
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
A melhor notícia para o governo Lula na semana que passou não foi a sanção da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais. Afinal, o mais difícil já havia sido a aprovação da proposta pelo Congresso.
Também não foi o anúncio de que taxa de desemprego recuou para 5,4%, a menor da série histórica iniciada em 2012. Ou que a renda média subiu 5% neste ano, chegando a R$ 3528. Tampouco foi que a Bolsa de Valores renovou seu recorde, atingindo 159.072 pontos na sexta (28). Também não foram movimentações na esfera criminal.
A melhor notícia para o governo veio com a prévia da inflação, o IPCA-15: o arroz acumulou queda de 24,2% e o feijão preto, de 32%, neste ano.
A força econômica de um governo não depende apenas de indicadores econômicos, pois, como disse a saudosa Maria da Conceição Tavares, o povo não comeria PIB. Isso alimenta outra espécie, os farialimers. Depende da tradução para a vida real do que aparece nas planilhas e tabelas.
Lula vem conseguindo aumentar a renda média dos trabalhadores e reduzir a taxa de desemprego, mas isso pouco adianta se isso não vier com a percepção de melhora na qualidade de vida. Um PIB grande é vistoso, mas é preciso analisar a quem ele traz prazer. Para tanto, o poder de compra do povão é central para a aprovação de um governo. Principalmente, o dos alimentos.

O preço do arroz e do feijão havia subido de forma consistente no ano passado. Em outubro de 2024, o arroz tinha aumentado 24% e o feijão preto, o mais consumido, 5,7%, no acumulado de 12 meses. Lembrando que a comida é um dos principais componentes da inflação dos mais pobres. A queda de 2025 ajuda a diminuir o mau humor pela alta do ano passado.
Discordo das análises que não consideram a percepção sobre o custo de vida como uma das questões centrais para a perda ou o ganho de aprovação do governo Lula e olham só para os grandes índices. Como já disse aqui, Lula conseguiu ser eleito porque uma parte dos eleitores, que não são petistas, nem bolsonaristas, também acreditou em sua promessa de dias (de compras) melhores. Com picanha e cerveja, mas principalmente com arroz e feijão. Para garantir que ele se reeleja ou aponte um sucessor em 2026, os trabalhadores vão ter que perceber isso.
O que passa pelo crivo implacável no caixa do supermercado.
A inflação geral acumulada no último ano é de 4,15%, enquanto a dos alimentos em domicílio foi de 2,02%. A população sentiu um alívio em produtos que consome com frequência, mas ainda espera mais. É ali, diante da gôndola, que se mede a credibilidade das promessas e se decide a disposição de confiar (ou não) em um projeto político.
Se o governo quiser colher dividendos eleitorais em 2026, terá que garantir que indicadores macroeconômicos se convertam, de forma clara e contínua, em comida mais barata na mesa de quem trabalha. A segurança econômica vai continuar sendo a prioridade na eleição.