
Karenna Gore, diretora do Centro de Ética da Terra (CEE, na sigla em inglês), concedeu uma entrevista à Folha de S.Paulo após a COP30 e destacou que o Balanço Ético Global (BEG) não deve ser visto como um evento isolado, com resultados visados em um único momento.
O projeto foi apresentado pelo embaixador André Corrêa do Lago em março, na primeira de uma série de cartas sobre a conferência, e ouviu diversas personalidades sobre os compromissos éticos necessários diante da crise climática. Para Gore, que coliderou o Diálogo da América do Norte, ele atua como um catalisador.
Confira as declarações da diretora, que se dedica à intersecção entre ética, fé e justiça ambiental:
(…) Nos EUA, uma pesquisa mostrou que os cristãos evangélicos estão entre os grupos religiosos com maior probabilidade de expressar ceticismo em relação à crise climática, enquanto os fundamentalistas argumentam que o futuro está nas mãos de Deus. Na sua perspectiva sobre ética e destino, como a negação e a passividade podem ser efetivamente abordadas?
A expressão cristão evangélico é complexa. Existem múltiplas tradições.Precisamos entender quais são os sistemas de crenças das pessoas. Muitas vezes, fala-se de cima para baixo, sem reconhecer as nuances dessas crenças. Se alguém acredita no fim dos tempos, na segunda vinda de Jesus ou no arrebatamento, ainda assim pode haver valores compartilhados dentro dessa conversa.

Um ótimo exemplo disso é o décimo aniversário da “Laudato Si” [encíclica do papa Francisco], celebrada ao longo deste ano. Publicada pouco antes da COP21, ela catalisou debates dentro das comunidades de fé. Quando foi lançada, influenciou o Acordo de Paris, algo reconhecido por diversos chefes de Estado.A linguagem era belíssima, inspiradora e trazia uma crítica cultural profunda, impulsionando outros diálogos espirituais. Outro é o “Al-Mizan: Um Pacto para a Terra”, que reúne estudiosos islâmicos e instituições muçulmanas para reafirmar princípios de proteção da natureza diante dos desafios atuais. Há várias declarações rabínicas ou de diferentes organizações judaicas.
O Parlamento Mundial das Religiões também desempenha um papel importante. Já palestrei lá, em um espaço onde questões de colonização e cristianismo foram abertamente discutidas e onde povos indígenas puderam expressar críticas e participar ativamente.
Quando li a primeira carta da presidência da COP30, achei a ideia excelente. Já admirava a ministra Marina Silva, e saber que a iniciativa era dela me deixou ainda mais entusiasmada.
Procurei a liderança da COP30 para informar que o CEE já trabalhava nessa direção e me coloquei à disposição para contribuir. Fui convidada para ser colíder do diálogo na América do Norte. Fiquei profundamente honrada com o convite.
O BEG é um instrumento importante porque permite trazer elementos de cultura, espiritualidade, ciência, fé, tradições indígenas e diferentes visões de mundo para orientar decisões climáticas. Ele incorporou ao menos três elementos centrais.
O primeiro é um chamado profundo à mudança de consciência sobre a relação humana com a natureza: reconhecer que somos apenas uma entre muitas espécies em um planeta vivo, e que transformar os sistemas que alimentam a crise climática pode também melhorar nossa saúde e bem-estar.
O segundo elemento é reconhecer com clareza os obstáculos, especialmente o papel da indústria fóssil. Há avanços recentes no processo da COP ao finalmente nomear os combustíveis fósseis como problema, mas é preciso reconhecer que o setor atua ativamente para bloquear decisões coletivas, influenciando universidades, instituições filantrópicas, tentando barrar transições para energias renováveis por meio de lobby e campanhas de desinformação.