A razão milionária da campanha da Globo contra Moraes

Atualizado em 4 de janeiro de 2026 às 13:04
Os irmãos Marinho: José Roberto, Roberto Irineu e João Roberto – donos do Grupo Globo. Reprodução

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que validou a constitucionalidade da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) sobre remessas ao exterior, no julgamento do Tema 914 de Repercussão Geral, consolidou um entendimento que transcende a técnica tributária.

Ao reafirmar a natureza “finalística” do tributo, a Corte impôs uma derrota financeira bilionária ao setor privado, com impacto direto nas contas do Grupo Globo. O acórdão, redigido pelo Ministro Flávio Dino, é agora apontado como o marco zero de uma nova fase de tensões editoriais entre o conglomerado de mídia e integrantes da cúpula do Judiciário.

O julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 928.943, encerrado em 13 de agosto de 2025, fixou uma tese ampla que surpreendeu contribuintes que buscavam restringir a cobrança apenas a contratos de transferência de tecnologia.

Prevaleceu o entendimento de que a CIDE-Remessas é um tributo de natureza extrafiscal, cuja validade decorre não do fato gerador em si, mas da finalidade constitucionalmente legítima: o financiamento do desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro.

No acórdão, o Ministro Flávio Dino destacou que as contribuições de intervenção no domínio econômico não exigem “referibilidade direta” ou contraprestação em favor do contribuinte. Diferente das taxas, a CIDE não depende de um benefício individualizado. Segundo o texto, basta que os recursos sejam destinados à finalidade legal que justifica a intervenção estatal.

“É desnecessária a existência de benefício direto em favor dos respectivos contribuintes. A contribuição de intervenção no domínio econômico caracteriza-se pelo aspecto finalístico e não pelo elemento material (fato gerador).” — Trecho do Acórdão, Redator Min. Flávio Dino.

Flavio Dino e Alexandre de Moraes. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil.

O placar e a divisão da Corte

A votação (6 a 5) evidenciou uma divisão profunda no STF. Enquanto o relator original, Ministro Luiz Fux, defendia uma incidência restrita a contratos de tecnologia, a divergência aberta por Flávio Dino atraiu a maioria, consolidando a cobrança sobre royalties, serviços técnicos e assistência administrativa de qualquer natureza.

Ministro Voto Posição
Flávio Dino Divergência Redator do Acórdão – Constitucionalidade Ampla
Cristiano Zanin Acompanha Dino Constitucionalidade Ampla
Alexandre de Moraes Acompanha Dino Constitucionalidade Ampla
Gilmar Mendes Acompanha Dino Constitucionalidade Ampla
Edson Fachin Acompanha Dino Constitucionalidade Ampla
Luís Roberto Barroso Acompanha Dino Constitucionalidade Ampla
Luiz Fux Relator Vencido Incidência Restrita (Somente tecnologia)
Dias Toffoli Vencido Incidência Restrita (Acompanhou o relator)
Cármen Lúcia Vencida Incidência Restrita (Acompanhou o relator)
André Mendonça Vencido Incidência Restrita (Acompanhou o relator)
Nunes Marques Vencido Terceira Via (Referibilidade Mínima)

Impacto financeiro: O “custo Globo” das remessas

Para o Grupo Globo, a manutenção da alíquota de 10% sobre remessas ao exterior representa um ônus severo. A empresa é uma das maiores remetentes de divisas para o pagamento de direitos autorais e licenciamento de conteúdos internacionais (como filmes, séries e eventos esportivos).

Com a decisão do STF, esses pagamentos continuam sujeitos à CIDE, mesmo que não envolvam transferência formal de tecnologia.

Estimativas indicam que a decisão evitou uma perda de R$ 19,6 bilhões para a União, valor que, em grande parte, seria recuperado por grandes empresas como a Globo caso a tese da inconstitucionalidade tivesse prosperado.

A impossibilidade de deduzir a CIDE como despesa operacional para fins de IRPJ (Imposto de Renda Pessoa Jurídica) e CSLL (Constribuição Sobre Lucro Liquido) agrava o impacto, reduzindo diretamente o lucro líquido e a capacidade de investimento do grupo em novas aquisições internacionais.

Repercussão editorial e o cerco aos ministros

A derrota financeira é apontada como o pano de fundo para a mudança na postura editorial do Grupo Globo. Recentemente, veículos como O Globo e G1, além de colunistas influentes, intensificaram críticas a Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Embora Toffoli tenha votado a favor da tese que beneficiaria a empresa na CIDE, ele foi tragado pela ofensiva editorial no contexto do Caso Banco Master, onde a Globo se posicionou criticamente à sua atuação e à de Moraes.

O “próximo alvo” identificado seria justamente o Ministro Flávio Dino. Além de ter sido o redator do acórdão que selou a derrota tributária da Globo, Dino tem adotado uma postura de confronto com interesses econômicos e políticos em outras frentes, como o controle rigoroso de emendas parlamentares e a suspensão de investigações sobre a moratória da soja.

A narrativa construída sugere que a Globo utiliza seu poder midiático para pressionar ministros cujas decisões judiciais impactam negativamente seu balanço financeiro ou contrariam seus aliados no setor bancário (como o BTG Pactual).

Originalmente publicado no Diário da Guanabara