25% dos brasileiros recusarem vacina mostra que o obscurantismo está entre nós. Por Fernando Brito

Vacina (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Publicado originalmente no Tijolaço:

Por Fernando Brito

Numa das cenas mais delirantes do filme Doutor Fantástico, um general americano ‘explica’ ao coronel inglês vivido por Peter Sellers que nunca bebe água, exceto destilada ou da chuva porque a fluoretação da água é uma conspiração comunista para esterilizar os norte-americanos e que os russos “só bebem’ vodca para continuarem se reproduzindo e dominar o mundo.

A extraordinária e irônica imaginação de Stanley Kubrick parece ter se transplantado para o mundo (e o Brasil) de hoje.

Semana passada, numa consulta de dentista, estranhei que a atendente apontava a pistola de medição de temperatura para o pulso e disse a ela que podia medir na testa, como convencionado para obter leituras corretas, porque eu não acreditava nas bobagens sobre isso causar câncer ou danos à glândula pineal.

“Você não acredita”, disse ela, “mas a maioria dos pacientes têm medo”.

É isso, esta estupidificação das pessoas, o que explica o resultado da pesquisa Ibope divulgada hoje pelo Estadão, dando conta de que um quarto dos brasileiro se recusará ou terá resistências a tomar a vacina contra a Covid-19.

Entre as razões, diz o Ibope, estão “teorias da conspiração das mais diversas, como a de manipulação genética ou implantação de um chip por meio da vacina e até a hipótese de que o produto seria feito com fetos abortados”.

A estupidez, porém grassa em outros e vários temas.

O presidente do Supremo, Dias Tofolli, ao dizer que “nunca viu uma atitude antidemocrática” de Bolsonaro, só faltou agradecer ao presidente pelo “acabou, porra” e por insuflar os manifestantes que pediam o fechamento do STF e a intervenção militar. A coisa anda de tal forma que ele esqueceu até a leniência bolsonárica com o ministro que queria por na cadeia os “11 vagabundos” do Supremo.

O general do flúor esterelizante do filme, um desempenho magnífico do ator George C. Scott, multiplicou-se aqui por uma vintena de oficiais provectos, que acham o mesmo do vírus comunizante.

Dá calafrios só de pensar no subtítulo do filme de Kubrick: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb ou, numa tradução livre, Como Eu Aprendi a Parar de me Preocupar e a Amar a Bomba (Atômica).

Afinal, como diz o filósofo presidencial, todos nós vamos morrer um dia, mesmo.

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