Uma farsa da Justiça com o aval de um juiz de 92 anos. Por Moisés Mendes

Atualizado em 6 de janeiro de 2026 às 6:18
O juiz federal americano Alvin Hellerstein, de 92 anos. Foto: Reprodução

Um magistrado com 92 anos de idade deveria ser preservado da humilhação de avalizar a farsa de Trump com Nicolás Maduro. O juiz federal Alvin Hellerstein topou e ouviu o venezuelano nesta segunda-feira, em Nova York.

Na audiência de custódia, na primeira cena da farsa, o juiz quis saber se estava tudo bem com Maduro, para então avisá-lo de que ele está sendo processado por envolvimento com tráfico de drogas. Ele e a mulher, Cilia Flores.

Imaginem quantos casos passaram pelo juiz Alvin Hellerstein. Quantas vezes ele teve que enfrentar situações absurdas, até chegar à condição de juiz sênior, uma espécie de sábio, pela trajetória e pela idade, num país que prende e condena negros e pobres, como acontece no Brasil.

Mas, pela primeira vez, o juiz se viu diante de um presidente sequestrado e apresentado como preso em flagrante. Não interessa se o preso age como ditador, porque Trump também vem agindo. Não interessa se Maduro mandava na Justiça do seu país, porque Trump também dobra a Justiça americana.

Não importa, nesse caso, se Maduro é perseguidor de inimigos, porque Trump também é. Se houvesse uma régua, por qualquer medida, Trump seria mais fascista e mais gângster do que Maduro.

Só que o “julgamento” deflagrado não teria motivação política, mas criminal. Maduro não está em Nova York, pela acusação formal, como ditador, como diz a Globo, mas como traficante.

Mas o mundo trata como normal que um juiz de Nova York participe da farsa do processo contra Maduro. O juiz sabe que Maduro foi sequestrado, mas sugere que está tudo bem, que a “prisão em flagrante” foi normal.

Nicolás Maduro sebdo transferido por autoridades dos EUA para comparecer em tribunal em Nova York
Nicolás Maduro sendo transferido por autoridades dos EUA para comparecer em tribunal em Nova York. Foto: Eduardo Munoz/Reuters

E os juristas brasileiros, que tudo debatem, se dedicam à hermenêutica do caso Maduro para dizer se isso ou aquilo pode ou não ser legal, sob o ponto de vista do direito internacional.

Todos os jornais informam o seguinte: ao abrir a sessão, o juiz Alvin Hellerstein afirmou que era seu dever e intenção garantir que o processo seja justo. Claro, era uma audiência de custódia.

É numa audiência de custódia que o juiz avalia se aquilo tudo está correto. Que história é essa de invadir um país para sequestrar o acusado que está diante dele?

O juiz se perguntou sobre isso? Um juiz com a trajetória desse magistrado tem essas dúvidas? Outro juiz mais jovem teria essas aflições?

Numa audiência de custódia, o juiz decide o que fazer com o preso, se o mantém na cadeia, preventivamente, ou se o liberta. Claro que Maduro não seria libertado.

A farsa da primeira audiência é tão farsa que qualquer estagiário do foro de São Batista do Caracumim sabe que Maduro foi e voltou para se apresentar ao juiz como preso político. E que continuaria preso.

Essas são as acusações contra Maduro, apresentadas pelo Ministério Público e pelo Departamento de Justiça: conspiração para praticar narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína para os Estados Unidos, uso de armas de guerra em crimes de tráfico e conspiração armada ligada ao narcotráfico.

Fui pesquisar para saber quem é Alvin Hellerstein e descobri que ele é um juiz de casos famosos, entre os quais o julgamento de indenizações relacionadas ao atentado de 11 de setembro, em Nova York.

O The New York Times informa que ele julga casos envolvendo terrorismo, questões de segurança nacional e grandes disputas financeiras.

Foi ele quem condenou por assédio sexual o produtor de cinema Harvey Weinstein. Hellerstein é quem vai cuidar do processo de Maduro. É de se perguntar se precisava. Aos 92 anos, precisava? Para incluir no currículo?

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/