
O adiamento da assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia ocorreu após pressões políticas internas no bloco europeu, lideradas por França e Itália, que passaram a exigir mais garantias para seus setores agrícolas. A mudança de posição frustrou a expectativa de que o tratado, negociado há quase 25 anos, fosse finalmente fechado neste sábado (20).
A Comissão Europeia planejava selar o pacto que criaria a maior zona de livre comércio do mundo, mas o cenário mudou quando a Itália se alinhou à França para defender um adiamento. O objetivo é buscar maior proteção aos agricultores europeus, especialmente diante da concorrência de produtos do Mercosul. Com isso, a conclusão do processo foi empurrada para janeiro.
“Entramos em contato com nossos parceiros do Mercosul e concordamos em adiar ligeiramente a assinatura”, afirmou Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, acrescentando que estava “confiante” de que há maioria suficiente para concluir o acordo.
Resistência aberta de Macron
O principal foco de resistência segue sendo a França. O presidente Emmanuel Macron afirmou que o país não apoiará o acordo sem novas salvaguardas para os agricultores franceses.
“Quero dizer aos nossos agricultores, que expressam a posição francesa desde o início, que consideramos que as contas não fecham e que este acordo não pode ser assinado”, declarou antes de uma reunião de cúpula da União Europeia.
Macron também antecipou que a França se oporá a qualquer “tentativa de forçar” a adoção do pacto. Entre agricultores franceses, o tratado é visto como uma ameaça, diante do receio de concorrência com produtos latino-americanos mais baratos e produzidos sob padrões ambientais diferentes dos europeus.
Mercosur : le compte n’y est pas.
La France ne fléchira pas.
L’Europe doit protéger ses agriculteurs et l’alimentation de nos concitoyens. pic.twitter.com/WOd5M10nAa— Emmanuel Macron (@EmmanuelMacron) December 18, 2025
Itália mantém incerteza
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, também afirmou que o país pode apoiar o acordo, desde que as preocupações dos agricultores italianos sejam atendidas.
“O governo italiano está pronto para assinar o acordo assim que forem dadas as respostas necessárias aos agricultores, o que depende das decisões da Comissão Europeia e pode ser resolvido rapidamente”, declarou.
Apoio de Alemanha, Espanha e países nórdicos
Enquanto a França resiste, Alemanha e Espanha defendem o avanço do acordo firmado politicamente no ano passado com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. O chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou que o tratado é estratégico para a União Europeia.
“Se a União Europeia quiser manter credibilidade na política comercial global, decisões precisam ser tomadas agora”, disse.
Países nórdicos também apoiam o pacto, avaliando que ele pode compensar os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos europeus e reduzir a dependência da China, ampliando o acesso a minerais e novos mercados.
Lula diz que premiê da Itália pediu tempo para aprovar acordo
Pouco antes, o presidente Lula (PT) disse ter conversado por telefone com Meloni. Segundo ele, a premiê relatou enfrentar um “constrangimento político” devido à pressão do setor agrícola, mas demonstrou confiança em obter apoio interno.
“Ainda assim, [ela] afirmou estar confiante de que conseguirá convencê-los a aceitar o tratado”, declarou o presidente petista em entrevista coletiva em Brasília.
E completou: “E ela então me pediu, se a gente tiver paciência de uma semana, de dez dias, de no máximo um mês, a Itália estará junto com o acordo. Eu disse para ela que vou colocar o que ela me falou na reunião do Mercosul e vou propor aos companheiros decidir o que querem fazer.”
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Como funciona a aprovação do acordo
A autorização do acordo passa pelo Conselho Europeu, responsável por permitir que a Comissão Europeia ratifique formalmente o tratado. Nessa etapa, é exigida maioria qualificada: o apoio de pelo menos 15 dos 27 países do bloco, que representem 65% da população da União Europeia.
É nesse ponto que se concentra o principal risco político para o avanço do acordo. Embora a resistência esteja focada no agronegócio, o tratado vai além do comércio agrícola e inclui indústria, serviços, investimentos, propriedade intelectual e insumos produtivos, o que explica o apoio de diversos setores econômicos europeus.
A expectativa inicial era de que, com o aval do Conselho, Ursula von der Leyen viajasse ao Brasil para ratificar o acordo ainda neste ano, o que agora não deve ocorrer.