8 provas de que São Paulo não é uma capital gastronômica

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São Paulo, capital gastronômica?

De que adianta termos mais de mil restaurantes japoneses, se não dá pra entrar em 95% deles?

Italianos e Churrascarias?

Idem.

Rodízio, só de carro.

Muito pouco, pra quem se auto-intitula capital gastronômica, não?

“Ah! Mas é melhor que no resto do Brasil, Julio”.

Suponho que quem fala essa bobagem não conhece Belo Horizonte, por exemplo.

Mas, dentro desse cenário sofrível e pouco promissor, nada me irrita mais que os falsos clássicos, lugares que são famosos, mas não entregam o que cobram.

Vamos a alguns deles:

1. DOM

Pra que pendurar melancia no pescoço, se você pode matar galinha num circo, na Suécia? Ou talvez, quem sabe, vender priprioca, ingrediente amazônico muito usado em cosméticos, como A iguaria fina? Ou quem sabe, talvez, fazer reclame de caldo de galinha industrializado, falando que é igual ao de casa? Pois Alex Atala faz tudo isso e muito mais. O cara passa o ano inteiro se vendendo, de maneira que seus prêmios até que são merecidos. Pena que ele se importe mais com sua imagem do que com o que serve no caríssimo DOM. Pães pesados, peixes congelados, carnes duras e secas, num ambiente que lembra praça de alimentação do Shopping Novo Osasco, dada a distância ridícula entre as mesas. Tudo isso por mais de um salário mínimo. Almoço? Escolha entre as três brilhantes opções de proteína: filé de peito de frango, filé mignon ou tilápia, que ele chama malandramente de saint peter. Isso, mais acompanhamentos, por modestos 82 reais, mais 13% de serviço. Ou, se preferir, vá de rabada com polenta, por 140 reais. Cachaça? Servida em inacreditável taça de conhaque. Café? Só Nespresso. A coquetelaria, embora caríssima, é ótima.

2. Sanduíche de pernil do Estadão

Não basta ser desequilibrado, com quantidade enorme de pernil molenga, encharcando o pão velho. Tem que custar salgados 24 reais. Mas o coxinha, que sai da balada, vai lá na madrugada, e elogia. Daí se cria a lenda.

3. Paris 6

A maior prova de que São Paulo NÃO é cidade boêmia é a lotação desse lugar, desde o almoço até altas horas. De longe, as piores sobremesas da cidade, que podem ser pedidas depois de um Risoto à Neymar ou Espaguete à Sabrina Sato. Vai encarar? Eu não.

4. Sanduíche de mortadela do Mercadão

Quatrocentos gramas de embutido nacional dentro de pão vagabundo tornam o sanduíche imordível. É a velha e datada história de que pra ser bom, tem quer ser bem servido. Não, não tem. Tem que ser equilibrado. E equilíbrio passa longe dali. Aliás, o sanduíche é tão ruim quanto o tosquíssimo pastel de bacalhau do Hocca Bar, também farto em desequilíbrio. Curioso que várias bancas vendem as versões genéricas dos supostos clássicos, transformando boa parte do Mercado Municipal numa verdadeira praça de alimentação do horror.

5. Coxinha do Frangó

O Frangó oferece várias coisas: é fora de mão, tem filas no fim de semana e é caro. Mas nada é pior que sua coxinha, que ficou famosa após aquele publicitário aposentado elogiar. Frango processado, com tempero insosso, recheia a massa pesada. O salgado em questão parece ter saído da mesa do fim de festa do aniversário da sua cunhada chata, comemorado no salão de festas do prédio. Pra acompanhar, o garçom te empurra cervejas caríssimas, sem a menor instrução. Vende cerveja belga como se fosse Brahma. Não dá.

6. Spot

Existe algo pior que um lugar famoso por ser considerado um clássico “para ver e ser visto”? Existe. A própria comida, servida lá, que lembra bem fast food de praça de alimentação de shopping, onde se escolhe uma opção de grelhadinho com acompanhamento. E dá-lhe salmão, truta, massa super cozida… O horror! O horror. E o preço cobrado não é de fast food não, embora tenha aberto recentemente filial em shopping. Aliás, nada mais justo. O Spot e o Shopping se merecem, nasceram um para o outro. Que abra outro na Barra da Tijuca, tem tudo a ver. Última observação: A coquetelaria nojenta, com direito à mise in place de Mojitos, provavelmente preparado no começo do turno, pra dar tempo do limão oxidar direitinho.

7. Bar Brahma

Só no coração do Caetano Veloso pra alguma coisa acontecer naquela esquina tosca. O que salvava justamente era esse bar. Quando comecei a beber, tinha como hábito fechar o Bar Léo e subir até o Brahminha, em cima do Brahma, onde me iniciei na arte do gim. Depois descia um pouco, adorava o balcão do salão principal. Às vezes, em horário mais noturno, ia direto pro Brahminha, que fechava bem tarde, e tinha entrada ao lado, na Ipiranga. Bons tempos… Hoje o bar lembra o abominável Villa Country, com direito a comandinha individual e muito Red Label. Balcão? Já era. Brahminha? O espaço ainda tá lá, mofando, abandonado, mó dó. Mas o pior de tudo é a entrada, denominada “cantinho da MPB”, ou qualquer coisa assim, onde fica um sujeito cantando num banquinho, com violão, repertório que vai de Djavan pra baixo.

8. Walter Mancini

A consagração popular das cantinas paulistanas é a maior prova de que sucesso nem sempre vem acompanhado de qualidade. Ivete Sangalo é outro exemplo, mas esse não é o foco do texto. Walter Mancini praticamente comprou a Rua Avanhandava, com exceção do Giggeto. Sua casa principal, Famiglia Mancini, é um show de horror, como tantas outras da região. Do outro lado da rua tem um “ristoranti” caríssimo, que simplesmente não entrega o que cobra. Ainda tem mais uns dois ou três negócios na rua, até galeria de arte tem. Decorou a rua com luminárias de festa junina e, só por isso, já deveria ser interditado. A única coisa boa é a pizza, mas não dá pra encarar, não. A não ser que queira aguentar breguíssima música ao vivo, coquetelaria de puteiro, carta de vinhos datada e gastar pequena fortuna. Na frente tem a Central 22, onde dá pra mandar uma brotinho sem encheção de saco e ainda ver o zoológico de famílias felizes, tirando fotos, na frente do chafariz imaginário, mas a pizza é cara pra cacete. Ou seja, no final, nada se salva. É o casamento do dinheiro com mau gosto. Se Jânio Da Silva Quadros estivesse vivo, já teria implodido a rua.

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