
Acreditem: existiu um dia uma direita cordial e respeitosa, que contribuiu para avanços relevantes, incluindo a luta pela volta da democracia. Era uma direita que te cumprimentava na rua, alcançava uma xícara de açúcar para o vizinho de esquerda, sabendo quem ele era, e permitia a convivência de parentes, pais e filhos com adversários políticos.
Essa direita existiu durante a ditadura. Os interioranos conheceram melhor essa realidade do que os moradores das capitais. O interiorano convivia com a política no seu cotidiano, em todas as relações, com a própria família, colegas de trabalho, vizinhança, seus médicos, com o dono do armazém, o dentista, o professor.
Todos eram próximos e conhecidos. E todos ofereciam pistas do que eram. Quantos daquele tempo estariam hoje próximos do que é o fascismo disseminado na velha direita quase sequestrada pelo bolsonarismo?
Na vida cotidiana, a direita não tinha a ferocidade e o ódio de hoje. As estruturas da ditadura perseguiram, torturaram, cassaram políticos, professores, religiosos, sindicalistas, militares, estudantes. E mataram mais de 400 brasileiros.
Mas a base que sustentava a ditadura não era necessariamente fascista. Não tinha lastro nem densidade ideológica identificados com algo próximo do que é o bolsonarismo hoje. Não era majoritária e eticamente reprovável em questões de costumes, racismo, xenofobia, homofobia. Nunca foi abertamente armamentista, com as exceções de sempre.
Sentir saudade da velha direita não é romantizar um tempo de violências e liberdades amordaçadas. É sentir falta das nuances das bases sociais e eleitorais dentro de um partido único que deveria representá-las.
A Arena não era uma, era várias. Existiam muitas direitas, incluindo a extremista e permanentemente golpista, todas dentro da Arena. Os eleitores pró-ditadura eram de direitas variadas.
Assim como existiam várias esquerdas, inclusive as clandestinas e as reacionárias, dentro do MDB. Uma eleição dividia os dois partidos em vários, com sublegendas que expressavam suas forças locais, por estarem organicamente fracionadas e mais ou menos à direita ou à esquerda.
As cidades tinham, nessas sublegendas de apenas dois partidos, agrupamentos que configuravam até três Arenas ou três MDBs, em rachas provocados pelas disputas internas de mando e poder.
Mas só o interiorano, esse sábio, viveu tudo isso de perto e pôde entender como uma cidade se dividia em várias porções de direita e esquerda.
Só o interiorano sabe que, durante a ditadura, uma cidade tinha ativistas da Arena que deveriam estar no MDB e vice-versa. Porque assim é a vida imperfeita também na política e também nas ditaduras.
A Arena de Alegrete dos anos 70 teve um Joaquim Milano, advogado e deputado. A direita de Livramento poderia dispor de um Guilherme Bassedas, prefeito interventor da primeira década do regime, indicado pelos ditadores.

Bento Gonçalves teve Darcy Pozza, deputado e prefeito. Ijuí teve Claude Wondracek, jornalista e vereador, líder de uma dissidência da Arena.
Dercy Furtado, a primeira mulher vereadora de Porto Alegre, era dessa turma. Uma professora e historiadora era a expressão feminina da direita. Hoje, a líder do ultraconservadorismo na Câmara da capital gaúcha é a Comandante Nádia, uma armamentista fardada.
Conheci todos os citados daquele tempo de outras direitas. Não me baseio em fontes anônimas. Todos eram políticos municipais ou estaduais, todos da Arena. Não eram figuras raras como políticos cordiais.
Expressavam um conservadorismo muitas vezes anticomunista e quase sempre antibrizolista. Mas sem que suas posições inviabilizassem a convivência com os contrários.
Todos os citados dessa velha direita, se pudessem presenciar o que acontece hoje, não entenderiam o que se passa. Por serem majoritários, como figuras tolerantes, num contexto de 20 anos de anormalidade política.
Se tivessem desembarcado durante a pandemia, é possível que não entendessem o envolvimento de antigos parceiros da velha Arena ou seus descendentes na guerra contra a vacina.
Se conseguissem se misturassem a uma roda de conversa da direita no Rio Grande do Sul ou em qualquer cidade brasileira, Milano, Dercy, Bassedas, Pozza e Wondracek seriam vistos com estranheza e não conseguiriam entender os que tentassem explicar as tentativas de contato com marcianos golpistas. Eram de direita, mas não eram fascistas negacionistas.
O Brasil se fascistou porque os descendentes da velha direita sucumbiram aos apelos e às demandas da extrema direita. O anticomunismo foi trocado por outras obsessões.
Exacerbaram-se sentimentos que nem a ditadura explicitou como ocorre hoje. O conservadorismo paroquial passou a abrigar toda forma de preconceito, raiva, alienação, ressentimento e vingança.
Sentir falta da velha direita não é romantizar um passado sombrio. É aceitar a compreensão de realidades pelo distanciamento do tempo. A fúria do regime era exercida pela repressão do aparelho de Estado, não pela representação política.
Os senadores da Arena eram Petrônio Portela (foto), Jorge Bornhausen, Dinarte Mariz, Nilo Coelho, Octavio Cardoso, Mauro Benevides, alguns deles biônicos, indicados (e não eleitos) pelos ditadores. Não havia no Senado similares de Damares Alves, Cleitinho, Magno Malta, Marcos Rogério, Flavio Bolsonaro, Jorge Seif, Marcos do Val.
Os senadores gaúchos da Arena eram Tarso Dutra e Daniel Krieger. Hoje, a direita é representada por Luis Carlos Heinze e Hamilton Mourão. Em Santa Catarina, Esperidião Amin, da velha Arena, virou líder da extrema direita.
Sobraram, no Interior, poucos com a índole da velha direita e por isso são insuficientes como contrapontos à maioria conectada com as práticas do fascismo. Muitos sentem, sem demonstrar, saudade dessa velha direita, diante da ameaça real de crescimento do extremismo.
Não há como sentir saudade da ditadura, da repressão e da morte, mas é preciso lembrar sempre do surpreendente suporte de bases sociais e políticas da direita que um dia foram até cordiais. Há coisas que só os interioranos entendem.
Publicado originalmente em Extra Classe