Transmitir ao vivo o desespero de uma mãe na Record está na Bíblia de Edir? Por Nathalí

Apresentador de Record coloca mãe para ouvir ao vivo que filha foi assassinada. Foto: Reprodução/Twitter
O que programas como o Cidade Alerta fazem não é jornalismo, e isso a gente já sabe, mas expor ao vivo o desespero de uma mãe que acaba de saber que sua filha foi vítima de um – mais um – feminicídio brutal é demais até para a turma do Edir Macedo.

No Cidade Alerta de ontem, o apresentador Luiz Bacci fazia o que ele e sua emissora sabem fazer de melhor: transformar o sofrimento alheio em audiência.

A pauta era o desaparecimento de uma jovem de 21 anos identificada como Marcela, grávida de quatro meses, que desaparecera em Guarulhos – SP.

A mãe da jovem, Dona Andréia, falava à reportagem em uma transmissão ao vivo, quando foi informada, em rede nacional, que sua filha estava morta e seu genro era o assassino.

Crueldade pouca é bobagem.

“Dona Andreia, eu preciso que a senhora seja muito forte porque o advogado do namorado da sua filha vai falar conosco pela primeira vez”, avisou o apresentador.

A mulher tirou os fones de ouvido e caiu no chão, dizendo “não” repetidamente. Uma cena deprimente pra qualquer um que ainda mantém em si o mínimo de humanidade – mas não para Bacci e a rede Record, que só conseguem enxergar cifrões.

O Cidade Alerta acompanhara o caso desde o dia 12 de janeiro, quando Marcela desapareceu, e dizer ao vivo à mãe da vítima que sua filha fora brutalmente assassinada por seu genro era o grand finalle, a cereja do bolo, o desfecho tenso da novela da vida real.

O apresentador, um parasita do sofrimento alheio em troca de um bom salário, teve a pachorra de fingir surpresa, enquanto tentava segurar a transmissão do desespero da mãe ao vivo: “Meu Deus, ele confessou?”, perguntou, com uma cara de pau característica de apresentadores de programas como o Cidade Alerta.

É claro que toda a equipe sabia da notícia. É claro que o plano era filmar o sofrimento da mãe.
E é claro porque é isso que o Cidade Alerta faz: explora o desespero como entretenimento, sem nenhum respeito ao sofrimento alheio, ao telespectador, ao próprio jornalismo.

O pior não é saber que ainda existem programas como o Cidade Alerta, apresentadores como Luiz Bacci e emissoras como a Rede Record. O pior é saber que ainda tem audiência pra esse lixo. Ainda tem gente que se alimenta da desgraça. Ainda tem quem ligue a TV pra ouvir falar de morte, dor, desespero, e acompanha tudo com brilho nos olhos. 
Para a Record, sofrimento é audiência, audiência é dinheiro e dinheiro é tudo o que importa. Para seus espectadores, a dor alheia é prazer sádico

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!