Um jornalismo livre emerge na internet. Por Paulo Henrique Arantes

PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA DA CAASP

Nunca se produziu tanta notícia, nunca se opinou tanto sobre tudo e todos. A internet possibilita autonomia opinativa, abre espaços de mercado, cria nichos de leitores. Deixando de lado sites e blogs de pessoas pouco comprometidas com a verdade factual e com a qualidade textual, viceja no ambiente digital um jornalismo dito independente, mas o conceito de independência em comunicação social precisa ser relativizado. Por ser intelectualmente vazia, a ausência de ideologia não é tão positiva quanto querem fazer crer alguns, basta verificar que os melhores jornais do mundo assumem seu posicionamento no espectro convencional esquerda / direita – assim o fazem o francês Le Monde, o espanhol El País, os americanos The New York Times e The Washington Post, que declaram o candidato de sua preferência a cada eleição presidencial, o britânico The Guardian e outros. O que todos têm em comum é que não deixam o noticiário contaminar-se pelas preferências da casa, delimitando com clareza os espaços noticiosos e os editoriais.

De qual independência falamos, então, quando tratamos de jornalismo na internet? Ser independente significa não estar a serviço, primeiro, de partidos políticos ou governos, e, segundo, não estar amarrado a conglomerados empresariais cujos interesses econômicos sobrepõem-se à razão de ser do jornalismo, qual seja apurar e publicar a verdade, zelando pelo bem público. No caso brasileiro, significa estar acima do Fla x Flu político que toma conta da Nação.

“Sem independência não há como ser veraz”, afirma o jornalista Manuel Carlos Chaparro, professor aposentado de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP, autor de vasta obra sobre o tema. “Do ponto de vista conceitual, quem tem que ser independente é o jornalismo, não o jornal”, acrescenta. Segundo Chaparro, independência e ética não se separam: “A ética é a razão de ser das ações e das escolhas jornalísticas. É por isso que o jornalismo é importante sob o ponto de vista dos conflitos – o jornalismo é o espaço público mais importante nos conflitos, como era a praça pública antigamente”.

Manuel Chaparro

Deixar a veracidade em segundo plano não é simplesmente mentir para o leitor. Há outras formas de fazê-lo. O uso de um sensacionalismo exagerado é uma delas. “Não se deve usar as seduções da linguagem jornalística para enganar o leitor. É possível seduzir sem enganar. O sensacionalismo é um jornalismo de enganação, porque usa manchetes para entregar um conteúdo que não diz nada”, explica Chaparro.

Reluzem na internet inúmeros sites jornalísticos que se dizem independentes, mas nem todos o são de fato. Nesta reportagem, privilegiaremos aqueles cujas pautas vão além do dia-a-dia de Brasília, sem ignorá-lo, e do já insuportável embate entre “coxinhas” e “mortadelas”.

Fora do Fla x Flu

Não por acaso, os veículos que desenvolvem pautas exclusivas, densas, relevantes em termos civilizatórios, também se financiam de forma alternativa, é o caso da Repórter Brasil, da Agência Pública, do Nexo Jornal, do site Ponte, especializado em temas de segurança pública, e de vários outros portais ou serviços jornalísticos diferenciados, como o vigoroso The Intercept Brasil, filial brasileira da revista digital dirigida pelo premiado Glenn Greenwald, para quem o espião da NSA americana Edward Snowden vazou dados secretos.

Todos os veículos citados acima, aos quais se somam muitos outros, praticam um jornalismo profissional, em essência investigativo, apartidário e focado nos direitos humanos.

No universo infinito da internet, contudo, a qualidade não é a norma. “Evidentemente, no meio dessa barafunda, dessa confusão, dessa algaravia de vozes, dessa cacofonia de versões diferenciadas, existem tanto as pessoas sérias quando os picaretas, tanto aqueles que são aferrados aos fatos quanto os propagadores de versões”, observa o jornalista Luiz Egypto, ex-professor da Faculdade de Comunicação da PUC-SP e que por 17 anos foi redator-chefe do Observatório da Imprensa, site da análise de mídia criado por Alberto Dines.

“Quando se fala em jornalismo, estamos tratando de uma disciplina de verificação. Admito que possa ser esta uma posição romântica da minha parte, mas acredito que o bom jornalismo vencerá. A boa investigação, a boa checagem e o olhar para essa atividade como algo de interesse público prevalecerão”, prevê Egypto.

