Por que Serra é tão detestado

O atentado da bolinha de papel

O brasileiro é cordial.

É raro o brasileiro odiar alguém. Coletivamente, quero dizer.

Em minha vida adulta, vi poucos casos de abominação generalizada. Roberto Marinho, das Organizações Globo,  foi um deles.

Os brasileiros desconfiavam que ele punha seus interesses pessoais à frente dos interesses do país, e que retribuía com servilidade jornalística à ditadura militar que tanto o ajudara com o dinheiro do contribuinte.

Um dos grandes paradoxos do Brasil é que a raiva inspirada por Roberto Marinho não se traduziu – pelo menos enquanto ele era vivo – nos índices de audiência da Globo.

Minha hipótese, para isso, é que a Globo se beneficiou não apenas da camaradagem dos generais no poder – mas também da inépcia administrativa da concorrência. Sem alternativa, numa era pré-internet e pré-controle remoto, brasileiros acabavam vendo novelas da Globo e na inércia, entre elas, o Jornal Nacional de Cid Moreira e Sérgio Chapelin.

O outro grande caso de antipatia nacional que presenciei numa sociedade tão amigável como a brasileira é José Serra.

Acho mais fácil explicar a patologia Serra que a patologia Roberto Marinho. A rejeição a Serra começa entre os jornalistas. Serra sempre recorreu às instâncias mais altas – de preferência os donos – para se queixar de jornalistas que escreveram coisas das quais ele não gostou.

Jornalistas têm repulsa por isso. Lembro que, em meus dias na Veja, nos anos 1980, os diretores de redação JR Guzzo e Elio Gaspari – dois mestres – tinham uma lei não escrita. Se um político ou um empresário fosse se queixar da revista a Roberto Civita, dono da Abril, e não a eles, dali por diante o contato direto estava encerrado.

Fora do jornalismo, Serra cometeu um erro grave quando se candidatou a postos mais altos, especialmente, é claro, a presidência: ele quis fingir ser o que não era. Não existe antipático mais execrável do que o falso simpático. Serra se tornou isso.

O bom jornalismo, aspas, da GloboO atentado da bolinha de papel

Serra quis, provavelmente, emular Lula na tentativa de ser “alguém como todos nós”. Só que ele não é. Melhor: ele não pensa que é. Serra se acha um predestinado. Serra pontifica, não fala.

Foi nessa cirurgia plástica em sua imagem, neste botox comportamental, que ele foi crescendo na ojeriza nacional.

Alguns atos foram também ajudando na resistência a seu nome. O episódio do atentado da bolinha de papel foi um deles: a ressonância magnética pela qual Serra passou de que uma bolinha de papel foi tratada como uma arma perigosa estará registrada nos livros de história que a posteridade lerá.

E agora mesmo: o prefeito que deixou a São Paulo que o elegeu no curso de uma insana cavalgada rumo à sonhada presidência, bem, ele está aí de novo. Pede os votos dos mesmos paulistanos que ele abandonou a Kassab, um dos prefeito mais mal avaliados do Brasil.

É um absurdo com exclamação. Mas suponhamos o seguinte: foram brilhantes os anos em que São Paulo esteve sob Serra como governador ou prefeito.

Mas vamos examinar os fatos. Serra mostrou um talento extraordinário ao liquidar, ou mesmo mitigar, as previsíveis enchentes que são particularmente cruéis para os paulistanos pobres? Ele diminuiu significativamente o número de favelas e de favelados? A lista é longa.

Há um mito – propagado pelo próprio Serra com eficiência, e aí reconheço um êxito – segundo o qual ele é um administrador preparado. Preparado para o quê, concretamente?

A única resposta que me ocorre é: preparado para fazer tudo em nome de um tipo de poder em que ele próprio – e não a sociedade – é o centro de tudo.

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