Da cana às fintechs: o caminho do PCC para lavar dinheiro em fraude

Atualizado em 29 de agosto de 2025 às 8:34
Viaturas da PF e da Receita em frente a prédio na Faria Lima durante megaoperação que investiga fraude do PCC em postos de combustíveis. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

A Operação Carbono Oculto revelou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) montou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro que atravessava toda a cadeia de combustíveis e chegava ao coração do mercado financeiro na Faria Lima, em São Paulo. Com informações do G1.

O circuito incluía desde a produção de cana até fundos de investimento de alto valor, com movimentações que ultrapassaram R$ 30 bilhões, usados para lavar dinheiro, blindar patrimônio e financiar a compra de ativos estratégicos.

Do campo ao combustível adulterado

Segundo as investigações, o esquema começava no campo, com a compra de usinas e fazendas de cana-de-açúcar, muitas vezes em situações suspeitas de coação e até de incêndios criminosos usados como forma de intimidação.

O grupo criminoso passou a controlar unidades sucroalcooleiras, utilizando sobrepreços e operações simuladas para inflar créditos tributários e sonegar impostos.

O metanol, substância importada pelo Porto de Paranaguá (PR) e destinado oficialmente a empresas químicas, era desviado para postos da Grande São Paulo. Ali, era usado para adulterar gasolina em níveis muito acima do limite legal — em alguns casos, chegando a 50%, quando a Agência Nacional de Petróleo (ANP) permite apenas 0,5%. Para dar aparência de legalidade, eram emitidos falsos “tickets de pesagem” e notas fiscais frias de álcool e gasolina.

Transportadoras, distribuidoras e formuladoras como a Copape e a Aster aparecem citadas na investigação por fraude fiscal, contábil e lavagem de dinheiro. Os terminais de armazenamento também eram utilizados para ocultar a origem e o destino do produto adulterado, fortalecendo o disfarce do esquema.

Postos, maquininhas e o dinheiro vivo

A ponta final da fraude ocorria nos postos de combustíveis. Nesses estabelecimentos, a gasolina adulterada era vendida ao consumidor, muitas vezes acompanhada de outras práticas ilegais, como a “bomba baixa”, quando o motorista paga por um valor maior do que realmente recebe, e a “bomba flex”, que mistura álcool e outras substâncias de forma clandestina.

Esses postos eram peças-chave para a lavagem. Muitos recebiam pagamentos em espécie ou por maquininhas de cartão que direcionavam o dinheiro diretamente para as contas da facção.

De acordo com a Receita Federal, em apenas quatro anos, postos ligados ao PCC movimentaram R$ 52 bilhões. Além disso, cerca de 140 estabelecimentos sem atividade real receberam mais de R$ 2 bilhões em notas fiscais simuladas, o que ajudava a mascarar o fluxo de recursos ilícitos.

Até mesmo lojas de conveniência e padarias em nome de laranjas faziam parte da engrenagem criminosa. Essas empresas, criadas e fechadas em curtos períodos de tempo, serviam para dar aparência de normalidade e dificultar o rastreamento das autoridades.

A engrenagem financeira na Faria Lima

O núcleo financeiro do esquema chamava ainda mais atenção. Fintechs funcionavam como “bancos paralelos”, criando um sistema invisível para movimentar os lucros do crime.

O BK Bank foi citado como peça central nesse processo. Entre 2022 e 2023, a instituição registrou mais de 10,9 mil depósitos em dinheiro vivo, totalizando R$ 61 milhões — algo considerado incompatível com a natureza de uma instituição de pagamento.

Essas fintechs operavam chamadas “contas-bolsão”, em que os recursos de todos os clientes eram misturados em uma única conta bancária, apagando a trilha de quem era o verdadeiro dono do dinheiro. Além disso, os mesmos operadores controlavam fintechs menores, criando camadas extras de ocultação.

Segundo a Receita Federal, uma única fintech movimentou R$ 46 bilhões de forma praticamente irrastrável.

Agentes da Receita Federal fizeram buscas e apreensões em endereços na Faria Lima, em São Paulo. Foto: Werther Santana/Estadão

Fundos bilionários e blindagem patrimonial

O passo final do esquema era a blindagem patrimonial por meio de fundos de investimento. A Receita identificou ao menos 40 fundos, com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões, controlados pelo PCC. Muitos deles tinham apenas um cotista, o que facilitava a lavagem de dinheiro e a ocultação de bens.

Com esses recursos, a facção adquiriu quatro usinas de álcool, além de outras duas em processo de compra ou parceria, 1.600 caminhões de transporte, mais de cem imóveis, incluindo seis fazendas no interior de São Paulo avaliadas em R$ 31 milhões, e até uma mansão de R$ 13 milhões em Trancoso, na Bahia.

O tamanho do rombo

As autoridades calculam que o esquema sonegou pelo menos R$ 7,6 bilhões em tributos federais, estaduais e municipais. Só na esfera federal, a perda foi estimada em R$ 4 bilhões, dos quais cerca de R$ 1 bilhão já está inscrito em dívida ativa.

Além da fraude tributária, a força-tarefa aponta crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro, adulteração de combustíveis, crimes ambientais e estelionato.