Sem fins lucrativos

Moradoras de rua ou com histórico de uso de drogas têm seus bebês retirados ainda nas maternidades e entregues para adoção pela Justiça à revelia das mães. Essa era chamada que estampava a página inicial do site da Agência Pública no último dia 20 de julho. Reportagem que exige do repórter gastar sola de sapato, como se diz no jargão da profissão – essa é marca do jornalismo praticado pela Pública.

“Praticamos um jornalismo independente. Não somos financiados por governos nem empresas, mas nosso principal diferencial é a forma de escolher as pautas: todas as nossas pautas nascem aqui dentro, não temos um financiador que pede matérias”, descreve Marina Dias, coordenadora de Comunicação da agência (apublica.org).

As reportagens da Pública podem ser lidas em qualquer veículo, mesmo os da chamada Grande Imprensa. Revistas semanais e jornais diários em papel costumam publicar matérias da agência – e não pagam por isso. “Somos uma organização sem fins lucrativos, nós distribuímos nossas matérias sem cobrar, mas temos algumas regras: ninguém pode mexer no nosso conteúdo”, explica Marina. “Nós fazemos reportagens investigativas e publicamos todos os documentos que obtemos. Nosso leitor tem acesso à fonte primária, sempre que possível”, destaca.

A Agência Pública financia-se por doações de instituições do quilate de Fundação Ford, Instituto Betty e Jacob Lafer, Open Society Foudations, Aliança pelo Clima e Uso da Terra, Oak Foudation e outros.

“Agrada muito a mim o conceito de empresa jornalística sem fins lucrativos. Estamos num momento em que as coisas começam a se definir, mas não temos ainda algo pronto. Acho que o melhor modelo é o da qualidade”, avalia Luiz Egypto.

Para Manuel Carlos Chaparro, grandes companhias jornalísticas são pensadas como negócio, portanto partem de ações empresariais, daí a diferença de um veículo como a Pública. “Os sites independentes surgem a partir dos idealismos individuais, de compromissos individuais de jornalistas, de suas convicções éticas, suas convicções de cidadão”, nota o professor.

Sua excelência, o assinante

Num ambiente pulverizado, é crescente o prestígio do Nexo Jornal. Fruto de um projeto ousado, pode ser descrito como um site de matérias explicativas do noticiário hard news, ou, como diz sua diretora, Paula Miraglia, como um portal de “jornalismo de contexto”.

“Não estamos preocupados com furos”, sentencia Paula.

As seguintes chamadas, publicadas na página inicial no dia 21 de julho, ilustram o modelo jornalístico do Nexo: Como o aumento de impostos se encaixa na crise política nacional, ou Quais ações estão restringindo a demarcação de terras indígenas. Em www.nexojornal.com.br o leitor jamais encontrará coisas como “Joesley delata Temer” ou Moro condena Lula”, mas títulos do tipo A sentença e o despacho de Moro, analisados por dois professores de Direito, ou Como a crise pôs a escolha do presidente do Brasil nas mãos de parlamentares e juízes.

“A palavra que usamos é equilíbrio, mais que imparcialidade. Procuramos o tempo todo trazer mais de uma opinião, ouvir mais de um especialista, obter mais de uma perspectiva, mostrar o que realmente está em debate em cada uma das questões”, enumera Paula Miraglia. “No Brasil atual a possibilidade de debate está um pouco comprometida. Nosso trabalho é principalmente contribuir com o debate público, mostrando diferentes perspectivas na abordagem de diversos assuntos”, frisa.

A coragem maior por trás do Nexo está no modelo de financiamento que adota: assinantes, e nada mais. A partir de cinco acessos, a leitura das matérias só é permitida mediante assinatura, a qual dá direito a outros benefícios, como recebimento de newsletters diárias e outras exclusividades. “Não temos planos de ter publicidade, e essa decisão se deve a alguns motivos. Primeiro, porque temos uma crise e a publicidade não financia mais o jornalismo. Além disso, os anúncios comprometem muito a experiência do usuário”, explica. Não há dúvida de que pop-ups abrindo na tela no meio da leitura de um texto têm enorme potencial de afugentar o leitor.

Há um ano e meio no ar, o Nexo ainda depende do investimento dos sócios-fundadores, mas a expectativa é de que em breve as assinaturas o sustentem sozinhas. “Estamos dentro do que foi projetado”, garante Paula Miraglia.

