“Como na escravidão, clima mostra que o que era legal pode ser imoral”, diz Karenna Gore

Atualizado em 30 de novembro de 2025 às 13:48
Karenna Gore em palestra sobre o Balanço Ético Global Realidade Climática
Karenna Gore em palestra sobre o Balanço Ético Global – Divulgação MMA

Karenna Gore, diretora do Centro de Ética da Terra (CEE, na sigla em inglês), concedeu uma entrevista à Folha de S.Paulo após a COP30 e destacou que o Balanço Ético Global (BEG) não deve ser visto como um evento isolado, com resultados visados em um único momento.

O projeto foi apresentado pelo embaixador André Corrêa do Lago em março, na primeira de uma série de cartas sobre a conferência, e ouviu diversas personalidades sobre os compromissos éticos necessários diante da crise climática. Para Gore, que coliderou o Diálogo da América do Norte, ele atua como um catalisador.

Confira as declarações da diretora, que se dedica à intersecção entre ética, fé e justiça ambiental:

(…) Nos EUA, uma pesquisa mostrou que os cristãos evangélicos estão entre os grupos religiosos com maior probabilidade de expressar ceticismo em relação à crise climática, enquanto os fundamentalistas argumentam que o futuro está nas mãos de Deus. Na sua perspectiva sobre ética e destino, como a negação e a passividade podem ser efetivamente abordadas?

A expressão cristão evangélico é complexa. Existem múltiplas tradições.Precisamos entender quais são os sistemas de crenças das pessoas. Muitas vezes, fala-se de cima para baixo, sem reconhecer as nuances dessas crenças. Se alguém acredita no fim dos tempos, na segunda vinda de Jesus ou no arrebatamento, ainda assim pode haver valores compartilhados dentro dessa conversa.

A pergunta é: se essa é a premissa daquela pessoa, quais são os valores centrais que Jesus representava e que deveriam orientar sua ação agora? Em vez de desqualificar ou ridicularizar essas visões, precisamos de mensageiros vindos dessas próprias comunidades, capazes de dialogar a partir de dentro. Caso contrário, perdemos a oportunidade de reconhecer os pontos de convergência e de alinhamento.
Como a senhora entende o que é ética e como o seu centro tem atuado hoje em projetos voltados para a crise climática?

A ética da Terra não é uma ciência exata, mas um exercício de discernimento sobre como vivemos em relação ao planeta vivo. Historicamente, a ética se torna mais poderosa quando leis e normas sociais entram em conflito com um senso moral mais profundo, como no caso da escravidão, que era legal e socialmente aceita, mas passou a ser percebida como moralmente inaceitável. Esse processo de mudança também é necessário agora diante da crise climática, já que grande parte do que causa o problema é legal e até incentivado.
Por isso, precisamos recorrer a valores mais profundos. A crise climática revela um conflito fundamental: nosso sistema econômico destrói a base da vida, e precisamos redefinir o que entendemos como sucesso, progresso e riqueza, porque hoje esses valores estão em desacordo com o que sustenta a vida.
Karenna Gore falando e olhando para o lado
Karenna Gore – Reprodução
Como iniciativas inter-religiosas ou baseadas em valores influenciam a agenda climática e fortalecem o debate público?

Um ótimo exemplo disso é o décimo aniversário da “Laudato Si” [encíclica do papa Francisco], celebrada ao longo deste ano. Publicada pouco antes da COP21, ela catalisou debates dentro das comunidades de fé. Quando foi lançada, influenciou o Acordo de Paris, algo reconhecido por diversos chefes de Estado.A linguagem era belíssima, inspiradora e trazia uma crítica cultural profunda, impulsionando outros diálogos espirituais. Outro é o “Al-Mizan: Um Pacto para a Terra”, que reúne estudiosos islâmicos e instituições muçulmanas para reafirmar princípios de proteção da natureza diante dos desafios atuais. Há várias declarações rabínicas ou de diferentes organizações judaicas.

O Parlamento Mundial das Religiões também desempenha um papel importante. Já palestrei lá, em um espaço onde questões de colonização e cristianismo foram abertamente discutidas e onde povos indígenas puderam expressar críticas e participar ativamente.

Esses diálogos inter-religiosos com povos indígenas são particularmente poderosos. Estamos atravessando um momento bastante difícil nos Estados Unidos, para dizer o mínimo. Ainda assim, vale destacar que, na administração anterior, foi aprovada uma legislação importante, a Lei de Redução da Inflação, que incluiu diversas disposições relacionadas ao clima, influenciadas, ao menos em parte, pela atuação de grupos inter-religiosos. […]
Como a senhora se envolveu com o BEG e qual foi seu papel no processo?

Quando li a primeira carta da presidência da COP30, achei a ideia excelente. Já admirava a ministra Marina Silva, e saber que a iniciativa era dela me deixou ainda mais entusiasmada.

Procurei a liderança da COP30 para informar que o CEE já trabalhava nessa direção e me coloquei à disposição para contribuir. Fui convidada para ser colíder do diálogo na América do Norte. Fiquei profundamente honrada com o convite.

Embora os diálogos oficiais tenham sido encerrados, eles não terminaram de fato, trata-se de um processo em permanente construção.
Quais são os principais elementos do BEG e como eles influenciam as negociações climáticas?

O BEG é um instrumento importante porque permite trazer elementos de cultura, espiritualidade, ciência, fé, tradições indígenas e diferentes visões de mundo para orientar decisões climáticas. Ele incorporou ao menos três elementos centrais.

O primeiro é um chamado profundo à mudança de consciência sobre a relação humana com a natureza: reconhecer que somos apenas uma entre muitas espécies em um planeta vivo, e que transformar os sistemas que alimentam a crise climática pode também melhorar nossa saúde e bem-estar.

O segundo elemento é reconhecer com clareza os obstáculos, especialmente o papel da indústria fóssil. Há avanços recentes no processo da COP ao finalmente nomear os combustíveis fósseis como problema, mas é preciso reconhecer que o setor atua ativamente para bloquear decisões coletivas, influenciando universidades, instituições filantrópicas, tentando barrar transições para energias renováveis por meio de lobby e campanhas de desinformação.

O terceiro é a necessidade de mudar a forma como se comunica a crise climática, incorporando mais narrativas, música, humor e histórias que conectem com as pessoas de maneira humana e direta. Esses três elementos —consciência, lucidez sobre os obstáculos e novas formas de comunicação— ajudam a moldar o que o BEG pode acrescentar à agenda de ação climática.
Jessica Alexandrino
Jessica Alexandrino é jornalista e trabalha no DCM desde 2022. Sempre gostou muito de escrever e decidiu que profissão queria seguir antes mesmo de ingressar no Ensino Médio. Tem passagens por outros portais de notícias e emissoras de TV, mas nas horas vagas gosta de viajar, assistir novelas e jogar tênis.