
Se fosse possível juntar tudo o que já se disse sobre o sequestro de Nicolás Maduro, teríamos pelo menos uma centena de teorias sobre o que aconteceu e previsões sobre o que vai acontecer.
Temos desde a conclusão mais óbvia e repetitiva, de que Trump quer o petróleo da Venezuela (até porque ele admitiu isso publicamente), até a advertência de que o Brasil é o grande alvo, ao lado de alvos de passagem, como Cuba e Colômbia.
Quase todo o resto é chute. O primeiro deles diz respeito ao papel da vice-presidente, Delcy Rodríguez, que já assumiu a presidência e avisou que irá defender os interesses da Venezuela.
Essa é a sua frase mais publicada pelos jornais venezuelanos, mesmo os alinhados com a direita antichavista: “Jamais seremos colônia de nenhum império”.
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— Pao Dragnic (@PaolaDragnic) January 3, 2026
Delcy foi anunciada, na coletiva de Trump logo após o sequestro, como a pessoa de confiança dos Estados Unidos para fazer a transição, sem que tenha ficado claro o que isso significa.
Pode ser a ocupação provisória do governo até a convocação de eleições. Só que, se convocar eleições, como está previsto na Constituição, Delcy será vista como traidora do chavismo.
E a vice, agora presidente, é chavista histórica desde jovem. Trump tentou desmoralizá-la, em vez de valorizá-la, como alguns pensaram, quando disse que preferia Delcy, e não a fascista María Corina, cumprindo esse papel para a tal transição.
Desmoralizou Corina, dizendo que ela não tem o respeito dos venezuelanos, e depreciou a vice, ao apontá-la como sua preposta depois do golpe. Delcy estaria acertada com Marco Rubio, seu secretário de Estado.
O que se tem agora é que, diante da posição pública de Delcy em defesa da figura de Maduro e do petróleo como patrimônio nacional, Trump passou a ameaçá-la.
O recado é que pode acontecer com a vice coisa pior do que aconteceu com Maduro, se ela não se submeter às ordens dos americanos.
“Se ela não fizer o que é certo, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que o próprio Maduro”, disse Trump em entrevista à revista The Atlantic, nesse domingo.
Que preço seria esse mais alto do que o sequestro de Maduro? Delcy tem o apoio das Forças Armadas e da estrutura de poder antes comandada por Maduro e uma certeza: não pode trair o chavismo.
Então, o que temos hoje de mais importante é que Delcy Rodríguez é a nova bronca de Trump. Aprendizes de golpes sabem que os americanos podem fazer uma aposta, se a vice vacilar ou se rebelar.
A aposta é o caos, com problemas de abastecimento que provoquem, como já está acontecendo, corrida aos supermercados. Trump pode apostar na desorganização geral do governo, para que o sentimento da população seja o de um país descontrolado.
E aí entraria a segunda parte, para que os EUA assumam o controle absoluto da Venezuela, onde não há, até agora, presença americana. Mas aí, como diria Garrincha, será preciso combinar com os russos.
Em postagem nas redes sociais nesse domingo, a vice foi mais diplomática e até sugeriu que fará concessões:
“Consideramos prioritário avançar rumo a uma relação internacional equilibrada e respeitosa entre os EUA e a Venezuela, e entre a Venezuela e os países da região, baseada na igualdade soberana e na não interferência. Esses princípios norteiam nossa diplomacia com o resto do mundo”.
Mais adiante, escreveu:
“Estendemos um convite ao governo dos EUA para trabalharmos juntos em uma agenda de cooperação, orientada para o desenvolvimento compartilhado, dentro da estrutura do direito internacional, e para fortalecer a coexistência comunitária duradoura”.
Maduro é citado:
“Presidente Donald Trump: Nosso povo e nossa região merecem paz e diálogo, não guerra. Essa sempre foi a posição do presidente Nicolás Maduro, e é a posição de todos os venezuelanos neste momento”.
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Delcy Rodríguez só tem uma certeza, enquanto calibra o discurso para Trump, sem parecer agressiva ou serviçal, e para os venezuelanos que a apoiam, para os quais não pode parecer entreguista: não há como apagar tudo o que já foi e já fez por Hugo Chávez e por Maduro.
E, por isso mesmo, não tem como se submeter a Trump. O duelo americano com a vice pode ser tão dramático quanto foi com o presidente sequestrado com facilidade.