
Nesse grande experimento social – e me julgue quem quiser – chamado BBB, a soberba dos ricos apareceu poucas vezes tão claramente quanto agora, quando Wanessa Camargo e Yasmin Brunet resolveram rechaçar um participante da casa, e pior ainda: convenceram quase todo o elenco a fazer o mesmo.
A perseguição a Davi, participante mais jovem da edição (21 anos), negro, soteropolitano e motorista de aplicativo – um tipo que comumente incomoda e ofende os mais ricos – acabou por isolar o participante do reality: atualmente, apenas uma pessoa em mais de vinte participantes está ao lado dele.
Lembra dos pequenos burgueses que se incomodavam quando pobres viajavam de avião e faziam faculdade? É com isso que se parece o comportamento das duas sisters ao se verem obrigadas a dividir a casa com um pobre.
O nojo de pobre que elas têm – e não fazem questão de esconder – transparece não apenas na perseguição a um participante pobre, mas também na fisionomia de ambas ao olharem para ele. (É difícil descrevê-la, mas, convenhamos: todos sabemos exatamente qual o olhar fulminante lançado da burguesia ao proletariado que tenta ascender socialmente).
Quando o participante vibrou ao receber um cartão presente de cinco mil reais no iFood, por exemplo, elas lançaram a ele um olhar nítido de desprezo: para elas, um cartão de cinco mil é nada. Para ele, motivo de comemoração.
https://twitter.com/Viniciusmg55/status/1752148230622568590
As pessoas mais pobres, quando não vivem em situação miserável, privam-se de luxos como delivery, pagam as contas (quando muito) e vivem no limite. Cinco mil de comida, obviamente, caem muito bem, e isso parece não entrar na cabeça das duas.
Não satisfeita, inclusive, Wanessa Camargo fez, mais uma vez, um comentário infeliz a respeito de Davi: “Eu sinto violência. Eu tenho medo de violência. Pra mim, é muito fácil virar a chave ali. Eu não conheço o Davi. Pra mim, qualquer homem que age dessa maneira eu saio fora. Me dá medo real”.
https://twitter.com/BridGabi/status/1752054917311664605
Imagine uma mulher casada com Dado Dolabella chamar alguém de violento? Logo ele, que bateu em Luana Piovani e faz com Wanessa sabe-se lá o que?
Associar homens negros à violência tem um nome: racismo. O que separa a violência de Davi da violência de Dado? A posição social e a cor da pele, é claro. Wanessa Camargo adota um agressor branco e acusa de violência, sem qualquer razão aparente, um homem negro. Eis o retrato mais fiel da branquitude.
A questão, no entanto, não é o racismo propriamente dito: – afinal, outros participantes negros estão sendo acolhidos. A questão é muito mais o ódio de classes impregnado nas duas burguesinhas, que, além de tudo, são burras pra caramba.
Todo participante perseguido na história do BBB ganhou o reality, desde Kleber Bam Bam, da primeira edição, até Juliette, passando por Jean Willys. Perseguir mais um é entregar o prêmio de bandeja, mas, nesses casos, o ódio fala mais alto do que a racionalidade.
Há quem diga que Davi é chato, e eu concordo plenamente. Mas e daí? Juliette era chata e virou um fenômeno. Por que com ele seria diferente?
O fato é que Davi tem sido o protagonista absoluto do programa, e certamente levará o prêmio, muito merecidamente.
Um motorista de app baiano que só quer vencer pela educação – seu sonho é estudar medicina – e que é socialmente desajeitado, mas de muito bom coração, é orgulho para todo baiano e uma pedra no sapato das patricinhas da edição.
Uma pena que, antes de vê-lo vencer e repetir seu icônico “VOLTEI, PUTA” – uma expressão baiana que não se refere a profissionais do sexo, rs -, tenhamos que vê-lo ser excluído e perseguido por um elenco inteiro. Pode entrar, Davi, novo milionário de Salvador.
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