O pacto que iludiu o clã e ajudou a levar Bolsonaro para a cadeia. Por Moisés Mendes

Atualizado em 30 de novembro de 2025 às 12:53
Jair Bolsonaro em prisão domiciliar, de braços cruzados, de roupa branca
Jair Bolsonaro em prisão domiciliar – Reprodução

A família Bolsonaro tinha um acordo de pai e filhos, fechado antes da eleição de 2018, que foi assim resumido por Eduardo em entrevista ao Globo:

“A gente fez um pacto. A gente não vai para a cadeia. A gente não vai cair na mão do Sergio Moro nem da Lava-Jato”.

Mais adiante, Eduardo assegurou: “Se o partido colocar a faca no pescoço, o partido tal vota se tiver o ministério tal. Sinto muito, mas não vai ter”.

O que aconteceu é que Bolsonaro não caiu na mão de Sergio Moro, mas que Moro virou empregado de Bolsonaro. E que no fim o centrão pôs a faca no pescoço de Bolsonaro.

Moro brigou e fez as pazes com Bolsonaro, agora Valdemar usa a faca contra Lula, Eduardo fugiu para os Estados Unidos e Bolsonaro está preso.

O pacto era furado, como a entrevista toda de Eduardo, marcada por excesso de empáfia, ideias rasas sobre poder e, principalmente, pelo sentimento antecipado de que a família seria blindada.

A entrevista foi publicada no dia 1º de novembro de 2018, dois dias depois da eleição de Bolsonaro. O Globo saiu atrás do deputado filho do eleito, deixando claro que ali estava um poderoso porta-voz da família.

A Globo tinha certeza de que poderia se aproximar dos Bolsonaros adoradores de ditadores e torturadores. Foi esnobada por eles, tentou sugerir que faria reportagens investigativas sobre os rolos de pais e filhos e as atitudes deles no governo, mas vacilou e foi covarde.

Os Bolsonaros tinham certeza de que ficariam para sempre no Planalto, até chegarem à geração dos netos do chefão. O governo, disse Eduardo, seria reformista e sustentado pelas bancadas temáticas, e ele até citou as facções do boi e da bala.

Disse que se aconselharia com Onyx Lorenzoni, o futuro chefe da Casa Civil e depois uma das figuras mais fortes e fiéis do governo. Que pedia desculpas por ter dito um dia que um soldado e um cabo, sem jipe, fechariam o Supremo. E que o pai iria maneirar na retórica quando tomasse posse, porque falaria “em tom de união”.

Com o fim do governo, Onyx foi abandonado pelo político medíocre que ele incentivou a ser candidato em 2018. Não há mais nada na turma de Bolsonaro e da extrema direita.

Onyx foi jogado num canto e depois expurgado do PL gaúcho pelo grupo do Coronel Zucco e, para sobreviver como político, filiou-se ao PP. Não anunciou até agora nada sobre o cargo que disputará em 2026.

No governo, o Bolsonaro moderado nunca existiu, e o pedido de desculpas de Eduardo pelas declarações golpistas contra o Supremo nunca valeu nada.

O filho do pacto foi para os Estados Unidos para atacar Alexandre de Moraes, Bolsonaro conversa com a tornozeleira e a família só é notícia pelas atitudes esdrúxulas e desesperadas dos perdedores.

O episódio mais recente a ganhar destaque foi provocado pelo caçula Jair Renan, que levou revistinhas de caça-palavras para o pai na cadeia.

Estamos diante de um final ainda em elaboração para todos os personagens de 2018. Sabendo que o pacto da família quase deu certo, pela leniência do sistema de Justiça, pelo acovardamento da grande imprensa e pelos conluios deles todos com o Congresso e os militares.

O pai foi o primeiro engolido pelo fracasso do pacto e está preso como chefe de uma organização criminosa por culpa também da incompetência e da arrogância dos filhos. Eles se achavam inalcançáveis.

O exaltado pacto de 2018, em meio à euforia da vitória, enganou os Bolsonaros com a ilusão de que, por serem assumidamente fascistas, seriam criminosos invencíveis.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/