A bandeira dos direitos humanos

“Mente quem diz não se enxergar dentro da régua ideológica. Nós nunca vamos carregar bandeirinhas do PT, do PSDB ou do Psol, nada disso. Mas carregamos a bandeira do trabalho digno, do respeito ao meio ambiente, dos direitos humanos – e isso é ideológico.” A argumentação é do jornalista Leonardo Sakamoto, fundador e diretor da ONG Repórter Brasil, nascida para praticar exclusivamente jornalismo e hoje dividida em várias frentes de ação no campo dos direitos humanos, incluindo produção de documentários e pesquisas. Titular de um blog no UOL e professor da Faculdade de Comunicação da PUC-SP, Sakamoto foi condecorado em junho último pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos por sua atuação no combate ao trabalho escravo – o programa “Escravo, nem pensar!” é um dos braços da Repórter Brasil.

A homenagem dos americanos deveu-se à participação da Repórter Brasil na criação do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, acordo que uniu 400 empresas comprometidas com o combate aos serviços forçados. Sakamoto também foi responsável pela elaboração da “Lista Suja”, que nominou empregadores flagrados como patrões de trabalhadores em situação análoga à escravidão.

Em reporterbrasil.org.br o internauta encontra reportagens de fôlego, sempre exclusivas, como esta, em manchete no dia de fechamento desta edição: Fraude no INSS: Instituto deixou de arrecadar R$ 30 bilhões em 2015 por sonegação ou inadimplência, valor que representa um terço do déficit da Previdência. Ou esta: Cadeia-presídio: na delegacia de São Gabriel da Cachoeira (AM), cidade com maior população indígena do país, há celas para mulheres e adolescentes.

“É impossível tocar um veículo de comunicação no longo prazo sem ter uma linha editorial que marque sua presença ideológica. Caso contrário, você estará escrevendo para quem? Para o grosso da sociedade? Isso não existe: você escreve para grupos da sociedade”, discorre Sakamoto. E prossegue: “Quando você não deixa clara sua régua de interpretação do mundo, você está impedindo que o leitor tenha o gabarito da tua leitura. Eu acho que o diferencial dos novos grupos de mídia é não negar ao leitor a sua régua de interpretação das coisas”.

Como organização sem fins lucrativos, a Repórter Brasil capta recursos por doação de outras ONGs e fundações – nacionais e, principalmente, internacionais -, como Centre for Research on Multinational Corporation (Somo), Cooperativa Mista de Produção, Danwatch, DGB, Finwatch, Industrialização e Comercialização de Biocombustíveis do Brasil (Cooperbio), Fundação Friedrich Ebert, Fundação Heinrich Böll, Global Forest Watch, Greenpeace, Institute for Human Rights and Business e outras.

“O dinheiro grosso vem do exterior – 55% dos nossos recursos. Alguma coisa vem de assinaturas, mas é uma fonte pequena. Não recebemos recursos dos Poderes Executivo e Legislativo. Podemos eventualmente receber alguma coisa do Ministério Público do Trabalho, do Ministério Público Federal ou de algum tribunal que deseje destinar recurso de TAC (Termo de Ajustamento de Conduta). Nunca recebemos um centavo de publicidade estatal ou de governos”, assegura Sakamoto.

Todas as prestações de contas da instituição estão disponíveis no site. “Se o jornalismo utiliza a estrutura do Terceiro Setor, sem fins lucrativos, com o objetivo de levar informação de qualidade para a população, a primeira coisa que pela qual deve primar é a transparência. O que leva alguém a doar? É saber como o dinheiro será investido”, pondera o jornalista.

No jogo das hard news

O enquadramento na categoria “independente” dos sites e agências jornalísticas citadas acima decorre de critérios fixados pela Revista da CAASP. Por óbvio, alguma dose de subjetividade é inevitável nessa seara. Tanto é que quase todos os veículos jornalísticos consideram-se independentes quanto ao conteúdo, mesmo aqueles que recebem todo tipo de verba publicitária, seja de empresas privadas, bancos, governos ou estatais.

Normalmente, são veículos de nítido posicionamento no âmbito da política nacional, que tomam partido a cada passo dado pela Operação Lava Jato, por exemplo. Isso não significa que não contenham análises e notícias de qualidade e cada vez maior número de leitores, além de articulistas gabaritados. Deixando de fora os sites mantidos por grandes empresas de comunicação – como o UOL, da Folha de S. Paulo, e o G1, da Globo –, destaca-se o DCM – Diário do Centro do Mundo, hoje dirigido pelo jornalista Kiko Nogueira, mas fundado por seu irmão Paulo Nogueira, falecido em junho último. Ambos são advindos da Grande Imprensa – Paulo foi diretor da revista Exame, além de ter ocupado outros cargos de direção no Grupo Abril e nas Organizações Globo. O DCM registrou entre 20 de junho e 20 de julho últimos nada menos que 3,3 milhões de leitores únicos, e 14,5 milhões de visualizações de páginas, mais do que alcançam, por exemplo, os sites ligados às tradicionais revistas semanais impressas, como Veja e Isto É.

