
Em entrevista ao New York Times, Donald Trump deixou claro que já não se vê como um presidente submetido a regras, tratados ou limites externos. Disse, sem rodeios, que não precisa do direito internacional e que seu poder é contido apenas por aquilo que chamou de “minha própria moral” e “minha própria mente”. Segundo ele, nada além disso seria capaz de detê-lo.
Ao ser questionado se seu governo deve obedecer às normas internacionais, Trump respondeu com ambiguidade. Admitiu que “sim”, mas logo relativizou, afirmando que tudo depende do que se entende por direito internacional. Na prática, colocou-se como juiz único do que vale ou não vale no plano global.
O tom imperial ficou ainda mais explícito quando falou sobre a Groenlândia. Trump afirmou que “posse é muito importante” e que apenas a propriedade plena garante sucesso. Tratados ou acordos, segundo ele, não bastam. Para Trump, só a apropriação direta assegura controle real, inclusive psicológico. É a lógica do império clássico: território não se negocia, se toma.
Na mesma entrevista, Trump minimizou as consequências de ter derrubado Nicolás Maduro do poder na Venezuela. Rejeitou a ideia de que isso possa abrir caminho para ações semelhantes da China em Taiwan ou da Rússia na Ucrânia. Para justificar os ataques à Venezuela, voltou a repetir acusações de que Maduro teria enviado criminosos e gangues aos Estados Unidos, sem apresentar provas. Comparou a situação com China, Rússia e Taiwan, alegando que esses países não sofrem influxos criminosos semelhantes — numa argumentação confusa e autocentrada.

Sobre Taiwan, Trump disse que uma eventual tomada pela China depende apenas de Xi Jinping. Afirmou ter deixado claro que ficaria “muito descontente” com isso e sugeriu que sua presença na Casa Branca funciona como fator de contenção pessoal. Em tom de ameaça velada, afirmou que talvez isso ocorra apenas quando houver outro presidente.
O mesmo desprezo pelas regras apareceu ao falar do último tratado de controle de armas entre Estados Unidos e Rússia, que expira no próximo mês. Trump mostrou total indiferença: se acabar, acabou. Segundo ele, basta fazer “um acordo melhor” depois, talvez com a inclusão de outros países, como a China.
A entrevista foi publicada em meio a forte tensão interna, após um agente do ICE matar uma mulher em Minneapolis, fato que gerou protestos intensos, e também num momento de desgaste nas relações com aliados europeus, alarmados com a possibilidade de uma investida americana sobre a Groenlândia.
No conjunto, Trump já não fala como chefe de um governo constitucional, mas como alguém que se enxerga acima das leis, dos tratados e dos freios institucionais. O poder, para ele, não emana de normas ou da ordem internacional, e sim de sua vontade pessoal. É a política externa convertida em decreto imperial.