
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
A revista The Economist, muitas vezes tratada como a “Bíblia da Economia” por mercados e governos, criticou Bolsonaro e Trump ao dizer, em sua capa, que o Brasil oferece uma lição de maturidade democrática aos Estados Unidos ao levar o ex-presidente a julgamento por tentativa de golpe de Estado. A publicação afirma que o papel de adulto no continente americano agora é do nosso país.
Não só narra a queda de Jair, como a encapsula de forma humilhante em sua capa ao retratá-lo vestido com a cabeça de búfalo e pinturas faciais que remetem diretamente a Jake Angeli-Chansley, o notório “Chifrudão do Capitólio” ou “Xamã QAnon”, que se tornou o rosto da invasão ao Congresso norte-americano em 6 de janeiro de 2021.
A invasão foi incitada por Trump, que havia perdido a reeleição, assim como Bolsonaro fomentou o 8 de janeiro de 2023 após a própria derrota. Nesse sentido, a revista equipara o movimento bolsonarista ao trumpismo em seu aspecto mais perigoso: a capacidade de atropelar as instituições e incitar o caos em nome de seu líder.
Para a Economist, Bolsonaro não é um estadista ou um líder global digno de respeito, mas a versão tropical de um insurgente conspiracionista caricato cujo destino final é a ridicularização e a responsabilização judicial. E, ainda por cima, incompetente.
Diz a revista: “Em 2 de setembro, o julgamento de Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil e o ‘Trump dos trópicos’, começará no Supremo Tribunal Federal. As evidências parecem um flashback do passado turbulento do Brasil. Um ex-general de quatro estrelas conspirou para anular o resultado da eleição; assassinos planejaram assassinar seu verdadeiro vencedor. Como nossa investigação sobre a conspiração explica, o golpe fracassou por incompetência e não por intenção”.

Mas enquanto Jake Angeli foi perdoado por Trump logo que este reassumiu o poder, num ato de desprezo à democracia que libertou mais de 1.500 criminosos da invasão ao Capitólio, Bolsonaro enfrenta o peso da lei brasileira. A Economist diz que ele provavelmente será considerado culpado por um STF que ainda se considera um baluarte contra o autoritarismo. A revista faz alertas sobre o acúmulo de poder da corte e trata dos problemas em nossa economia, mas, ao final, afirma que estamos em uma posição muito melhor do que os EUA.
A capa, portanto, é um duplo golpe. Primeiro, ao colocar a pele de um criminoso perdoado sobre Bolsonaro, a revista o compara diretamente aos invasores do Capitólio. Segundo, lembra que, diferentemente deles, ele não terá escape.
“Bolsonaro e seus associados provavelmente serão considerados culpados. Isso torna o Brasil um caso de teste para como os países se recuperam de uma febre populista”, afirma.
“Os dois países parecem estar trocando de lugar. Os Estados Unidos estão se tornando mais corruptos, protecionistas e autoritários — com Donald Trump esta semana mexendo com o Federal Reserve e ameaçando cidades controladas pelos democratas. Em contraste, mesmo com o governo Trump punindo o Brasil por processar Bolsonaro [o tarifaço de 50% e a lei Magnitsky], o próprio país está determinado a salvaguardar e fortalecer sua democracia”, avalia.
Os EUA que Bolsonaro tanto quis emular agora são retratados como ameaça à democracia liberal, enquanto o Brasil que ele tentou subverter aparece como guardião dela.
E a tentativa de Trump de salvar seu aliado, com tarifas punitivas e sanções ao ministro Alexandre de Moraes, é descrita como um tiro pela culatra, que apenas fortaleceu o governo Lula.
A imagem na capa funciona, no fim, como epitáfio visual do bolsonarismo: um movimento que aspirava ao poder absoluto, mas será lembrado pelo fracasso da insurreição e pelo isolamento judicial de seu líder. Não como um guerreiro, um “mito”, mas como alguém que tentou empurrar o Brasil ao passado e agora enfrenta a condenação da Justiça de um país que decidiu amadurecer.