Ruy Ferraz preparava dossiê sobre fraudes em 11 licitações antes de ser morto

Atualizado em 2 de janeiro de 2026 às 21:56
registro de cena de crime em montagem com foto de ex-delegado geral Ruy Ferraz Fontes
O ex-delegado geral Ruy Ferraz Fontes – Reprodução

Em depoimento à Polícia Civil, uma servidora da Prefeitura de Praia Grande relatou que o ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes, então secretário de Administração do município, ficou “indignado” após conversa com o prefeito Alberto Mourão (MDB). Com informações do Metrópoles.

O encontro ocorreu dias antes de sua morte e teve como tema uma licitação que, segundo relatos, teria apresentado irregularidades e beneficiado a empresa de monitoramento Peltier, contratada por R$ 14 milhões após pregão eletrônico.

No processo licitatório, três empresas que apresentaram as melhores ofertas foram desclassificadas por critérios técnicos. Com isso, a Peltier, que estava na quarta colocação, assumiu a posição de vencedora. A servidora afirmou que Ruy Ferraz levou o tema diretamente ao prefeito e que Alberto Mourão teria determinado a manutenção do resultado.

O ex-delegado preparava um dossiê sobre possíveis fraudes em licitações e citou ao menos 11 certames que, segundo ele, teriam favorecido a mesma empresa, mencionando ainda que servidores estariam “ricos, vivendo em apartamento de luxo”.

Três servidores mencionados no rascunho do dossiê foram alvos de operação realizada em 3 de outubro. Entre eles está Sandro Rogério Pardini, subsecretário de Gestão e Tecnologia, apontado como um dos responsáveis pela licitação.

A investigação também registrou que representantes das empresas desclassificadas foram à prefeitura questionar o resultado do pregão e participaram de reunião no gabinete de Ruy Ferraz. O encontro teria sido intermediado por Fábio Glerean, genro do prefeito, e contou com a presença de Pardini e de outros servidores.

Segundo depoimentos colhidos, Pardini teria chamado o secretário de Governo, Cássio Navarro, também genro do prefeito, para confirmar as desclassificações. Em novo depoimento no dia 28 de novembro, a servidora Ana Paula Lisboa, há 38 anos na prefeitura, afirmou que Ruy Ferraz ficou “muito irritado” e decidiu relatar diretamente ao prefeito o que havia sido informado sobre o pregão. De acordo com o relato, o resultado foi mantido, assegurando o contrato à Peltier.

Os autos apontam que as desclassificações ocorreram por diferentes motivos técnicos. A empresa Avenue, primeira colocada, teria ofertado modelo de câmera sem lente varifocal, conforme parecer. A segunda colocada, Alerta, apresentou equipamentos em aço carbono, enquanto o edital exigia inox, segundo o mesmo documento.

Já a terceira, New Line, teria apresentado catalogação incompleta de equipamentos, o que, de acordo com o parecer, impossibilitaria a verificação do atendimento às exigências. Diante disso, a Peltier venceu o lote.

Paralelamente à discussão sobre as licitações, o Ministério Público de São Paulo apresentou denúncia contra oito suspeitos de envolvimento na morte de Ruy Ferraz e atribuiu o homicídio ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Os promotores indicaram que a motivação estaria ligada à atuação do ex-delegado na Polícia Civil.

Um dos promotores afirmou que não vê, até o momento, prova de relação entre o assassinato e possíveis irregularidades em licitações municipais e disse que o planejamento do crime teria começado em março deste ano.

A suposta ligação com o PCC foi apontada a partir de um “salve” de 2019 e de depoimentos de investigados. Um deles, Marcos Augusto Rodrigues Cardoso, citado como “recrutador”, declarou inicialmente ser “disciplina” da facção na região do Grajaú, zona sul de São Paulo, e depois negou a afirmação em novo depoimento. Para o Ministério Público, os elementos colhidos indicam participação de integrantes ligados à facção.

A denúncia não individualiza quem teria sido o mandante. O documento descreve suspeitos por apoio logístico, uso de imóveis e veículos, além de indícios como digitais e vestígios biológicos. Entre os citados estão Felipe Avelino da Silva e Flávio Henrique Ferreira de Souza, com digitais em veículo usado no crime. Umberto Alberto Gomes foi identificado por material genético e morreu em 30 de setembro em Curitiba, em ação policial.

Outro investigado, Luiz Antônio Rodrigues de Miranda, o Gão, foi apontado como motorista e responsável por transportar arma após o crime. Também foram denunciados proprietários de residências usadas pelo grupo.

Jessica Alexandrino
Jessica Alexandrino é jornalista e trabalha no DCM desde 2022. Sempre gostou muito de escrever e decidiu que profissão queria seguir antes mesmo de ingressar no Ensino Médio. Tem passagens por outros portais de notícias e emissoras de TV, mas nas horas vagas gosta de viajar, assistir novelas e jogar tênis.