
Na primeira semana de prisão na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, Jair Bolsonaro recebeu da família uma série de itens para preencher o isolamento determinado pelo ministro Alexandre de Moraes.
Entre eles está o livro “Metanoia — A chave está em sua mente”, entregue por Flávio Bolsonaro na terça-feira, além de revistas de palavras cruzadas e uma televisão que permanece ligada grande parte do dia. O isolamento foi reforçado após o fim do processo que tornou definitiva a pena de 27 anos e três meses, decisão que o ex-presidente soube poucas horas depois de receber o filho mais velho. Bolsonaro chorou ao ser comunicado.
As visitas familiares se tornaram o momento de maior movimentação para Bolsonaro, que permanece em uma sala de 12 m² com cama, mesa, frigobar, ar-condicionado e TV. Michelle Bolsonaro esteve no local no domingo e na quinta-feira; Flávio e Carlos fizeram visita na terça; e Jair Renan, na quinta. Para organizar a rotina, o grupo montou uma estrutura paralela de apoio, que inclui o envio de refeições preparadas pela primeira-dama ou pelo irmão dela, Eduardo Torres, em razão da desconfiança da família sobre a comida fornecida na prisão.
Aliados afirmam que Bolsonaro tenta estabelecer rotina diária com longos períodos diante da televisão, alternando entre telejornais e partidas de futebol. O ex-presidente apresenta oscilações de humor, com momentos mais introspectivos, e mantém hábitos antigos, como as palavras cruzadas, que remetem às cruzadinhas publicadas por ele nos anos 1970 no jornal “Estado de S.Paulo”. O livro de autoajuda entregue pelo filho propõe exercícios de reorganização emocional e pode contar como leitura para remição de pena, conforme a legislação brasileira.

Durante a semana, as crises de soluço que já vinham sendo relatadas se intensificaram, levando a um atendimento médico dentro da cela na quinta-feira. Não houve necessidade de deslocamento a hospital, mas o episódio reacendeu, entre aliados, a defesa pelo retorno à prisão domiciliar. Fora da PF, parlamentares próximos ao ex-presidente enfrentam um cenário político desfavorável para avançar na pauta da anistia no Congresso, considerada por eles a principal bandeira de reação.
A permanência de Bolsonaro na PF foi recebida com alívio por aliados após determinação de Alexandre de Moraes, que descartou transferência para o Complexo Penitenciário da Papuda. O deputado Bibo Nunes (PL-RS) classificou a decisão como “uma faísca de justiça”, citando o estado de saúde do ex-presidente. Desde o primeiro dia, a PF reforçou a segurança na superintendência, instalando película de proteção nos vidros e restringindo o fluxo de servidores para impedir que imagens internas fossem capturadas.
Mesmo sob pressão de aliados como Sóstenes Cavalcante, Carlos Viana e o governador Tarcísio de Freitas, o protocolo de acesso se mantém rígido: apenas familiares, advogados e equipe médica estão autorizados a entrar. Do lado de fora, o grupo político do ex-presidente tenta se reorganizar enquanto acompanha as primeiras semanas do cumprimento da pena e aguarda novas decisões judiciais que possam alterar as condições da detenção.