
Um levantamento inédito com base em registros da Polícia Civil aponta que o consumo de álcool esteve presente em 50.805 ocorrências de violência doméstica em São Paulo entre 2023 e 2024. O número representa uma média de 2.100 casos por mês, ou cerca de 70 por dia, e reforça a associação entre o uso de bebidas alcoólicas e o agravamento de episódios de agressão.
A análise foi elaborada pelo Instituto Sou da Paz e pela ACT Promoção da Saúde a partir de dados obtidos via Lei de Acesso à Informação e publicada na Folha de S.Paulo. Os resultados indicam que, do total de ocorrências com menção ao uso de álcool, 55,4% foram classificadas como violência doméstica, enquanto 43,1% envolveram lesão corporal. Casos de estupro ou estupro de vulnerável representaram 0,9%, e feminicídios, 0,5%.
Entre os 467 registros de feminicídio analisados separadamente no período, 35% apresentaram associação com o consumo de álcool. Para o pesquisador Bruno Langeani, o impacto da substância ocorre em diferentes níveis. “Ele impacta especialmente o comportamento do autor, mas também pode interferir na capacidade de defesa da vítima e na avaliação de risco, sempre no sentido de agravamento da violência”, disse à Folha.
O perfil dos casos revela forte recorte de gênero. Entre as vítimas, 93% são mulheres, enquanto 95% dos agressores são homens. A maior parte das ocorrências envolve parceiros íntimos, com faixa etária predominante entre 27 e 44 anos. A análise também indica que, na maioria dos registros, é o agressor quem estava sob efeito de álcool.

Os dados mostram concentração temporal e espacial das ocorrências. Fins de semana respondem por 42,4% dos casos, enquanto a segunda-feira aparece com 12,6%. O período noturno concentra 35,9% das ocorrências e a madrugada, 15%. A residência é o principal cenário, com 75,1% dos registros.
Para especialistas, o padrão evidencia falhas na rede de proteção. “Se os casos se concentram à noite e aos fins de semana, o poder público precisa garantir atendimento nesses períodos”, afirmou Langeani. Delegacias com funcionamento 24 horas ainda são minoria, o que dificulta o acesso das vítimas nos momentos de maior risco.
A relação entre álcool e violência também é apontada como fator relevante para políticas públicas. “Esse alto percentual de vítimas mulheres evidencia o caráter de gênero da violência”, explicou Laura Cury, da ACT Promoção da Saúde. Segundo ela, o problema atinge não apenas mulheres, mas também crianças e outros familiares expostos ao ambiente doméstico.
Estudos adicionais indicam que o consumo de álcool pode aumentar significativamente a gravidade dos casos. A pesquisadora Fátima Marinho destaca que o uso da substância pelo agressor eleva em quatro vezes o risco de morte em situações de violência.
Diante desse cenário, especialistas defendem medidas como maior tributação de bebidas alcoólicas, restrição de publicidade e ampliação de políticas integradas de saúde, assistência social e segurança pública. “O álcool não explica sozinho o feminicídio, mas pode agravar conflitos, intensificar agressões e acelerar desfechos letais”.