Ataque ao Porta dos Fundos: ‘Com Bolsonaro, extrema-direita se sente autorizada a radicalizar’. Por Leonardo Coelho

Grupo autodenominado integralista que atacou UniRio em dezembro de 2018 | Foto: Reprodução/Facebook

 

PUBLICADO NA PONTE

POR LEONARDO COELHO

O recente ataque de um grupo de extrema-direita à sede da produtora Porta dos Fundos na terça-feira (24/12) fez reacender as discussões sobre grupos radicais com tendências neofascistas no Brasil.

Em vídeo, o grupo que se intitula Comando de Insurgência Popular Nacionalista expõe cenas da madrugada em que lançaram coquetéis molotov e explicam o que teria motivado o ataque: o especial de Natal “A primeira tentação de Cristo“, feito pelo Porta dos Fundos, que retrata Jesus Cristo (Gregório Duvivier) como um gay que namora Orlando (Fábio Porchat). O Comando se autodenomina integralista, pensamento com fundamento de ideais tradicionais e ligação com o fascismo na época da Segunda Guerra Mundial.

Ponte havia tratado sobre essa organização em reportagem realizada há um ano, quando a UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) foi invadida e 11 integrantes do grupo queimaram bandeiras antifascistas.

Para o pesquisador Odilon Caldeira Neto, professor de História Contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autor da obra “Sob o Signo do Sigma: Integralismo, Neointegralismo e o Antissemitismo”, grupos assim sempre existiram mas estão se sentindo autorizados a se manifestarem mais livremente diante da figura do atual contexto político brasileiro. “O governo atual tem bandeiras, valores, discursos e práticas que são fiéis, aproximáveis, ou soam como música para ouvidos de grupos de extrema-direita, mesmo dos mais radicais. Não é surpresa no contexto atual que grupos assim se sintam mais animados para poder sugerir uma radicalização e inserção de suas pautas na sociedade”, afirma Neto.

Na época do ataque à UniRio, Odilon ponderou que a ação expunha um cenário mais agitado no campo da direita política, do qual o integralismo faz parte. Um ano depois, o pesquisador traz novas ponderações sobre o que pode representar o suposto ataque do mesmo grupo.

Confira a entrevista:

Ponte – O que explica, no atual contexto, termos a consolidação da violência de extrema-direita?

Odilon Caldeira Neto – A gente deve levar em consideração que a radicalização das ações desses grupos deve ser vista em dois sentidos: o primeiro é de uma disputa interna e outro é a busca por influência em um espaço mais amplo, que vem a partir de um governo como o atual brasileiro, que tem bandeiras, valores, discursos e práticas que são fiéis, aproximáveis, ou soam como música para ouvidos de grupos de extrema-direita dos mais radicais. Então não é surpresa no contexto atual que grupos assim se sintam mais animados para poder sugerir uma radicalização e inserção de suas pautas na sociedade. É inclusive uma forma de eles testarem quais os limites e possibilidades de suas ações. Mas é igualmente uma disputa interna. Se o neofascismo é um espaço múltiplo, que no Brasil não é composto apenas pelo neointegralismo, é necessário que esses grupos disputem espaços com grupos distintos ou mesmos outros grupos radicais. O processo de radicalização política é até uma estratégia ou necessidade de sobrevivência para grupelhos que se sentem ameaçados no seu próprio campo.

Ponte – o que é o neointegralismo, os pontos em contato e as diferenças em relação ao integralismo dos anos 1930?

Odilon – O neointegralismo aparece através de pequenos grupos que surgem após a morte de Plinio Salgado em 1975 e buscam disputar a legitimidade como organização primordial do integralismo. Também procuram uma possibilidade de propor rearticulações, seja através de radicalização do discurso – através de grupos antissemitas por exemplo – ou de organização, discutindo como deve ser o integralismo na contemporaneidade. Alguns acham que deve ser um partido político, outros que deve ser uma organização de cunho civil e cultural. Outros buscam radicalizar ainda mais.

