O real vazador da Lava Jato é quem banca o ‘japonês bonzinho’ ficha suja. Por Kiko Nogueira

Atualizado em 28 de novembro de 2015 às 20:29
Newton "Japonês Bonzinho" Ishii
Newton “Japonês Bonzinho” Ishii

 

A questão não é o japonês, mas quem está por trás dele.

O vazamento da delação de Nestor Cerveró foi motivo de consternação no STF. Um dos suspeitos é o agente da Polícia Federal Newton Hidenori Ishii, alvo de um inquérito para apurar o caso.

Seu depoimento estava marcado para sexta (27), mas foi desmarcado e nenhuma outra data foi aprazada. Antes de qualquer coisa, a superintendência da PF em Curitiba já afirmou que “tem confiança” em seu trabalho e que “a apuração será rápida”.

Ué. O problema, evidentemente, não é a rapidez, mas a necessidade de investigar de maneira correta a história. Começou mal e vai terminar em nada.

Newton Ishii, como toda a equipe de Moro, gosta de aparecer. Está sempre bem posicionado quando as câmeras registram os presos da Lava Jato entrando nos carros, eventualmente com uma mãozinha carinhosa no ombro do cidadão.

A conversa de Delcídio do Amaral com seu chefe de gabinete, o advogado de Cerveró e o filho deste cita seu nome.

DELCÍDIO: Alguém pegou isso aí e deve ter reproduzido. Agora quem fez isso é que a gente não sabe.

EDSON: É o japonês. Se for alguém é o japonês.

DIOGO: É o japonês bonzinho.

DELCÍDIO: O japonês bonzinho?

EDSON: É. Ele vende as informações para as revistas.

BERNARDO: É, é.

DELCÍDIO: É. Aquele cara é o cara da carceragem, ele que controla a carceragem.

BERNARDO: Sim, sim.

(…)

EDSON: Só quem pode tá passando isso, Sérgio Riera.

BERNARDO: Mas eu já cortei…

EDSON: Newton e Youssef.

DELCÍDIO: Quem que é Newton?

BERNARDO: É o japonês.

EDSON: E o Youssef, só os dois. O Sérgio, porque o Sérgio traiu…

BERNARDO: Sim. Ele fez o jogo do MP, assinou. Tá… tá

(…)

EDSON: Quem é que poderia levar isso pro André?

BERNARDO: Eu acho que é carcereiro. O cara dá 50 mil aí pra você.

EDSON: A gente num entende, pô!

BERNARDO: Carcereiro Newton… os caras são muito legais.

 

Em circunstâncias normais, Newton deveria ser afastado. Mas não estamos em circunstâncias normais.

Ele é ficha suja. Membro da corporação desde 1976, foi preso em flagrante em 2003 e reintegrado através de uma decisão judicial. A Operação Sucuri desbaratou uma quadrilha envolvida na facilitação de contrabando em Foz do Iguaçu.

Ishii se aposentou em outubro de 2003, mas, em abril de 2014, a aposentadoria foi revogada e ele retornou à atividade. De acordo com o blog Expresso, da Época, responde a processos criminal e civil, além de uma sindicância. “Ishii goza de confiança da direção”, diz a nota.

Ora, confiança de quem?

Então temos um policial federal acusado de corrupção, respondendo a processo — e que, por uma razão misteriosa, permanece onde está porque é, talvez, acima do bem e do mal?

Como reza aquela velha parábola, jabuti não sobe em árvore. Se está ali, alguém colocou. Com um currículo desses, retornando por ordem judicial, o lugar Newton Ishii seria uma atividade marginal.

Quem o pôs ali na frente? Quem está bancando o “japonês”?

Essa é a pergunta que precisa ser respondida. Esse é o autor dos vazamentos. Alguém cujo nome, aliás, não será revelado porque, como Ishii, também goza de confiança da direção.