
Divulgada pelo próprio presidente dos Estados Unidos, a primeira imagem de Nicolás Maduro após seu sequestro tornou-se um elemento central da ofensiva política e simbólica conduzida por Washington contra o governo venezuelano. A fotografia, publicada por Donald Trump na rede Truth Social poucas horas depois da operação militar realizada no sábado (3), passou a ser analisada por especialistas como um retrato cuidadosamente construído do tipo de ação empregada e da mensagem que os Estados Unidos buscaram transmitir ao mundo.
O registro veio a público no momento em que a então vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, exigia uma prova de vida após a detenção de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
Até agora, as informações confirmadas indicam que o casal foi preso durante a madrugada no Forte Tiuna, complexo militar localizado no sudoeste de Caracas. Em seguida, ambos foram transportados de helicóptero até o navio de guerra USS Iwo Jima e levados — via Cuba — a Nova York, onde enfrentarão a Justiça estadunidense.
Maduro e Cilia Flores responderão a acusações de conspiração para o narcoterrorismo, conspiração para introduzir cocaína nos Estados Unidos e outros crimes relacionados ao uso e posse de armas.
A forma como o presidente venezuelano aparece na imagem, no entanto, despertou atenção especial. Vestindo roupas esportivas, com as mãos aparentemente algemadas, visão e audição bloqueadas e segurando uma garrafa de água, Maduro surge em uma cena que, segundo analistas ouvidos pela BBC Mundo, segue protocolos clássicos de operações de captura.
Para Mark Cancian, coronel reformado do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e assessor sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), a imagem indica que Washington enquadrou a ação como uma operação de aplicação da lei.
“O governo tratou essa detenção como uma questão de aplicação da lei, e não como uma operação militar, por isso Maduro foi tratado como um detido”, afirmou.
Segundo ele, isso se reflete tanto no discurso oficial quanto nos procedimentos adotados. “Isso se reflete primeiro na retórica e também no tratamento: ele é capturado, transferido para centros de detenção, e se aplicam a ele todos os procedimentos que seriam aplicados a qualquer preso acusado de um crime”.

O bloqueio dos sentidos, visível na fotografia, também segue padrões conhecidos. John Spencer, especialista em operações militares e guerra urbana e presidente de Estudos de Guerra Urbana do Modern War Institute, em West Point, explica que se trata de uma prática comum.
“Tratam-se de técnicas de detenção comuns em apreensões militares, que servem tanto para silenciar ou isolar o detido e impedir que ele se comunique com outros quanto para proteger a segurança da missão, evitando que o detido conheça os métodos, o pessoal, os locais e as capacidades empregadas durante a operação”.
Matthew Savill, diretor de Ciências Militares do Royal United Services Institute (RUSI), no Reino Unido, avalia que os protocolos adotados reduzem riscos operacionais. “O mais provável é que isso seja feito para que ele esteja mais subjugado e tenha menos chances de escapar, além de dificultar que consiga identificar qualquer um dos integrantes da equipe da Força Delta envolvidos em sua captura”, disse.
Alguns especialistas ponderam, no entanto, que o uso de fones de ouvido pode ter sido exigido apenas pelo deslocamento de helicóptero até o USS Iwo Jima, onde esse tipo de proteção é obrigatório.
Outro detalhe observado é a garrafa de água nas mãos de Maduro. Para Cancian, trata-se de um cuidado padrão. “Eu considero isso uma medida habitual de saúde e segurança para detidos; eles precisam de água. Acho que é algo bastante padrão”.
Já o objeto ao redor do pescoço foi identificado como um colete salva-vidas inflável, equipamento comum em aeronaves e operações navais, com inflagem manual e cilindros de CO₂. Etiquetas luminosas visíveis na imagem também indicam protocolos de identificação em deslocamentos noturnos no convés.
A fotografia sugere ainda que Maduro foi surpreendido pela ação. As roupas esportivas e a postura reforçam a versão apresentada por Donald Trump, segundo a qual o presidente venezuelano tentava se trancar em uma sala segura no Forte Tiuna quando foi capturado.
“Ele estava tentando chegar a um lugar seguro, que não era seguro, porque teríamos explodido a porta em cerca de 47 segundos”, afirmou Trump. “Ele chegou até a porta. Não conseguiu fechá-la. Foi imobilizado tão rapidamente que nem chegou a entrar naquele cômodo”.