O DCM tem empresas de vários ramos anunciando no site, além da chamada propaganda programática, que é a ocupação de espaços por conteúdo de outros sites remunerada via Google. Mas talvez o maior valor jornalístico do Diário do Centro do Mundo resida nas reportagens de fôlego custeadas por crowdfundig: o veículo lança a pauta a ser desenvolvida aos leitores, que decidem fazer ou não doações para sua concretização. Financiado por crowdfundig o DCM fez até matérias internacionais, como aquela em que o repórter Joaquim de Carvalho viajou às Ilhas Virgens Britânicas em busca de identificar uma empresa ligada à Globo, supostamente usada para esconder recursos da Receita brasileira.

No mesmo campo em que se posiciona o DCM, que se autoclassifica como de esquerda e apartidário, estão outros veículos conduzidos também por jornalistas consagrados oriundos da mídia tradicional, como o GGN, de Luís Nassif, o Viomundo, de Luiz Carlos Azenha, o Opera Mundi, de Breno Altman, o Brasil 247, de Leonardo Atuch, e dezenas mais. O recém-criado Poder 360, que tem no comando Fernando Rodrigues e Tales Faria, trafega pelas mesmas pautas políticas da mídia tradicional, com foco em Brasília, cultivando o pluralismo por meio de colunistas e colaboradores. À direita no espectro ideológico, destacam-se o Spotniks e o poderoso O Antagonista, este conduzido pelos ex-Veja Mário Sabino e Diogo Mainardi. O Antagonista chegou a publicar em tempo real conteúdo de depoimento sigiloso de Marcelo Odebrecht ao juiz Sérgio Moro.

O momento histórico do Brasil, em que as questões nacionais urgentes atrelam-se em maior ou menor grau à Justiça e ao Direito, faz nascer também uma série de veículos especializados na área jurídica. Ao lado dos já tradicionais Consultor Jurídico, o Conjur, e Migalhas, estão o Justificando, menos noticioso e mais opinativo, e o Jota, entre muitos outros. A análise dos sites jurídicos mereceria uma reportagem exclusiva, pelo grau de avanço que significam à medida que constituem um novo campo de especialização jornalística.

Mentiras e checagens

Notícias falsas sempre existiram, mas nunca com o volume e o alcance que têm hoje, reverberadas pelas irracionais redes sociais. As fake news vieram para ficar? “Há muita informação falsa, mas há também grande facilidade em identificá-las – a possibilidade de um desmentido imediato é muito forte”, avalia o professor Manuel Carlos Chaparro. “Se o cara quer sucesso, ele tem que se colocar no trilho ético”, acredita.

Para o professor Luiz Egypto, as fake news são perigosas. “A tendência é que as pessoas procurem notícias que corroborem o seu próprio pensamento. Quanto mais você me der uma notícia falsa que endosse o que eu penso, mais eu tendo a acreditar nela”, raciocina, e vai além: “Trata-se de uma coisa que vai totalmente contra os princípios basilares do jornalismo, que foram construídos na era pré-digital: autenticidade, credibilidade, checagem, fidedignidade”.

A Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo, mediante critérios definidos por um grupo de estudos da USP, identificou os mais acessados sites falsamente jornalísticos, contumazes disseminadores de fake news. Eles têm algumas caraterísticas em comum, como não possuir identificação de corpo editorial, não publicar nenhuma matéria assinada, layout deliberadamente poluído e confuso e nomes parecidos com o de veículos críveis.

Eis a lista dos campeões das fake news, segundo a associação ligada à USP: Ceticismo Político, Correio do Poder, Crítica Política, Diário do Brasil, Folha do Povo, Folha Política, Gazeta Social, Implicante, JornaLivre e Pensa Brasil.

De positivo nesse ambiente tão sortido – e por vezes sórdido –, emergem os serviços de checagem de notícias, as agências de fact checking, desmascarando saborosamente políticos mentirosos. Destacam-se a Lupa, ligada à revista Piauí, o serviço Truco, da Agência Pública, e a Aos Fatos, que atuam inclusive em parceria com veículos da mídia tradicional.

Mentir está ficando perigoso, para o bem do Brasil.