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“Por que toquei cello num lugar bombardeado em Bagdá”

Karim Wasfi em Bagdá
Karim Wasfi em Bagdá

Publicado na Al Jazeera.

 

 

Quando uma bomba explodiu em um bairro que lhe era familiar, Karim Wasfi foi até lá e tocou seu violoncelo.

Infelizmente bombas não são incomuns em Bagdá. Mas quando um carro cheio de explosivos detonou no movimentado distrito de Mansour esta semana, matando pelo menos 10 pessoas e ferindo 27, algo muito incomum aconteceu.

Enquanto os soldados e a polícia bloqueavam a área, Karim Wasfi, renomado maestro da Orquestra Sinfônica Nacional do Iraque, apareceu ali, tirou seu violoncelo do estojo, sentou-se em uma cadeira e começou a tocar. Imagens e clips de sua performance rapidamente tornaram-se um viral tanto nas mídias sociais do Iraque como em outros países.

Wasfi conversou com a Al Jazeera sobre sua decisão de se apresentar ali, sobre música e cultura serem tão importantes como comida e água, e as razões pelas quais o Oriente Médio deveria estar vivendo em paz.

Al Jazeera: Por que você foi a um campo bombardeado para tocar seu violoncelo? 

Karim Wasfi: Em parte porque acredito que civilidade e refinamento deveriam ser o estilo de vida e de consumo das pessoas. E, para chegar a isso, acredito que a arte em geral, e a música em particular, são ótimos canais para transmitir essa mensagem.

Foi um ato para tentar compensar, atingir um equilíbrio entre a feiúra, a insanidade e o grotesco, ações indecentes de terror, e equalizá-los, superá-los através de atos de beleza, criatividade e refinamento.

Al Jazeera: Então o ato de tocar o violoncelo foi oposto à ação de explodir uma bomba?

Wasfi:  Sim, basicamente criando vida. Não quero que essas ações se tornem uma inevitabilidade da situação no Iraque: a morte experienciada dia após dia.  Quero fazer o oposto: que a vida seja vivida dia a dia. Apesar de não vivermos a normalidade. Quando as coisas são normais, terei mais responsabilidades e obrigações.  Mas quando são insanas e anormais como está acontecendo, tenho a obrigação de inspirar as pessoas, compartilhando esperança, perseverança, dedicação e preservando o momento da vida.

Al Jazeera:  Como as pessoas reagiram quando você começou a tocar? 

Wasfi:  Amaram! Os soldados choraram. Eles se beijaram, aplaudiram, se sentiram vivos, humanos, apreciados e respeitados, o que não me surpreende.

Al Jazeera: O que disseram para você?

Wasfi:  “Deus te abençoe! Gostaríamos que nossos políticos fossem como você (risos). Você nos abraçou com sua arte e beleza”.  Reagiram de uma forma muito civilizada. Acendemos velas à noite e espalhamos flores pelo lugar. E toquei novamente. E eles compartilharam sua dedicação para apoiar atos de civilidade como esse.

Al Jazeera: Você se sente ameaçado por saber que alguns grupos armadas no Iraque são contra apresentações em público de certos tipos de música?

Wasfi:  O goveno não me ofereceu proteção alguma. Acredito ser uma ameaça para as mentes fechadas, pessoas que andam para trás, se houver alguma. Não me sinto intimidado. Não é apenas uma questão de desafiar o terror – é sobre dever e sobre elevar os padrões. Se as pessoas estão preocupadas o suficiente para não aceitar a música – diferentes gêneros de música, ou a clássica, com a que faço –, se isso é considerado demoníaco a seus ouvidos, se elas só conseguem reconhecer o bombástico, o estrondoso som das bombas, então posso imitar o som das bombas com meu violoncelo, ou através da orquestra, sem matar ninguém. A isso eles podem ouvir.

Al Jazeera: Algumas pessoas dizem que, em tempos de guerra, música e cultura são uma indulgência e que as pessoas precisam se concentrar nas necessidades básicas. 

Wasfi:  Considero uma afirmação absolutamente falsa. Para mim isso é lixo. A esta altura, música e cultura são tão necessárias como comida, oxigênio e água. Entendo o argumento por trás dos serviços básicos e primeiras necessidades.  Mas acredito que música e cultura são tão básicas como eletricidade e água. Talvez esteja sendo extremo como o outro lado.

Al Jazeera: Por que cultura e música são tão básicos como água e comida? 

Wasfi:  Porque refina e cultiva. Porque inspira as pessoas. Porque desenvolve melhor os cérebros. Porque te ajuda com matemática e física. Porque te ajuda com as belas artes e a pintura. Porque faz as crianças se comportarem. Porque envolve disciplina para torná-lo criativo, seja como um engenheiro, um físico ou um soldado. Porque tem um impacto positivo na psicologia humana. Porque você respira melhor. Porque você consegue pensar melhor e mais claramente. Porque você consegue encontrar mais talento dentro de você mesmo. E, sobretudo, porque é uma linguagem internacional de mútuo entendimento. É tudo!

Al Jazeera: Como se sente com o fato de seu ato ter se tornado um viral e conquistado tanta atenção? 

Wasfi: Fiquei feliz das pessoas terem uma reação positiva e do entendimento. Fiquei feliz em poder passar minha mensagem através da mídia social. E fiquei feliz em saber que os iraquianos seguem tanto assim as mídias sociais. Já faz bastante tempo que desejo que atos assim tornem-se uma iniciativa global contra a insanidade e o impacto causado pela instabilidade.

Al Jazeera: É assim que você vê essa violência? Como uma insanidade?

Wasfi: No momento, sim. Porque, especialmente nesta parte do mundo, as pessoas têm os recursos, a mão de obra, os bens, o tempo, a geografia, a atmosfera, o clima, o sol, a vitamina D… enfim, tudo. Eles têm razão para viver em paz.