo para ser aceita. O PSDB tem um pouco do bovarismo”.

Serra ilustrou sua tese com a reação ao leilão de Libra. “Eles fazem um leilão mal feito, como o do Campo de Libra. O que faz o PSDB? Sai dizendo: ‘Olha aí, eles falaram que eram contra a privatização, mas estão fazendo’. Isso dá voto? Nenhum.”

Madame Bovary, a heroína de Flaubert, foi influenciada pelos romances que lia. Procurou se libertar de sua vida medíocre. Acaba se envolvendo com vários homens. É uma tola que arruina sua família. Com o tempo, a psicologia se apropriou do conceito de bovarismo e ele passou a servir para, de acordo com um dicionário de termos literários, “certos tipos de atitude neurótica em que o indivíduo, desprovido de autocrítica, imagina-se diferente do que ele é.”

Um dia depois de atacar o partido dessa maneira, Aécio pediu:”Vamos deixar o Serra falar”. É uma maneira paternalista de lidar com o tio do pavê do PSDB, o cara que fala as bobagens na festa de Natal e a família finge que ri.

Nesse caso, o tio do pavê fez um bom achado, mas ele se aplica, na verdade, ao próprio Serra.

Não há realidade capaz de fazê-lo repensar o papel que se auto outorgou, de salvador da pátria de seu partido e, em última instância, do Brasil. O bovarismo de Serra é o que o impede de procurar um sucessor, ou algo que o valha, ou parar de sabotar e chantagear Aécio Neves. Como a heroína de Flaubert, JS vive num mundo de fantasia.

A dupla Aécio-Serra só encontra parentesco em termos de desencontro nos atrapalhados Roberto Carlos-Caetano Veloso. Na hora de expirar, Aécio ainda vai se lembrar de seu arqui-inimigo antes de repetir as últimas palavras de Flaubert: “Eu estou morrendo, mas aquela puta da Madame Bovary viverá para sempre”.