Sílvio Romero sobre os três grandes nomes da literatura brasileira: Machado, Alencar e Macedo. Por Camila Nogueira

Atualizado em 18 de fevereiro de 2017 às 20:02

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Sílvio Romero (1851 – 1914) foi um dos mais importantes críticos literários brasileiros, tendo escrito, entre outros livros, A História da Literatura Brasileira em cinco volumes. Foi dessa grande obra que retiramos os trechos abaixo. 

Qual a importância dos três escritores sobre os quais falaremos hoje?

São eles os mais aptos, os que revelaram qualidades superiores, os que exerceram grande influxo sobre seus contemporâneos.

Com qual começaremos?

Com Joaquim Manuel de Macedo, o mais operoso, o mais fecundo de nossos escritores, um dos fundadores – ou talvez o fundador – do romance brasileiro, um dos criadores do nosso teatro, e um dos mestres de nossa poesia.

Durante sua longa carreira, Joaquim Manuel de Macedo dedicou-se tanto à comédia quanto à tragédia. Em que se sobressaiu?

Creio que as suas comédias, como documentos da vida brasileira, levam vantagem sobre os seus dramas.

Se o senhor pudesse recomendar uma única comédia de Joaquim Manuel de Macedo, qual seria?

A Torre em Concurso, uma crítica aos costumes interioranos, ao espírito politiqueiro de nossa população, à protérvia e à safadeza dos chefes locais e às fraudes de nossas eleições.

O senhor nos considera detentores de um “espírito politiqueiro”?

Creio que os nossos costumes eleitorais são uma das mais curiosas chagas que degradam-nos. Não existe, talvez, na terra, povo que menos cure de seus interesses e necessidades. Não há povo que tenha menos senso político, menos ideia de nação e menos consciência de seus destinos… Não existe, entretanto, povo em que se fale mais de política.

Muitos autores, entre eles Macedo, são criticados por acomodarem em suas obras questões ideológicas. O que o senhor pensa disso?

Para meu uso particular, tenho para mim que um nobre, elevado e grandioso alvo social, político, filosófico ou religioso não faz nenhum a uma obra de arte. Se for filha de gênio, e tiver dele a marca, o sinal e o cunho, a aspiração ideal a realçará ainda mais. Creio que a preocupação humanitária nos Miseráveis e na Lenda dos Séculos, a religiosa e política na Divina Comédia, a patriótica nos Lusíadas e a filosófica no Fausto não retiram de tais obras o seu valor estético – realçam-no.

E quanto a José de Alencar? O que o senhor pode nos dizer a respeito dele?

Tendo a preocupação constante de formação de uma literatura nacional, José de Alencar preparou-se para contribuir para ela. Alencar estudou com afinco os velhos historiadores e cronistas; procurou conhecer os costumes dos selvagens, o viver dos colonos, da classe dirigente, dos escravos… Durante um curto período de vinte e cinco anos (de 1857 a 1877) Alencar produziu toda a sua obra, prodigiosa de raptos de eloquência e de fulgurações de estilo. Pode-se dizer que não ficou recanto de nosso viver histórico-social em que ele não tivesse lançado um raio de seu espírito.

A excelência de Alencar como romancista não pode ser colocada em dúvida, mas o senhor o considera um bom dramaturgo?

O dramatista em Mãe e em O Jesuíta tomou posto entre os mais distintos escritores desse gênero, não já da língua portuguesa, como da literatura universal. Ali existem cenas que atingem as alturas da verdadeira emoção dramática. Aquela em que a escrava Joana, no auge do desespero, se envenena para que não se saiba que ela é a mãe de Jorge, um jovem formado em medicina, e não se lhe desfaça o casamento com Elisa, que não se quereria ligar provavelmente a um filho de escrava, é uma dessas. Aquele brado que nega resoluta e firmemente e ao mesmo tempo inconscientemente afirma: “Eu não… Eu não sou a tua mãe, não… Meu filho!…” é um rapto de perfeição artística que chega às grandes emoções.

Falemos agora de Machado de Assis. Quais as características de sua obra?

O estilo de Machado de Assis não se distingue pela variedade do vocabulário, pela força imaginativa da representação sensível, pela movimentação ou pela abundância. As suas qualidades mais eminentes são a correção gramatical, a propriedade dos termos e a doce singeleza da forma.

É possível entrever, nas primeiras obras de Machado de Assis, pertencentes à Escola Romântica, um lampejo do escritor que revolucionaria a literatura brasileira com seus livros realistas, como Dom Casmurro?

O Romantismo de Machado de Assis foi sempre, no meio da barulha imaginativa de seus velhos companheiros, muito pacato e ponderado, com uma porta aberta para a realidade e a observação; seu posterior sistema, que podemos chamar de um naturalismo de meias tintas, um psicologismo ladeado de ironias veladas e de pessimismo sossegado, tem, por sua vez, uma janela escancarada para a banda das fantasias românticas.

“Pessimismo sossegado”?

Em nosso mundo ocidental, os poucos pessimistas de verdade – os desabusados de tudo e de todos, irremediavelmente condenados a sofrer a imensa dor inapagável da desilusão, mais do que desilusão, verdadeira condenação e prisão da vida, são sempre desatinados e instáveis, como era Baudelaire, como era Edgar Allan Poe, como era em parte Flaubert, como era o próprio Schopenhauer. Não era este precisamente o caso de Machado. O seu espírito era velado, tranquilo e discreto; mas era doce e comunicativo. Não andava cheio de sombras; usava de bons mots, de trocadilhos, de calembures; ria facilmente, mas com certa reserva; sentia-se que não se entregava de todo, não abria largamente as portas da alma à curiosidade estranha; mas dava a impressão da calma, da serenidade. Era, antes, uma espécie de moralista complacente e doce, eivado de certa dose de contida ironia, que de quando em quando costumava enroupar nas vestes de um peculiar humorismo, a que dava também por vezes uns ares de pessimismo intencional.

Resumidamente…

Para tudo dizer sem mais rodeios, Machado de Assis é grande ao fazer a narrativa sóbria, elegante e lírica dos fatos que inventou ou copiou da realidade.