Modelos do OnlyFans lideram lista dos vistos “extraordinários” para os EUA

Atualizado em 6 de janeiro de 2026 às 12:17
Darshan Magdum em montagem com colegas da banda Boythrob. Foto: Reprodução

Influenciadores e produtores de conteúdo adulto online tornaram-se o novo rosto do visto americano de “habilidade extraordinária”. Pensado para artistas consagrados, músicos e nomes de destaque cultural, o O-1 hoje é cada vez mais obtido por pessoas cuja principal prova de distinção são números de seguidores, assinantes e engajamento nas redes.

Segundo reportagem do Financial Times, advogados de imigração afirmam que influenciadores já representam mais da metade de seus clientes do O-1, com forte aumento de pedidos desde a pandemia. Audiências grandes e contratos publicitários viraram indicadores fáceis e mensuráveis de “capacidade excepcional”, alterando de forma silenciosa o modo como autoridades americanas avaliam mérito artístico.

Essa mudança aparece todos os dias nas redes

Há nove semanas, o cantor e criador indiano Darshan Magdum publicou no Instagram um monólogo entre o sério e o irônico: “Sou Darshan, também faço parte do Boythrob, mas estou na Índia, e nosso advogado de imigração disse que precisamos de um milhão de seguidores para conseguir o visto. Aí posso cantar e dançar na América”, disse.

Soa como piada. Para Darshan, porém, não é. Trata-se de uma estratégia real de imigração.

Depois veio um post poético e um tanto caótico, em que Darshan e os outros integrantes da boy band — que gostam de se chamar Boythrob — cantam algo como: “Chega a um milhão no gram, no tok, nas vibes. Jure lealdade à sua banda, ao seu time, aos seus caras… Vai ser a maior noite com que você sonhou, o destino do visto do Darshan” (sim, com referência à Taylor Swift).

Hoje, esse sonho tipicamente digital parece bem mais próximo. Darshan e o Boythrob superaram um milhão de seguidores no TikTok e acumulam mais de 600 mil no Instagram.

De acordo com o grupo e seu advogado, esse marco fortaleceu de forma decisiva o pedido de Darshan pelo O-1, o chamado visto de “habilidade extraordinária”. Basta ler os comentários nos vídeos para ver gente torcendo pela aprovação como se fosse resultado de vestibular.

Darshan já passa de 700 mil seguidores no Instagram, o que adiciona “peso” ao processo. “O Boythrob precisa ficar mais popular para eu conseguir o visto”, ele diz abertamente, citando a orientação do advogado.

Uma banda, dois objetivos, um visto

O Boythrob é uma boy band da era TikTok, com um detalhe curioso. Há coreografia, agasalhos de veludo rosa, tênis amarelos chamativos e ambição pop sincera. O detalhe: a banda nunca se apresentou inteira presencialmente.

Enquanto Evan Papier, Anthony Key e Zachary Sabania estão nos EUA, Darshan segue “preso na Índia”, como ele diz, cantando por Zoom a partir de um laptop ao lado dos colegas.

Um vídeo viral do primeiro show do grupo em uma casa de repouso de Hollywood, no mês passado, consolidou o status cult. A meta de um milhão no TikTok caiu em apenas um mês.

Em entrevista à BBC Newsbeat, o grupo admitiu ter dois objetivos centrais: ganhar um Grammy e “conseguir o visto do Darshan”. Mesmo assim, seguem recebendo comentários que perguntam se tudo não passa de sátira ou arte performática levada longe demais.

Nascido em 24 de dezembro de 2003, Darshan ganhou notoriedade ao postar versões cruas, quase de karaokê, de músicas como Hymn for the Weekend e Blinding Lights, por volta de 2021. O canto propositalmente torto, carregado de humor e constrangimento, gerou memes, debates e, depois, elogios de artistas como Bruno Mars, Rosé e Maroon 5, que compartilharam seus vídeos.

Ele entrou na lista Cool List 2025 da Grazia enquanto construía um tipo de audiência que advogados de imigração passaram a valorizar. E o caso dele está longe de ser único.

Visto americano. Foto: Reprodução

Como surgiu o visto O-1

O O-1 não foi criado para estrelas do TikTok nem para criadores do OnlyFans.

Em 1972, quando o governo Nixon tentou deportar John Lennon por causa de seu ativismo político, não existia um visto específico para artistas. O advogado Leon Wildes entrou com um pedido classificando Lennon como “pessoa de destaque nas artes e ciências”.

Anos depois, o Congresso incorporou essa ideia à Lei de Imigração de 1990, criando a categoria O-1 para pessoas com habilidade extraordinária.

Há dois tipos principais. O O-1A atende áreas como ciência, educação, negócios e esportes. O O-1B é voltado a artistas e profissionais do cinema e da televisão. A proposta era simples: admitir quem trouxesse benefícios relevantes à cultura e à economia dos EUA.

No início, isso significava cantores de ópera, cineastas, gente do teatro e músicos com reconhecimento formal. A internet esticou esse conceito.

Influenciadores e modelos do OnlyFans dominam

Segundo apuração do Financial Times, influenciadores e modelos do OnlyFans passaram a liderar os pedidos de O-1B. O advogado Michael Wildes, cujo pai ajudou a criar a categoria, disse ao jornal que muitos clientes hoje já não são atores ou músicos, mas criadores digitais.

“Eu sabia que a fase de representar nomes icônicos como Boy George e Sinéad O’Connor tinha acabado”, afirmou, ao comentar a virada para o que chamou de “reis e rainhas do scroll”.

Desde a pandemia, o número de influenciadores aprovados para o O-1B disparou. Alguns advogados disseram ao FT que eles já superam metade da clientela.

O motivo é claro: do ponto de vista jurídico, seguidores e faturamento são muito mais fáceis de comprovar do que qualidade artística. “Uma pessoa comum se impressiona facilmente com números grandes de seguidores”, disse Elektra Yao, do Yao Law Group. “Não é preciso ser gênio.”

Os dados confirmam a tendência. Entre 2014 e 2024, o número de vistos O-1 concedidos cresceu mais de 50%, enquanto o total de vistos temporários aumentou cerca de 10%. Mesmo assim, o O-1 segue pequeno no conjunto geral: menos de 20 mil aprovações em 2024, frente a centenas de milhares de H-1B.

Quando curtidas viram prova legal

Advogados relatam que os critérios do O-1B se ajustaram para abarcar criadores online. Audiência elevada e renda expressiva servem como prova de sucesso comercial. Contratos com marcas entram como endossos de talento. Até a presença em inaugurações pode ser apresentada como atuação de destaque em produções reconhecidas.

Para Fiona McEntee, do McEntee Law Group, quando se considera quantas pessoas usam redes sociais e quantas conseguem viver disso, a influência pode ser vista como uma habilidade especializada.

Nem todos concordam. Protima Daryanani, do Daryanani Law Group, alerta para a diluição do nível exigido. “Há casos de pessoas que nunca deveriam ter sido aprovadas e foram”, afirmou, dizendo que o sistema perdeu rigor.

O advogado nova-iorquino Shervin Abachi faz crítica semelhante. Segundo ele, o mérito artístico vem sendo reduzido a desempenho algorítmico. “Os oficiais recebem petições em que o valor é definido quase só por métricas de algoritmo. Quando isso se normaliza, a arte passa a ser tratada como placar”, disse ao FT.

Esse movimento tende a prejudicar artistas com formação tradicional, cujo trabalho não se presta à viralização. À medida que alcance passa a valer como relevância, a discussão deixa a contribuição cultural em segundo plano e se aproxima cada vez mais dos cliques.