Ajudadas por fake news de Nikolas, fintechs tornaram Brasil paraíso fiscal de bandidos, diz MP

Atualizado em 29 de agosto de 2025 às 9:30
Agentes da Polícia federal, em conjunto com as receitas federal e estadual fizeram buscas e apreensões em endereços na Faria Lima. Foto: Werther Santana/Estadão

Promotores do Ministério Público de São Paulo (MPSP) afirmam que o Brasil se transformou em um “paraíso fiscal interno” para o crime organizado devido à proliferação de fintechs, fortalecidas por fake news divulgadas pelo deputado Nikolas Ferreira (PL), que oferecem o serviço de “conta bolsão”.

O mecanismo de “conta bolsão” concentra em uma única conta bancária o dinheiro de diversos clientes, dificultando bloqueios judiciais e permitindo que valores ilícitos circulem sem rastreamento.

“Quando você cria um vácuo no Estado, você permite a criação de um paraíso fiscal dentro do Estado brasileiro, esse mecanismo passa todo tipo de dinheiro, de todas as vertentes criminosas”, afirmou o promotor João Paulo Gabriel, do Gaeco.

A percepção foi reforçada pelo secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, que apontou o avanço do crime organizado no sistema financeiro.

“No momento em que as fintechs não têm obrigações de transparência em relação, por exemplo, à Receita Federal, o que tem acontecido? Nós não temos informação de quem é aquele titular do dinheiro. A fintech não tem agência, não é bancária. Como é que o dinheiro entra ali?”, questionou.

Segundo ele, os recursos eram transferidos em cadeia para fundos de investimento, muitas vezes com um único cotista, o que reforçava as camadas de ocultação.

Fake news de Nikolas ajudou o PCC a lavar dinheiro

A fake news divulgada por Nikolas Ferreira ajudou a manter o terreno fértil para o PCC operar. Em janeiro, o deputado bolsonarista publicou um vídeo que ultrapassou 200 milhões de visualizações, afirmando falsamente que uma portaria da Receita Federal criaria uma “taxação do Pix”.

A medida, na realidade, previa apenas o monitoramento de transações digitais acima de R$ 5 mil para pessoas físicas e R$ 15 mil para empresas, justamente para combater lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Pressionado pela onda de desinformação, o governo recuou e revogou a norma.

“Publicamos essa instrução em setembro do ano passado, para valer a partir de janeiro. O que aconteceu em janeiro todos nós sabemos. A Receita Federal recebeu o maior ataque da história dela, de mentiras, de fake news, dizendo mentirosamente que aquela instrução normativa tratava de tributação de meios de pagamento”, disse Barreirinhas.

Segundo o secretário, o recuo abriu espaço para que o crime organizado ampliasse suas operações financeiras. “As operações de hoje mostram quem ganhou com essas mentiras, com essas fake news”, afirmou.

O “banco paralelo” do PCC

As investigações da Operação Carbono Oculto mostraram que o esquema de adulteração de combustíveis operava com apoio da BK Bank, fintech descrita como um verdadeiro “banco paralelo”. A instituição centralizava movimentações de empresas de fachada e recebia depósitos em espécie, algo considerado atípico para o setor.

Entre 2022 e 2023, foram registrados mais de 10,9 mil depósitos em dinheiro vivo, somando R$ 61 milhões. Além da fintech, pelo menos 40 fundos de investimento, com patrimônio superior a R$ 30 bilhões, foram usados para blindar o patrimônio e ocultar a movimentação de recursos ilícitos.