Kits de “fuzis fantasmas” chegam ao Brasil disfarçados e custam R$ 17 mil, aponta PF

Atualizado em 29 de novembro de 2025 às 8:49
Reprodução de um kit de peças de fuzil comprado por suspeitos investigados pela Polícia Federal; itens foram adquiridos diretamente no site da fabricante. Foto: Reprodução/PF

Kits para montar fuzis do tipo AR-15, conhecidos como “fuzis fantasmas”, podem ser comprados por cerca de R$ 17 mil e enviados ao Brasil disfarçados de peças de ferramentas.

A prática, identificada pela Polícia Federal, consiste na compra de partes do armamento em sites dos Estados Unidos e no envio das encomendas em pacotes separados, o que reduz o risco de apreensão. A investigação sobre uma fábrica clandestina em Santa Bárbara d’Oeste (SP) revelou que um dos suspeitos encomendou ao menos seis kits quase completos de armas alemãs da marca HK. As informações são da Folha.

Segundo o inquérito, os envolvidos declaravam que transportavam “ferramentas de perfuração” para mascarar o conteúdo dos pacotes. A FedEx identificou sete remessas suspeitas e notificou a PF. Em nota, a empresa afirmou que “adota uma política de tolerância zero em relação ao uso indevido de seus serviços” e disse investir em tecnologias de “detecção e prevenção de remessas proibidas”. A Receita Federal não respondeu aos questionamentos.

Armas montadas dessa forma se tornam praticamente impossíveis de rastrear. Nos EUA, um dos principais componentes —o receptor inferior semiacabado— pode ser adquirido sem registro ou rastreamento. “O lower 80% não tem necessidade de registro, nem nenhum tipo de rastreamento, é como se você estivesse comprando uma camiseta”, afirmou Bruno Langeani, do Instituto Sou da Paz. Segundo ele, fuzis fantasmas são frequentemente vendidos com numerações falsas para simular origem legítima, enganando até peritos.

Peças de fuzil AR-15 inacabado apreendidas em um depósito pela polícia em Americana (SP); investigação aponta suspeita de envio para facções criminosas no RJ. Foto: Reprodução/PF

O contrabando de peças por serviços postais é registrado no país ao menos desde 2017 e tem crescido, segundo especialistas. Langeani estima que, entre armas de calibres usados por facções, como 5,56 mm e 7,62 mm, “a proporção de fuzis encontrados nessas condições é de no mínimo 40%”. Em alguns casos, as peças traficadas completam armas montadas parcialmente em oficinas clandestinas, o que aumenta o risco de disseminação desse tipo de armamento.

A demanda também cresceu com a expansão do mercado de armas nos anos do governo Jair Bolsonaro, período em que o número de CACs saltou de 117,5 mil para mais de 904 mil. “O tamanho do mercado ligado a armas duplicou”, disse Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ele cita o aumento de instrutores, clubes de tiro, locais de recarga e armeiros. Após mudanças feitas pelo governo Lula, o limite de armas para civis foi reduzido e as exigências para calibres restritos ficaram mais rígidas.

Para especialistas, o país ainda carece de mecanismos eficazes de fiscalização. Langeani defende a implementação de um programa de recompra de armas e a ampliação da rastreabilidade de munições civis. Uchôa reforça que o tema deveria ser prioridade: “Fala-se muito em tráfico de drogas, mas o que subjuga as populações é o fuzil”. Melhorar a capacidade da Receita Federal de detectar peças contrabandeadas é apontado como medida central para conter o avanço dos fuzis fantasmas no país.