Ponte- O grupo que promoveu o ataque ao Porta dos Fundos é, supostamente, o mesmo que em 2018 invadiu a UniRio. É possível dizer que esse grupo está desenvolvendo novos meios de ataque ou estratégias? E por que esses grupos agora veem a violência como um caminho válido?

Odilon – De uma maneira geral esses grupos fazem o processo de seletividade do próprio integralismo. Alguns deles buscam deixar menos evidente o credencial fascista. Outros buscam retomar essas credenciais intolerantes. O neointegralismo é caracterizado hoje pela inexistência de uma figura aglutinadora como a de Plínio Salgado até 1975, portanto é um espaço claro de disputa. Sem isso, eles podem propor novas ideias, novas práticas e disputar legitimidade perante seus pares. Em torno desse grupo que reivindica o ataque existe uma historicidade, o que demonstra que esse grupo esta buscando radicalizar o campo integralista, e não apenas uma estratégia do próprio grupo. Estão talvez buscando radicalizar o panorama neointegralista para atuação na atualidade. E também é necessário comentar que diversos grupos integralistas ou não – inclui-se aí neofascistas – estão em contato com grupos internacionais similares. E não é apenas via internet, mas também articulação presencial, organização e treinamento in loco. Eventualmente até chegando a atos mais radicais. Então pra interpretar casos como esse que, ao que tudo indica, seja de um grupo neointegralista, é preciso observar que eles dialogam sua radicalização não apenas no panorama nacional, mas também observam as necessidades de intensificação nas interfaces supranacionais, procurando emular o que é feito lá fora aqui no Brasil.

Ponte – Um dos pontos que chamou a atenção para pessoas que não conhecem o assunto foi o manifesto lido pelo grupo que assumiu a autoria do atentado usar vários termos mais típicos da esquerda do que da direita. O que isso diz sobre eles?

Odilon – Isso não é uma novidade, porque o próprio fascismo histórico se apropriou historicamente de algumas bandeiras, de léxicos próprios da esquerda. Mas é preciso levar em consideração que, por exemplo, o termo “burguês” que eles trazem é totalmente diferente do que o que a esquerda entende, seja da esquerda radical ou liberal. No caso desse grupo que assumiu o ato terrorista ele é aproximado em muito do discurso antissemita, conspiracionista, que faz críticas ao capitalismo liberal, mas em tom de radicalização de tipo fascista. Então não é de se espantar na proximidade dos termos, mas o entendimento é inverso.

Ponte – A própria FIB (Federação Integralista Brasileira) não reconheceu tal grupo como integralista. O que isso demonstra sobre o movimento? É possível que essa célula tenha interesse inclusive de por em xeque outros movimentos?

Odilon – A nota demonstra, no mínimo, que há um intenso movimento de disputa por legitimidade no campo neointegralista, com agentes que querem capturar essa carga histórica do integralismo dos anos 1930.

Ponte – Muitas vozes na esquerda avaliam que é preciso tomar extremo cuidado ao expor peças de propaganda como o vídeo do referido grupo. Até que ponto isso é uma crítica válida quando se trata de discutir uma ação como essa?

Odilon – É necessário entender aquilo que quer destruir as forças organizadas de esquerda e tratar essa ameaça de maneira crítica. É preciso compreender quais são os perigos que esses grupos apresentam à legalidade democrática e para as minorias que eles querem destruir ou, no mínimo, criticar, em especial as bases e articulações desses grupos que expandem suas atuações para fora deles próprios. É imprescindível não silenciar e, sim, estudar.

Ponte – Historicamente, quais foram as reações à esquerda para recrudescimento de ações integralistas?

Odilon – Historicamente a resposta da esquerda – sobretudo as tendências mais revolucionárias – é o enfrentamento. Não dá pra dizer que isso há de se repetir, mas há uma historicidade nisso, e o integralismo foi combatido não apenas no campo das ideias, mas através de embates físicos também. A ALN (Aliança Nacional Libertadora) e militantes diversos de esquerda são exemplos históricos disso.

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